Com a SPECTRE extinta, Gardner retornou a outro ícone flemingiano na novela seguinte: SMERSH, que desempenhara um pequeno papel em “Missão no Gelo”. O prólogo da obra é estimulante e funcionaria muito bem no cinema, como sequência pré-títulos de um filme da EON. A bordo de um submarino britânico, Bond lidera o resgate a dois informantes do Serviço Secreto na costa da Alemanha Oriental. A situação é o ponto de partida da história. Delineada nos capítulos seguintes.

Em um interlúdio que remete a “Somente Para Seus Olhos” (em que “M” incumbe 007 de uma vingança pessoal, empreendida contra Von Hammerstein), o chefe de Bond convida seu melhor agente para um almoço no aristocrático Blades e lhe propõe uma missão delicada: enfrentar os soviéticos sem o apoio do Governo britânico e em caráter ultra-confidencial.

Segundo “M”, os agentes retirados da Alemanha estavam envolvidos em uma mal-sucedida operação do MI6, “Torta de Creme”, que visava infiltrar informantes nas “entranhas” dos serviços de segurança russos. Cumprido o dever, os espiões haviam sido removidos de território inimigo, no entanto, anos depois, começaram a ser mortos, provavelmente a mando da Rússia. Os corpos encontrados em Londres tinham sinais de tortura ritualística. Suas línguas haviam sido arrancadas, um “recado” pouco sutil de que os russos não toleram traidores.

A delicadeza da missão: garantir a segurança de três membros remanescentes de “Torta de Creme”, reside no fato de um deles ser comprovadamente cúmplice dos soviéticos. Ou seja: “Torta de Creme” voltou-se contra os britânicos. Esse “efeito colateral” poderá colocar “M” em maus lençóis com seus superiores  e a situação irá se agravar se ele, oficialmente, tentar ajudar os espiões (os quais o Governo prefere ver mortos, antes que isto crie um embaraço para o Ministério da Defesa). “Se você for apanhado, repudiaremos você”, diz “M” a Bond. Este é um cenário atípico nas aventuras de 007, nas quais o herói tem todo o respaldo de seu país para bancar o São Jorge. A novela também questiona a ética de “M”, sugerindo que apesar da relação especial que tem com Bond, Miles Messervy talvez não se furte de encará-lo como um “objeto” de seus desígnios. Esta é a segunda vez que caprichos pessoais de “M” põem 007 em missões de alto-risco, e esta poderá desmoralizar o agente.

Este senso de drama é característico dos Bonds literários de Gardner na fase posterior a “Serviços Especiais”. Como salientou-se anteriormente, tal artifício agrega densidade aos enredos mas enfraquece as narrativas e é um pouco incompatível com seu teor adolescente. Nos capítulos seguintes, Bond alia- se a Heather Dare (uma das sobreviventes de “Torta de Creme”) em uma busca pelos elos da rede de espionagem que estão sendo eliminados pelos russos. O agente descobre que por trás das execuções, está o General Kolya Chemov, atual líder de SMERSH.

Obviamente, por ter sido escrita em plena fase de ruptura do bloco soviético, a obra tem o cuidado de explicitar que Kolya age independentemente do govemo russo. Bond até conta com o auxilio de outro militar soviético, Maxim Smolin, para se safar dos perigos dessa missão, uma estratégia elementar e funcional também empregada nos filmes de 007 daquele período. Em pane, o ardil permite uma atmosfera de Guerra Fria que ecoa os romances de Fleming, mas o efeito é de curto alcance, pois o tradicional maniqueísmo das obras originais não se manifesta aqui. A ênfase da trama reside, justamente, nas reviravoltas que impedem Bond de estabelecer um julgamento preciso sobre quem é ou não seu aliado. O próprio Smolin é apresentado como um vilão até “mudar de lado” (por razões explicadas no livro) e aderir à causa do mocinho. Na conclusão, descobre-se que Heather Dare era a traidora da “Torta de Creme” (quando se imaginava que fosse uma leal parceira de Bond).

Gardner sabe conduzir essas reviravoltas, particularmente eficazes em “Sem Acordos, Mr. Bond”, mas a verdade é que, depois de “Missão no Gelo” o tópico da traição deixou de ser surpreendente. Em quase todos os livros publicados posteriormente, há traidores ou agentes-duplos infiltrados nas missões do herói. A sexta novela do autor também tem uma conclusão insatisfatória, inserida abruptamente no livro para conferir-lhe alguma adrenalina: capturado por Chernov, 007 é obrigado a enfrentar quatro psicopatas que se intitulam “Os Robinsons”, em um duelo na Baía Tung Wan, nas proximidades de Hong Kong. Trata-se de um inverossímil “teste de sobrevivência”, narrado sem emoção e com suspense pífio, pois sabe-se de antemão que Bond vencerá o jogo. Na conclusão, Chernov é preso e enviado a Londres, sob custódia do Serviço Secreto.

Apesar de aspirar a um nível de dramaticidade superior aos dos romances originais, “Sem Acordos, Mr. Bond” é cercado por limitações instransponíveis: a invulnerabilidade de 007, a necessidade de se estabelecer um jogo de heróis e vilões, a obrigatoriedade de um “final feliz”, etc. Convenções indispensáveis em argumentos dessa natureza.

“Sexo, Glamour & Balas” de Eduardo Torelli.

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