Em seus embates contra o mal nas décadas de 1980 e 1990, Bond frustrou catástrofes nucleares, ataques à economia ocidental, piratarias envolvendo o domínio no espaço e os arsenais das super potências, atentados políticos e levantes nazistas; também se opôs à vilões como Anton Murick, Nena Blofeld, Garra-Quebrada e Max Tarn – supergângsteres ou líderes messiânicos que, mesmo sem o vulto de Hugo Drax ou Blofeld, puseram à prova o “cinquentão” 007. Mas a ameaça apresentada em “Filhos Do Apocalipse” é, de longe, a mais insípida imposta ao herói: os inimigos são os seguidores da seita que dá título à obra, cujo único propósito é implantar um governo com tendências fascistas nos Estados Unidos.

A trama se divide em duas partes – “Frente Fria” e “Conspiração Fria” – e, como se não fosse suficientemente confusa, ocorre em dois períodos de tempo: o primeiro, anterior à novela “Operação Mar Em Chamas”; o segundo após os eventos daquele livro.

“Frente Fria” é um festival de fogos temático, lançando incidentes por todos os lados e não resolvendo nenhum: a organização de ultra-direta “FA” (“Filhos Do Apocalipse”) é apresentada ao leitor: Sukie Tempesta (uma das Bond Girls de “Nobody Lives Forever”) reaparece; “M” é sequestrado – uma reprise do episódio ocorrido em “007 Contra Pequim”, de Kingslay Amis; e um Boing 747 explode no Aeroporto Internacional de Dules. No capítulo 14, Gardner amarra as duas metades do livro e mostra o conflito entre 007 e a “FA”, liderada pelo militar Brutus Clay e por Sukie Tempesta (agora, fazendo o jogo dos maus). Com a ajuda de outro caso do passado, Beatrice Maria da Ricci (de “Vencer, Perder ou Morrer”), Bond desarticula os planos dos Filhos do Apocalipse, sem grandes dificuldades.

O único aspecto positivo da novela é, novamente, seu background sentimental. O trunfo emotivo é a morte de Flicka – de certa forma, anunciada em “Operação Mar Em Chamas”, mas apenas oficializada no décimo-nono capítulo de “Filhos Do Apocalipse”. 007 recebe a notícia com uma fleuma inabalável, mas Gardner nos deixa entrever que o herói, agora, terá que lidar com outro trauma – como se não bastasse a tragédia envolvendo Tracy, que ainda lhe provoca pesadelos.

“Ele não sentiu nada. Mais tarde, concluiu que seu desgosto tinha ocorrido meses antes, quando tomara nos braços o pobre corpo maltratado em Porto Rico, pensando que ela morrera naquele momento. Mesmo ao notar que ainda estava com vida, ficara com a certeza que estava morrendo – e agora, fora apenas um duro momento de realidade, quando se apercebeu de que todas as vezes que a visitara na clínica fora para se despedir.”

“Filhos Do Apocalise” (Capítulo 19 – Lázaro)

A melancolia se intensifica no capítulo final – quando Bond é informado de que “M” se aposentou. Dirigindo-se à Central para conhecer a nova chefe (e prestes a ouvir um sermão da superiora, descontente com a demora do agente em passar-lhe um relatório sobre o caso), Bond – e Gardner – despedem-se do leitor que acompanhou essa nova fase do personagem em termos que agradaria a Fleming:

“Ele sorriu, rememorando o discurso de Winston Churchill que memorizara na escola:
‘Isso não é o fim. Não é sequer o princípio do fim. Mas talvez, seja o fim do princípio’.
Falando consigo mesmo, disse:
– Bem dito, Churchill. Muito bem dito.”

“Filhos Do Apocalipse” (Capítulo 26 – Enfrentando a Música)

Se no cinema, Bond se renova com as mudanças dos atores que o interpretam, nos livros essa mágica se dá por meio da troca de autores. Finda da Era Gardner, foi a vez de Raymond Benson assumir a série 007 em um novo ciclo de novelas.

“Sexo, Glamour & Balas” de Eduardo Torelli.

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