A décima-segunda novela de James Bond assinada por Gardner é o início de uma “trilogia” que encerra esta fase literária do personagem. Os fatores comuns aos três livros (“Nunca Mandem Flores”, “Operação Mar Em Chamas” e “Filhos Do Apocalipse”) são a personagem Fredericka Von Grüsse (um affair duradouro de 007, que quase o faz esquecer Tracy) e um diálogo maior com o absurdo e a fantasia (mesmo que isto não represente uma reconciliação total com os filmes; Os Bond literários permanecem um produto cultural paralelo às superproduções da EON).

Publicada em 1993, “Nunca Mandem Flores” é uma obra representativa da falta de “lastro político” dos entrechos de 007 em meados da década de 1990. O inimigo é um serial killer que faz vítimas por toda a Europa – e entre elas, uma antiga colaboradora do Serviço Secreto, Laura March. O MI6 e o MI5 são atraídos para o caso, assim com a inteligência suíça – pois o crime ocorreu naquele país. Bond e a espiã “Fricka” Von Grüsse unem forças para capturar o assassino – uma colaboração que também se mostra bem-sucedida na cama, pois o casal logo se entrega a um tórrido romance.

As pistas levam a um ex-namorado de March, o ator e colecionador de objetos cenográficos David Dragonpol, que mora em um castelo no Reno. Para colaborar com a investigação, Dragonpol recebe Bond e “Fricka” em sua propriedade – mas acaba se incriminando quando o casal encontra, no castelo, rosas brancas e perfeitas com detalhes rubros nas pétalas – o mesmo tipo de flor enviada aos funerais de todas as vítimas do assassino.

Mais interessante que Dragonpol é seu refúgio medieval, cenário das páginas mais pitorescas da novela: em uma cena deliciosamente nonsense, Bond e Flicka tentam fugir do castelo e se vêem em um anfiteatro futurista equipado com um sistema de “realidade virtual” – é quase uma versão rudimentar de holodeck, da série Star Trek. Talvez esse rififi tenha sido inspirado na conclusão de 007 Contra O Homem Com A Pistola De Ouro, em que Bond explora “a casa maluca” de Scaramanga – mas é uma sequência escrita com dinamismo (e um ponto alto nas estripulias literárias do herói).

No decorrer da missão – que conduz o leitor por um roteiro variado, que incluí a Grécia e a Itália -, Bond e Flicka descobrem que a agenda de crimes de Dragonpol prevê um último e supremo golpe: o assassínio da Princesa Diana e de seus filhos no lúdico cenário da EuroDisney. Bond consegue derrotar seu oponente e retorna aos braços de Flicka. O último capítulo dá a entender que ambos consideram a idéia do casamento, com as bençãos do paternal “M”.

Estes e outros tópicos “pessoais” da obra – a relação Bond – Flicka; as cenas passadas no apartamento de Bond em King’s Road: as breves e memoráveis intrusões da governanta May (que não nutre simpatia pela nova namorada do patrão); etc. – são os atrativos de “Nunca Mandem Flores”, já que não há uma intriga digna de nota neste romance. Mesmo elementos potencialmente eletrizantes – como o castelo de Dragonpol e a pantomina na EuroDisney – são recursos cênicos perdidos em um híbrido de Ian Fleming e Agatha Chrstie que nunca encontra seu ponto de maturação e equilíbrio.

“Sexo, Glamour & Balas” de Eduardo Torelli.

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