A primeira tentativa de recriar os Bonds literários foi levada a cabo em 1969, por um ficcionista respeitado – e então, a maior autoridade no 007 de Fleming: Kingsley Amis (1922 – 1955). Mais conhecido como um dos angry young men (“jovens irados”, movimento intelectual de esquerda que promoveu uma revolução cultural nos anos 60), Amis publicara, anos antes, o referencial “The James Bond Dossier” e co-escrevera a intriga de “O Homem da Pistola de Ouro”, de 1965.

O excesso de bagagem e a reverência pelos livros originais talvez tenham sido empecilhos na concepção da obra, “007 Contra Pequim”. Não resta dúvida de que, em cada parágrafo, Amis (que assina a novela com o pseudônimo de “Robert Markham”) paga um tributo a Fleming. seguindo os passos de seu antecessor. Mas o enredo jamais adquire brilho próprio, desenvolvendo-se de forma insegura e se consolidando como a recriação acadêmica de um estilo pré-existente.

O inicio é promissor: em uma ação ousada, pistoleiros a soldo de um poder estrangeiro seqüestram “M” e matam o casal de empregados do chefe do MI6, os Hammond. Testemunha do Ocorrido, Bond é drogado pelos bandidos, que só não o abduzem também porque 007 se refugia em um bosque próximo à casa do patrão, nas cercanias da Estrada de Windsor. Mais tarde, investigando o ocorrido com Bill Tanner, Bond conclui que os inimigos querem que o Serviço Secreto os siga: uma prova “plantada” na cena do crime mostra que o destino dos seqüestradores é a romântica Grécia.

Em Atenas, Bond estabelece contato com dois aliados: a bela Ariadne, agente marxista que colabora com o MI6, e o grego “sanguíneo” Litsas, um veterano do exército local. Litsas é uma espécie de Darko Kerim ou Marc-Ange Draco – “figura intermediária” que assume o papel de “pai espiritual” de Bond nesta novela. As convicções políticas de Ariadne e sua aliança com o herói são indicativas do momento histórico que o Ocidente e o Oriente viviam no fim dos anos 1960, quando a Revolução Cultural de Mao estava em andamento. A China desenvolvera uma bomba de hidrogênio e expandia sua influência na África e no Oriente Médio, tomando-se uma ameaça para os blocos capitalista e socialista.

Nas palavras do herói:

“O Kremlin sabe muito bem que a ameaça principal não é mais o Ocidente e sim,
o Oriente. Seré que isto é novidade para você?”

“007 Contra Pequim” (Capítulo 10 – A Ilha do Dragão)

Relutantemente, britânicos e soviéticos unem forças quando se descobre quem é o mandante do seqüestro de “M”: o Coronel Sun liang-tan, membro do Exército do Povo da China, que planeja um atentado terrorista contra potentados russos em uma reunião diplomática na Grécia. O rapto de M tem um propósito sinistro: o corpo do superior de Bond será encontrado próximo às armas utilizadas no massacre, o que incriminará o governo britânico. Com isto, a influência dos ingleses na região diminuirá, assim como o prestígio dos soviéticos, o que deixará o Mediterrâneo Oriental aberto ao domínio da China.

“Coronel Sun” recria muito da ambientação dos thrillers de Fleming. Há até um ex-carrasco nazista operando junto com o vilão, Von Richter (uma lembrança distante da 2ª Guerra, um tema recorrente nos livros dos anos 1950). Porém, ainda que os ingredientes sejam os mesmos, a mistura é ineficaz: o interlúdio romântico/erótico de Bond e Ariadne surge em momento inoportuno (as preliminares da missão, quando o plano de Sun está prestes a se revelar) e é pobremente descrito (“Bond não demorou a despir-se; segundos depois, estavam carne com carne”). Como odes ao estilo de Fleming, mais bem-sucedidas são a descrição de Sun, que fisicamente se alinha aos maus monstruosos das primeiras novelas (“Era alto para um chinês, tendo quase um metro e oitenta de altura, um dos tipos do norte aproximados dos kambas tibetanos, com ossos grandes e cabeça comprida”) e a cena de tortura do 19º capítulo (quando o vilão introduz um espeto na membrana timpânica de Bond, submetendo-o a uma agonia inominável).

Mas a exemplo do que ocorre em “O Homem da Pistola de Ouro”, o plano do Mau não é digno de um enredo do herói (apesar das implicações políticas do atentado), e a batalha final entre 007 e seu rival é um anticlímax: Sun é morto com uma facada displicentemente desferida por Bond durante um combate corpo-a-corpo. O senso de escapismo e o Teatro de Grand Guinol (descontando-se a mencionada cena do interrogatório) estão ausentes dessa primeira recriação do estilo flemingiano para a literatura.

As novelas do período pós-Fleming caracterizam-se por uma interessante indefinição ideológica no que diz respeito aos vilões e por alianças políticas impossíveis na época de “Cassino Royale” ou “Goldfinger” (algo que também ocorreu no cinema, particularmente, a partir dos anos 1970). Em “Coronel Sun”, esse aspecto se manifesta ironicamente na conclusão da obra, quando Bond quase é laureado com a Ordem da Bandeira Vermelha por “serviços prestados à paz”, uma honra oferecida pelo próprio Leonid Brezhnev, que assumira o poder na União Soviética em 1964, “heresia” que só não se consuma porque agentes britânicos não podem aceitar condecorações. Mas o interlúdio é um indicativo do teor politicamente neutro dos romances seguintes (particularmente, da Era Gardner, que sucedeu a obra de Amis doze anos depois).

“Sexo, Glamour & Balas” de Eduardo Torelli.

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