A segunda obra da “trilogia Flicka”, que encerra o ciclo de Bonds literário de John Gardner, começa com uma mudança radical nos escalões do Serviço Secreto, que defendeu a Grã-Bretanha de incríveis ameaças ao longo de décadas. Nos livros anteriores, breves observações sobre a rotina de “M” davam a entender que “o velho-lobo-do-mar” tentava se adaptar aos novos tempos – uma e outra mudança na mobilha, a adoção de novas regras e procedimentos no “quarte general”, etc. Mas, em “Operação Mar Em Chamas”, a renovação é imposta a Miles por meio da completa reciclagem de seu departamento: os Serviços Secretos são divididos e a velha seção Duplo-0 passa a se reportar a um comitê burocrático, o “MicroGlobe 1”.

Os assuntos de segurança, agora, são tratados com impessoalidade – já não há lugar para um “M” nos moldes de Miles (que, em várias ocasiões na série de Gardner, mostrara seu comprometimento com a “causa” dormindo em camas de campanas montadas no escritório). No desfecho da série, o “pai espiritual” de James Bond será substituído por uma “M” mulher, que irá determinar os passos de 007 nos livros da “Era Benson”; os primeiros capítulos de “Operação Mar Em Chamas” já começam a delinear este cenário.

Mesmo contrariado com o estado das coisas no “quarte general”, 007 vive um idílio amoroso com sua nova conquista, Flicka Von Grüssen. Novamente, o ponto de partida para a aventura é um incidente isolado, ocorrido quando o casal faz um cruzeiro pela costa dos Estados Unidos: o navio Caribbean Prince é atacado por “piratas” modernos que tentam pilhar a tripulação. Para sorte dos turistas, Bond e Flicka ainda trabalham bem juntos – mesmo quando estão vestidos – e a ameaça é rapidamente neutralizada. A embarcação é um dos negócios do magnata e self-made man Max Tarn – o novo antagonista de Bond, claramente moldado em Hugo Drax (ainda que sem o visual monstruoso daquele personagem).

Tarn é suspeito de lucrar com a comercialização de armas ilegais, entre outras atividades ilícitas – mas goza de excelente reputação social, tendo sido sagrado Sir nos anos 1970, por conta de suas ações beneficentes. Ao conhecê-lo, Bond descobre que se trata de um indivíduo brutal e paranóico, que usa sua fortuna como fachada para planos escabrosos: sua próxima cartada será torpedear um navio-tanque em Porto Rico para que uma invenção do Grupo Tarn – o SAAPP (Sistema Automático Antipoluição por Petróleo) – comprove sua eficácia junto a políticos e defensores do meio-ambiente. O êxito do SAAPP cobrirá o empresário de glórias, tornando-o uma figura “insuspeita” – a cobertura que ele precisa para intensificar suas verdadeiras atividades: Tarn é o líder do novo partido nazista e quer implantar o 4º Reich na Alemanha dos anos 1990.

A exemplo do que ocorre em muitas novelas de Gardner, a premissa interessante vai perdendo ritmo à medida que a narrativa avança – o que se deve à intromissão de “cacoetes” típicos de seus Bonds: a insistência no tópico do agente-duplo ou traidor (aqui, trata-se de um auto funcionário do governo, que passa informações secretas a Tarn) e a inserção de incidentes gratuítos ou irrevelevantes para o enredo (a simulação da morte do Mau, o assassinato da esposa de Tarn, etc.) A história chega ao clímax com outra cena digna dos filmes da EON – Bond e uma trupe de soldados atacam o refúgio de Tarn usando paraquédas motorizados e põem fim às pretensões do novo fuhrer – e uma ponta de melancolia: Flicka, que estava em poder de Tarn, é resgatada à beira da morte (e às vésperas de se casar com 007), o que representa um retorno ao “incidente Tracy”. Esta situação só seria resolvida na novela seguinte, que encerrou o envolvimento de Gardner com a série literária de James Bond.

Mais preocupado em desenvolver um “tom” próprio para seus entrechos, o autor guardou a maioria das reminiscências sobre a série original para os últimos romances. “M” e Bill Tanner são personagens regulares em seus livros e Sir James Molony (o eminente neurologista que cuidou de Bond em “Só Se Vive Duas Vezes” e “O Homem Da Pistola De Ouro”) fizera uma aparição em “Scorpius”. Mas “Operação Mar Em Chamas” traz de volta o melhor amigo de Bond, o texano Felix Leiter (citado em “Serviços Especiais” mas, naquela obra, representado por sua filha, Cedar). O ex-agente da CIA participa deste caso e até inspira o título de um dos capítulos (“Um Velho Vaqueiro do Texas”) Garnder lançou seu último Bond no ano seguinte, antes de voltar a se dedicar exclusivamente à própria literatura.

“Sexo, Glamour & Balas” de Eduardo Torelli.

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