“Midas” dos softwares, Bill Gates, foi uma peça fundamental na consolidação global da Informática, um evento tão acachapante para a sociedade moderna quanto a Revolução Industrial. Sua Microsoft foi fundada em 1975 com o propósito de desenvolver “interpretadores da linguagem” BASIC (Beginners All-Purpose Symbolic Instruction Code). Em poucos anos, computadores pessoais tornaram-se uma febre e foram assimilados pelos mercados corporativo e doméstico.

Essa realidade já era pressentida na metade dos anos 1980, quando cursos de BASIC e COBOL (a outra linguagem de programação) tornaram-se acessíveis a pioneiros que almejavam um “lugar ao sol” no mercado de Informática. Não é à toa que a programação de computadores e a especulação sobre seu uso no futuro, tenha sido o tema de “Questão de Honra”, quarta novela de 007 escrita por Gardner.

Novamente driblando os “dogmas” de Fleming, o autor abre o livro com uma situação inusitada. Bond (que pensávamos ser órfão e sem laços familiares) é beneficiado com uma herança de um milhão de libras, deixada por “Tio Bruce”, um milionário excêntrico que para se divertir às custas do sobrinho, impõe uma condição para a entrega do dinheiro: durante quatro meses, 007 terá que gastar cem mil libras “de modo frívolo”. Obviamente, o enriquecimento de Bond provoca uma celeuma no Ministério da Defesa. “M”, particularmente, quer saber de onde vem o dinheiro, e se o status de playboy de seu agente predileto afetará suas funções no Serviço Secreto. 007 só almeja comprar um Bentley Mulsane Turbo (atestando sua velha preferência por esta família de carros); mas ele e o chefe acabam percebendo que a herança pode ser usada em favor da organização: se a “oposição” pensar que Bond se tornou um ricaço, inconseqüente o bastante para ser dispensado de suas funções, isto abrirá um precedente para “propostas de trabalho” do inimigo (estratégia que lhes permitirá obter informações valiosas sobre aparatos de inteligência rivais).

Bond cumpre o desejo de “Tio Bruce” e exibe ostensivamente seu novo padrão de vida, e seus superiores deixam “vazar” a informação de que o herói se tornou um risco para a organização. Logo, “olheiras” da oposição assediam Bond e uma rede de encontros misteriosos leva-o a seu novo empregador no submundo: o mago dos computadores Jay Autem Holy, perito em programas de simulação. Os softwares de Holy são usados para treinar ladrões e terroristas pelo grau de realismo com que recriam as variáveis de um grande golpe. Ao ser admitido na equipe de Holy, Bond fica sob a tutela de uma expert em programação, Persephony “Percy” Proud, supostamente agente da CIA , que lhe ensina técnicas de BASIC e COBOL.

Em tempo, o cenário criminoso se descortina: Jay Autem Holy tem “clientes” infinitamente mais poderosos do que simples golpistas. O gênio da computação é braço-direito do novo dirigente da SPECTRE, o mercenário Tamil Rahani, cujo plano é destruir o arsenal bélico das superpotências por meio dos computadores. Holy (que se associou a Rahani por convicções pacifistas) não sabe que o “homem forte” da SPECTRE trabalha sob contrato para os russos, e que o pretendido “desarmamento” será unilateral. Com os EUA de joelhos, os soviéticos avançarão pelo mundo e o dominarão. O plano é frustrado a tempo, mas Rahani consegue fugir, deixando no ar a premosa de outras batalhas entre 007 e a nova SPECTRE.

Um erro de Gardner em sua série de livros foi desperdiçar o bom conceito da SPECTRE, que assim com a SMERSH, constituía o supra-sumo de vilania imaginado por Fleming. Em “Serviços Especiais”, a organização, maior e um pouco descaracterizada (nos romances originais, o exército de Blofeld se constituía de poucos indivíduos, mas tinha uma “alquimia” mais interessante), teve direito a um último grande round contra 007, por meio de Nena Blofeld e seu esquema para tomar o NORAD. Aqui, o plano malígno é insípido, assim como seu idealizador: Rahani é apenas um mercenário, sem as complexidades e a áurea de malignidade dos Blofelds originais.

Nesta obra e na próxima (uma seqüência direta de “Questão De Honra”), Gardner permitiu que o conceito da SPECTRE caducasse inteiramente, quando seria mais interessante explorar a influência desde sindicato criminoso nas “forças policiais e serviços de segurança e de informações” da Europa e dos EUA (idéia sugerida pelo próprio escritor em “Serviços Especiais”. A SPECTRE deveria ter amadurecido e se moldado ao novo mundo, mas ao invés disso, tornou-se um anacronismo maior do que James Bond. Rahani ainda se redimiria de seu papel inglório na novela seguinte, que mostra o personagem sob uma ótica mais interessante, ele financia uma “caçada global” a 007, da qual participam assassinos profissionais de todo o mundo. Mas o legado de Blofeld foi, inegavelmente, “canibalizado” pelos romances de Gardner.

A série, a partir daqui, também começou a apresentar problemas de ritmo e estrutura. Os primeiros capítulos (que mostram Bond gastando o dinheiro do “Tio Bruce” e sendo recrutado por Holy) são incrivelmente confusos, um fator agravado pela torrente de palavreado técnico sobre BASIC e COBOL que infesta as preliminares da trama. Tampouco há um clímax decente, tudo se resolve rápido demais, em uma luta a bordo de um dirigível sobre a Suíla, em que viaja a diretoria da SPECTRE. A impressão é a de que Gardner começava a se fartar dos thrillers de 007, apesar de seu relativo, mas continuado, êxito de vendas.

“Sexo, Glamour & Balas” de Eduardo Torelli.

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