Após criar superconspirações soviéticas contra a Glasnot, Gardner transportou o mesmo conceito para um trama focada na Alemanha reunida (cujo “muro da vergonha” viera abaixo em 1989). “A Morte É Eterna”, décimo priimeiro romance “apócrifo” de 007, também reedita idéias de “Sem Acordos, Mr. Bond”; de fato, é uma variação daquela novela.

Passado o incidente “Torta de Creme”, o Serviço Secreto britânico tenta segurar a integridade de outra rede de espionagem “clandestina” que está sendo sistematicamente eliminada: “Cabal”, cuja incumbência, na época da Guerra Fria, era fornecer informações sobre a HVA (o equivalente da KGB na Alemanha Oriental) ao MI6. James Bond é convocado para um missão em Frankfurt, Berlim, Paris e Veneza quando relatos sobre as mortes dos ex-espiões começam a chegar do conhecimento de “M”.

O responsável pelos homicídios é outro radical inconformado com as mudanças geopolíticas na Europa: Wolfgang Weisen – vulgarmente conhecido como “o anão venenoso” -, ex-Chefe do Serviço de Segurança da Alemanha Oriental. Figura mítica da Guerra Fria, Weisen teria sido educado pelo próprio Joseph Stálin, que governou a Rússia com mão-de-ferro por 25 anos. A exemplo de outros “comunistas prósperos” enfrentados por Bond, o “anão venenoso” vive faustosamente e mantém os contatos que lhe garantiam poder ilimitado em seu país. Como Yuskovich, o Mau da novela anterior, Weisen tem aspirações ideológicas – mas é mais corrupto que seu antecessor, pois sua fé no Comunismo é mais o produto das compensações que o Regime lhe oferecia do que, propriamente uma questão partidária.

007 conta, novamente, com a ajuda de uma agente norte-americana (algo natural, considerando que, anos antes, os dois países haviam unido forças na “Operação Tempestade no Deserto”, levada a cabo no Iraque): Easy St. John. O herói e sua contraparte logo estão na mira de Weisein – e são capturados pelo “anão venenoso” quando este utiliza seus contatos na Polícia de Veneza (Itália) para frustrar um mal-sucedido “assalto” da equipe de Bond a seu covil. Ao interpelar o antagonista, Bond se vê diante de um Mau de Fleming por definição: embora não seja propriamente um anão, Weisein é um homem diminuto e rechonchudo, tem a cara redonda e é propenso a roupantes infantis. Seu plano, marcado para ocorrer em poucos dias, é explodir o Eurotúnel (via ferroviária que liga a França à Inglaterra por baixo do mar) durante sua inauguração oficial, à qual atenderão os principais dirigentes da Europa e o Chefe de Bond, “M”. Em um desfeixo emocionante, 007 impede o pior e eletrocuta Weisein em uma câmera subterrânea do Eurotúnel salvando o mundo livre e a Democracia de outro flagelo.

Mesmo com uma trama repetitiva (o assassínio de líderes políticos é tema de vários Bonds de Gardner), “A Morte é Eterna” se desenvolve em ritmo ágil, o que restitui à série a adrenalina não encontrada em “O Homem De Barbarossa”. O autor eleva o nível de grand guinol de suas tramas oferecendo, além da grotesca execução de Weisen, uma cena em que 007 quase ingere um escatológico sanduíche de aranhas. Por suas características e métodos, Weisen é um oponente marcante – e talvez estivesse na “elite” dos grandes vilões Bondianos se tivesse um plano mais criativo para ameaçar a ordem mundial.

O que se detecta nos últimos livros da série é uma dificuldade crescente em estabelecer inimigos para o personagem – o que não é culpa do autor, mas uma consequência direta do momento político que se vivia quando estes romances foram publicados. Com as tensões entre Ocidente e Oriente minimizadas, Gardner gastou seus últimos trunfos com “O Homem De Barbarossa” e “A Morte é Eterna”, explorando a fobia imediata de que os velhos regimes pudessem contra-atacar e impedir os avanços políticos da década de 1990. A fantasia e flertes com a literatura policial ou de suspense determinaram os enredos das novelas seguintes.

 “Sexo, Glamour & Balas” de Eduardo Torelli.
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