A série literária de Gardner prosseguiu com “Serviços Especiais”, outro blend das convenções flemingianas e dos maneirismos da saga da EON. Usualmente, a obra é apontada por fãs como uma das melhores deste autor, ao lado de “Nobody Lives Forever”.

No início da trama, o protagonista impede o seqüestro de um Boing 747 em pleno vôo. Bond está na lista dos passageiros por determinação do Ministério da Defesa, que investiga um “surto” de abduções a aeronaves comerciais. Nenhum grupo terrorista assume a responsabilidade por esses atentados, mas uma frase dita por um dos sequëstradores, pouco antes de morr, leva 007 a suspeitar que sua organização arquiinimiga ressurgiu das cinzas: “In…spector”:

De fato, SPECTRE está de volta, e sob a liderança de um “novo” Blofeld (cuja identidade não é revelada até o clímax do romance). Mais obcevado com programação e método que seu antecessor, este novo Rei do Crime utiliza um bayout na Lousiana (EUA) como base de operações, recorrendo às pítons de um pântano local para punir dissidentes e fracassados da organização. Uma amostra da crueldade de “Blofeld” é dada na cena em que a diretoria de SPECTRE assiste à execução do responsável pelo mal-sucedido seqüestro ao 747: a vítima é devorada por um dos répteis gigantes, atrocidade descrita eloqüentemente por Gardner.

A série de seqüestros a vôos comerciais visa levantar fundos para um plano mais ambicioso, digno dos grandes golpes tramados por SPECTRE no passado. “Blofeld” almeja tomar o controle dos “lobos espaciais”, satélites que podem neutralizar as armas nucleares dos EUA e da Rússia. Isto dará à organização (e a clientes interessados em pagar por essa tecnologia) domínio total do espaço. Obviamente, os “lobos espaciais” são uma alusão ao programa militar “Guerra nas Estrelas”, lançado pelo ex-presidente norte-americano Ronald Reagan no início dos anos 1980 (e um dos tópicos mais polêmicos daquele período).

“Seria possível, depois de tanto tempo?

Fechou os olhos por um instante. O longo vôo e a ação súbita certamente haviam afetado seu cérebro. O fundador, Ernst Stavro Blofeld, estava morto (…). SPECTRE, como uma unidade organizada, expirara com Blofeld. Mas quem podia dizer, com certeza? A organização original se espalhara pelo mundo e, em determinada ocasião, chegara a ter as mãos em praticamente todos os maiores sindicatos do crime, além de se infiltrar nas forças policiais e serviços de segurança e de informações de otodo o chamado ‘mundo civilizado’”

“Serviços Especiais” (Capítulo 2 – 90 Segundos)

O problema é que o acesso aos satélites só será obtido dentro do NORAD, nas Montanhas Cheyenne (EUA), uma fortaleza militar inexpugnável. Para solucionar o impasse, SPECTRE recorre ao magnata Markus Bismaquer, fabricante de sorvetes e dono de uma propriedade rural fabulosa, o “Rancho Bismaquer”. O empresário é fornecedor de suplementos alimentícios para o NORAD e utilizará um alucinógeno denominado “pílula da felicidade” (mesclado ao sorvete consumido pelos militares) para garantir a entrada da SPECTRE na fortaleza. Excêntrico e simpático (Gardner o descreve como um “querubim idoso”), Bismaquer vive em uma réplica de Tara, a mansão do filme …E O vento Levou. Mas sua “propriedade” mais valiosa é Nena Bismaquer, por quem Bond logo se sente atraído:

“Se pudesse existir uma coisa como fogo negro, estaria nos olhos dela, que combinavam cin is cabelos compridos, descendo até os ombros e jogados informalmente para o lado esquerdo, como por um movimento indiferente da mão. O fogo negro ardia de sabedoria, que ia muito além de sua óbvia juventude. O rosto parecia harmonizar-se com o resto do corpo, o nariz comprido e fino, a boca um tanto solene, o lábio inferir levemente mais espesso do que o superior, proporcionando uma insinuação de sensualidade que Bond achou mais do que cativante. (…).”

“Serviços Especiais” (Capítulo 11 – Rancho Bismaquer)

Nena é um dos affairs de James Bond em “Serviços Especiais”, assim como Cedar Leiter (ninguém menos que a filha de Felix, o velho companheiro de aventuras do agente), que representa os interesses da CIA na missão. Não obstante, Cedar é facilmente eclipsada por Nena (até porque Bond, em um arroubo de cavalheirismo, recusa-se a fazer amor com a filha de seu melhor amigo), que se afirma como a principal Bond Girl da aventura.

A mulher de Bismaquer também é o elemento-surpresa do livro: na conclusão, descobre-se que a beldade é filha de Ernst Stavro Blofeld e Irma Bunt. SPECTRE, assim, continua a ser um negócio de família. Eventualmente, o ataque ao NORAD é frustrado, mas Bond é levado por Nena Blofeld ao bayou na Louisiana, onde os dois se enfrentam em uma luta mortal. O agente atira a filha de seu arquiinimigo ao covil das pítons e põe um fim transitório às atividades da SPECTRE.

“Serviços Especiais” não é uma leitura tão fluente quanto “Licença Renovada”, talvez porque a obra não dê continuidade a um dos aspectos mais interessantes do livro anterior: o reposicionamento do herói na década de 1980. Nos próximos livros, o choque cultural entre 007 e a “década perdida” resumiria-se a insípidas observações sobre yuppies, punks e a distensão, aleatoriamente dispersas nos enredos.

“Sexo, Glamour & Balas” de Eduardo Torelli.

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