Aqui você pode ler na íntegra a primeira edição de “Casino Royale” lançada no Brasil em 1965 pela Editora Civilização Brasileira S.A.. Com tradução original feita por Thomaz Souto Corrêa na época, todas as expressões da edição original estão preservadas na reprodução abaixo.

1 — O Agente Secreto

2 — Relatório para M

3 — Número 007

4 — O Inimigo Ouve Tudo

5 — A Moça do Quartel-General

6 — Dois Homens de Palhêta

7 — Vermelho e Preto

8 — Luzes Cor-de-Rosa e Champanha

9 — O Jogo é Baccarat

10 — A Mesa Forte

11 — A Hora da Verdade

12 — A Bengala Mortífera

13 — “Um Sussurro de Amor, Um Sussurro de Ódio”

14 — “La Vie En Rose”?

15 — Lebre Preta e Cão Cinzento

16 — Um Arrepio na Pele

17 — “Meu Caro Rapaz”

18 — Um Rosto de Pedra

19 — A Tenda Branca

20 — A Natureza Do Mal

21 — Vésper

22 — O Automóvel Apressado

23 — Maré de Paixão

24 — Fruit Défendu

25 — Venda Preta No Olho

26 — “Durma Bem, Minha Querida”

27 — Um Coração Sangrando de Dor

Às três horas da manhã, o ambiente de um cassino é praticamente irrespirável: o suor e a fumaça misturam-se para resultar num cheiro quase nauseabundo. É nessa hora que o jogo alto começa a corroer a alma dos jogadores, com um misto de avareza, de medo e de tensão nervosa. E é nessa hora que esta sensação se torna insuportável, os sentidos do jogador acordam e se revoltam.

De repente James Bond sentiu que estava cansado. Ele sempre sabia quando seu corpo e sua mente estavam esgotados e sempre agia de acordo com isso. O simples fato de tomar consciência de que estava cansado fazia com que Ele evitasse o desinteresse e a insensibilidade sensual, duas sensações que podem provocar muitos erros.

Calmamente deu as costas para a mesa da roleta onde es tava jogando c chegou ate a barra de metal dourado que cercava a mesa principal de jogo da sala privada.

Le Chiffre ainda estava jogando e, pelo jeito, ganhando. Diante dele, havia uma pilha desarrumada de várias fichas de cem mil francos. Seu pesado braço esquerdo projetava uma sombra sobre uma discreta pilha de fichas amarelas, cada uma das quais valia meio milhão de francos.

Durangpo, Bond observou o perfil estranho e impressionante de Le Chiffre. Depois, encolheu os ombros como se quisesse desanuviar os pensamentos e afastou-se.

A grade que protege o caixa chega até a altura do queixo das pessoas que o vêem de fora, e o caixa — que geralmente não passa de um modesto funcionário de banco — fica sentado num banquinho, mergulhado entre pilhas de fichas e de notas. As fichas ficam distribuídas em prateleiras, atrás do caixa, à altura da cintura de quem olha de fora. O caixa tem um cacetete e um revólver para protegê-lo. Debruçar sobre a grade, roubar algumas notas, saltar de volta e sair do cassino, atraves sando todas as passagens e portas, é impossível. Sem contar que os caixas normalmente trabalham aos pares.

Bond refletia sobre este problema enquanto recebia o maço de notas de cem mil e em seguida os maços de notas de dez mil francos. Com outra parte do cérebro, teve uma visão da reunião rotineira que a diretoria do Cassino teria na manhã seguinte.

“Monsieur Le Chiffre ganhou dois milhões. Fez o jogo de sempre. Miss Fairchild ganhou um milhão numa hora e saiu. Em uma hora, ela quebrou três vezes a banca de monsieur Le Chiffre e saiu. Ela jogou friamente. O visconde de Valorem ganhou um milhão na roleta. Ele estava jogando o máximo nas primeiras e nas últimas dúzias. Teve sorte. E o inglês, mister Bond, aumentou seu lucro para exatamente três milhões nos útimos dois dias. Ele estava na mesa cinco, jogando um sistema progressivo no vermelho. Duclos, o encarregado do jogo, tem todos os detalhes. Aparentemente, mister Bond é perseverante e paga sempre em máximos. E tem muita sorte. Seus nervos parecem bons. À noite, o chemin-de-fer ganhou x, o baccarat ganhou y, e a roleta ganhou z. O boule, que estava outra vez mal freqüentado, mesmo assim pagou as despesas”.

“Merci, monsieur Xavier”. “Merci, monsieur le Président”.

Ou algo parecido com isso, pensou Bond enquanto empurrava as portas de vaivém da saía privada e acenava com a cabeça para o homem em traje a rigor e de ar aborrecido, cujo trabalho é barrar as entradas ou saídas e apertar eventualmente o comutador elétrico no chão, para trancar automaticamente a porta a qualquer sinal de distúrbio.

E a diretoria do Cassino faria o balanço de seus lucros, depois todos iriam para casa ou para algum restaurante almoçar.

Quanto a roubar o caixa, coisa em que Bond não estava pessoalmente empenhado, mas somente interessado, pensou que seriam necessários uns dez homens, que eles certamente teriam de matar um ou dois empregados e que, de qualquer maneira, não se encontrariam na França nem em outro país qualquer dez homens que ficassem com a boca fechada depois de um trabalho destes.

Quando deu mil francos de gorjeta ao rapaz do vestiário e desceu as escadas do cassino, Bond decidiu que Le Chiffre em nenhuma circunstância tentaria roubar a caixa; e colocou esta hipótese fora de suas cogitações. Em lugar disso, explorou suas sensações físicas do momento. Sentiu o pedregulho seco incomodando-o através da sola fina de seus sapatos de noite, sentiu um gosto ruim, áspero na boca e um ligeiro suor debaixo dos braços; os olhos inchados, o nariz congestionado. Respirou pro fundamente o doce ar da noite e reconcentrou os sentidos. Que ria saber se alguém havia revistado seu quarto desde que saíra para jantar.

Atravessou a larga avenida e os jardins até o Hotel Splendide. Sorriu para o homem da portaria, que lhe entregou a chave — n.° 45, primeiro andar — e apanhou o telegrama.

Era da Jamaica e dizia:

KINGSTONIA

BOND SPLENDIDE ROYALE-LES-EAUX BAIXO SENA

PRODUÇÃO CHARUTOS HAVANA TODAS FÁBRICAS CUBANAS 1915

DEZ MILHÕES

REPITO DEZ MILHÕES PT ESPERO QUE ISTO RESPONDA SUA

PERGUNTA LEMBRANÇAS

DASILVA

O que significava que havia, para Ele, dez milhões de francos a caminho. Era a resposta de um telegrama que Bond mandara naquela tarde para seu quartel-general em Londres, através de Paris, pedindo mais dinheiro. Paris falara com Londres, onde Clements, o chefe do Departamento de Bond, falara com M, que sorrira meio de lado e dissera ao “corretor” para arranjar o dinheiro com o Tesouro.

Bond já trabalhara uma vez na Jamaica e a identidade que estava usando no caso Royale era a de um cliente muito rico dos Caffery, a principal firma de exportação e importação da Jamaica. Por isto, todos os seus contatos eram feitos através da Jamaica, utilizando um homem taciturno, chefe do Departamento Fotográfico do Daily Gleaner, o famoso jornal do Caribe.

Este homem, chamado Fawcett, tornara-se contador de uma das mais importantes firmas de pesca de tartaruga das ilhas Cayman. Nascido nas ilhas, apresentou-se como voluntário no co meço da guerra e terminou como funcionário da tesouraria de uma pequena organização naval do serviço secreto em Malta. No fim da guerra, preparava-se para voltar meio a contragosto para as ilhas Cayman, quando foi descoberto pela seção do Serviço Secreto encarregada do Caribe. Passou por um duríssimo curso intensivo de fotografia e de outras artes até que, com a discreta ajuda de um homem influente da Jamaica, conseguiu chegar ao Departamento Fotográfico do Gleaner.

Além de selecionar o material fotográfico apresentado pelas grandes agências — Keystone, Wide World, Universal, INP e Reuter — Ele recebia instruções peremptórias, por telefone, de um homem que nunca vira na vida, para executar determi nadas operações que não requeriam nada demais, a não ser discrição absoluta, rapidez e exatidão. Por esses serviços oca ionais, recebia 20 libras por mês depositadas em sua conta do Banco Real do Canadá por um parente fictício na Inglaterra.

No momento, a obrigação de Fawcett era passar a Bond imediatamente, na íntegra, os textos das mensagens que recebia em sua casa, pelo telefone, de um contato anônimo. Esse mesmo contato já lhe dissera que nada que lhe fosse pedido para enviar despertaria suspeitas nos Correios da Jamaica. Assim, Fawcett não se surpreendeu quando se viu subitamente apontado para o cargo de correspondente da Maritime Press and Photo Agency, com facilidades para enviar material de imprensa para a França e Inglaterra, mais dez libras de ordenado mensal.

Fawcett sentiu-se seguro, encorajado e deu a entrada para um Morris. Comprou também uma dessas viseiras verdes que via jornalistas usando no cinema e que o ajudariam a impor sua personalidade no Departamento Fotográfico do Gleaner.

Alguns desses antecedentes de Fawcett passaram pela lembrança de Bond, enquanto lia o telegrama. Bond já estava habituado ao sistema de controle indireto e gostava do método. Sentia certo conforto com isso, sabendo que podia assim atrasar ou adiantar de uma ou duas horas suas comunicações com M. Sabia também que talvez isto não fosse verdade, pois provável mente haveria um outro membro do Serviço Secreto em Royale-les-Eaux informando Londres independentemente, mas dava-lhe a sensação de que não estava de fato a somente 240 quilômetros de distância, cruzando o canal, daquele terrível edifício perto de Regents Park, sendo observado e julgado por aqueles frios cérebros que faziam o espetáculo funcionar. Como Fawcett, o homem das ilhas Cayman, que morava em Kingston, também sabia que, se comprasse o seu Morris à vista e não a prazo, alguém em Londres provavelmente saberia e quereria averiguar de onde Ele teria tirado o dinheiro.

Bond leu o telegrama duas vezes. Arrancou uma fórmula de telegrama do bloco que estava sobre o balcão (por que deixar uma cópia de carbono para eles?) e escreveu a resposta em le tras de fôrma:

OBRIGADO SUA RESPOSTA DEVE BASTAR

BOND

Entregou-a ao homem da portaria e colocou o telegrama assinado “Dasilva” no bolso. Com uma gorjeta, algum empregado do hotel (se fosse o caso) poderia conseguir uma cópia do telegrama na agência do correio, se o homem da portaria já não tivesse aberto o envelope com vapor ou lido o telegrama de cabeça para baixo, na mão de Bond.

Pegou a chave do quarto, disse boa-noite e voltou-se para as escadas, balançando negativamente a cabeça para o ascensorista. Bond sabia que o elevador pode ser um bom sinal para o perigo. Não esperava encontrar ninguém andando pelo primeiro andar, mas preferia ser prudente.

Subindo os degraus nas pontas dos pés, Bond lamentou não ter pedido mais dinheiro a M, via Jamaica. Como jogador, sabia que é um erro confiar num capital muito pequeno. De qualquer maneira, M provavelmente não enviaria muito mais. Encolheu os ombros c saiu da escada para o corredor caminhando mansamente em direção à porta de seu quarto.

Bond sabia exatamente onde era o comutador e num único movimento parou na soleira da porta completamente aberta, com a luz acesa e um revólver na mão. O quarto vazio, sem perigo nenhum, caçoou dele. Ignorou a porta semi-aberta do banheiro e, depois de trancar a porta de entrada, acendeu a lâmpada de cabeceira e a do espelho e jogou o revólver sobre o sofá ao lado da janela. Curvou-se e inspecionou um de seus próprios cabelos negros, que não fora tocado no lugar em que o deixara antes de sair para o jantar, enfiado na gaveta da escrivaninha.

Em seguida, examinou a leve camada de talco que deixara na parte interna do puxador de porcelana do armário de roupas. Parecia imaculada. Entrou no banheiro, levantou a tampa da caixa de água e verificou o nível da água de acordo com uma pequena arranhadura na bóia de cobre.

Fazendo isto tudo, inspecionando esses improvisados alar mas contra ladrões, Ele não se sentia nem consciencioso nem idiota. Era um agente secreto, ainda vivo graças a essa atenção minuciosa que dedicava a todos os detalhes de sua profissão. Precauções como rotina eram coisas tão razoáveis para Ele quanto para um mergulhador, um piloto de provas ou qualquer outro homem que ganhe a vida perigosamente.

Satisfeito com o fato de que seu quarto não havia sido re vistado durante sua ausência, enquanto estivera no Cassino, Bond despiu-se e tomou um chuveiro frio. Depois acendeu seu septuagésimo cigarro do dia e sentou-se diante da escrivaninha, com o volumoso maço do dinheiro dos cacifes e dos lucros ao lado, e anotou em um caderninho algumas somas. Em dois dias de jogo, ganhara três milhões de francos, exatamente. Em Londres, haviam entregue a Ele dez milhões e Ele já pedira a Londres mais dez milhões. Com esta soma a caminho da filial local do Crédit Lyonnais, seu capital de trabalho montava a vinte e três milhões de francos, ou cerca de vinte e três mil libras.

Por uns momentos, Bond permaneceu sentado, imóvel, olhando pela janela o mar escuro; depois, enfiou o maço de notas debaixo do travesseiro da cama de solteiro toda cheia de enfeites, escovou os dentes, apagou as luzes e enfiou-se entre os ásperos lençóis franceses com uma sensação de alívio. Durante dez minutos permaneceu deitado sobre o lado esquerdo, refletindo nos acontecimentos do dia. Depois virou-se e concentrou todos os seus pensamentos no túnel do sono.

Seu último gesto foi escorregar a mão direita para baixo do travesseiro, até tocar a coronha do Colt 38 de cano curto. Então adormeceu e assim que se extinguiram em seus olhos o calor e o humor, seu rosto transformou-se numa máscara taciturna, irônica, brutal e fria.

Duas semanas antes, o seguinte memorando tinha ido da Seção s do Serviço Secreto para M, que era e é ainda hoje o chefe deste departamento adjunto ao Ministério britânico de Defesa:

Para: M

De: Chefe da S

Assunto: Um plano para a destruição de Monsieur Le Chiffre (aliás “O Número”, “The Number”, “Herr Nummer”, “Herr Ziffer” etc.), um dos agentes-chefe da Oposição na França e Tesoureiro clandestino do ‘”Sindicato dos Operários da Alsácia”, organização controlada pelos comunistas, que reúne os operários da indústria pesada e de transportes da Alsácia e, co mo já sabemos, uma importante “quinta-coluna'” no caso de uma guerra contra os vermelhos.

Documentação: A biografia de Le Chiffre, feita pelo chefe do Arquivo, está no apêndice A. Há também uma nota sobre Smersh, que constitui o apêndice B.

Estamos notando já há algum tempo que Le Chiffre está entrando em águas profundas. Em quase todas as circunstâncias ele é um agente admirável da URSS; mas seus hábitos grosseiros e suas predileções são um calcanhar de Aquiles, do qual já temos conseguido tirar vantagens, de tempos em tempos, e uma de suas amantes é uma eurasiana (N.° 1860), controla da pela Estação F, que recentemente conseguiu obter algumas informações sobre seus assuntos particulares.

Para encurtar, parece que Le Chiffre está às portas de uma crise financeira. Algumas pequenas indicações neste sentido fo ram observadas pela 1860 — discretas vendas de lojas, a venda de uma vila em Antibes e uma tendência geral para evitar gastos demasiados, que eram normais em sua vida diária. Investigações posteriores foram feitas com o auxílio de nossos amigos do “Deuxième Bureau” (com os quais temos trabalhado em conjunto neste caso) e uma curiosa estória veio à luz.

Em janeiro de 1946, Le Chiffre comprou o controle de uma cadeia de bordéis, conhecida como “Cordon Jaune” (Cordão Amarelo), que opera na Normandia e na Bretanha. Foi bastante irresponsável, a ponto de empregar neste negócio cerca de cinqüenta milhões de francos da verba que lhe fora confiada pela III Seção de Leningrado para o financiamento do SODA, a organização sindical mencionada acima.

Normalmente, o “Cordon Jaune” revelar-se-ia um excelente investimento; e é possível que Le Chiffre tenha sido levado mais pelo desejo de aumentar seus fundos sindicais do que pela esperança de aumentar sua própria fortuna especulando com o dinheiro dos patrões. De qualquer maneira, está claro que Ele poderia ter encontrado outros investimentos mais aceitáveis do que a prostituição, se não tivesse sido tentado pelos lucros de ilimitado número de mulheres para seu próprio uso.

O destino castigou-o com uma presteza terrível.

Nem três meses depois, no dia 13 de abril, foi promulgada uma lei na França, de n.° 46.685, intitulada “Lei visando ao fechamento das casas de tolerância e ao reforço da luta contra o proxenetismo”.

(Quando M leu esta frase, resmungou e apertou o botão do aparelho de comunicação interna-“Chefe da S?” “Sim, senhor”.

“Que diabo quer dizer esta palavra?” Soletrou-a. “Exploração de mulheres, senhor”.

“Isto aqui não é uma Escola de Línguas, chefe da S. Se você quer mostrar seus conhecimentos sobre como enrolar a língua para dizer palavras estrangeiras, faça a gentileza de providenciar um abridor de latas. Ou, melhor, escreva em inglês”, “Desculpe, senhor”.

M soltou o botão e voltou a ler o memorando.) Esta lei (prosseguiu Ele na leitura), conhecida popular-mente como a “lei Marthe Richard”, fechando todas as casas de má fama e proibindo a venda de filmes e livros pornográficos, virou de pernas para o ar o investimento de Le Chiffre quase da noite para o dia, e de uma hora para outra Ele teve de enfrentar um sério déficit em seus fundos sindicais. Em desespero de causa, transformou as casas de tolerância em maisons de passe, onde encontros clandestinos podiam ser realizados à margem da lei, e continuou a operar um ou dois cinemas bleus clandestinos; mas essas modificações não serviram de maneira alguma para cobrir suas perdas e todas as tentativas para vender os investimentos, mesmo com pesados prejuízos, falharam da mais desanimadora maneira possível. Enquanto isso, a Polícia de Costumes estava em seu encalço e em pouco tempo vinte ou mais de seus estabelecimentos foram fechados.

É claro que a Polícia só estava interessada nesse homem por ser um importante dono de bordéis, e foi preciso que demonstrássemos certo interesse em suas finanças para que o “Deuxième Bureau” desenterrasse o relatório que estava em mãos de seus colegas da polícia.

O significado de toda esta situação tornou-se claro para nós e para nossos amigos franceses e, nestes últimos meses, uma verdadeira caçada foi feita pela polícia aos estabelecimentos do “Cordon Jaune”; como resultado, hoje nada resta do investi mento original de Le Chiffre e qualquer investigação de rotina acusaria um déficit de cerca de 50 milhões de francos nos fun dos do sindicato em que Ele era tesoureiro e pagador-chefe.

Aparentemente, Leningrado ainda não suspeitou de nada; mas, infelizmente para Le Chiffre, é possível que Smersh já es teja no seu encalço. Na semana passada, uma alta fonte da Seção P informou que um oficial do eficiente órgão de vingança soviético deixara Varsóvia com destino a Estrasburgo, via setor oriental de Berlim. O “Deuxième Bureau” não confirmou esta informação, nem as autoridades em Estrasburgo (que são dignas de confiança e eficientes), e também não temos informações do quartel-general de Le Chiffre, que está sendo bem vigiado por um agente duplo, empregado deles que trabalha também para nos (e que ajuda a 1860) .

Se Le Chiffre soubesse que Smersh está no seu encalço ou que eles têm a mais leve suspeita dele, não haveria outra alter nativa; tentaria suicidar-se ou fugir; mas seus planos atuais in dicam que, se bem que não haja dúvida alguma sobre o fato de que está desesperado, ainda não desconfiou que sua vida pode estar em perigo. São esses planos um tanto espetaculares que nos sugeriram a contra-operação que, apesar de arriscada e inu sitada, confiantemente apresentamos no fim deste memorando.

Para resumir, acreditamos que os planos de Le Chiffre se guirão o exemplo de outros autores de desfalques desesperados, que tentam cobrir o déficit de suas contas no jogo. A Bolsa é muito lenta. O mesmo ocorre com os vários tráficos ilícitos de drogas ou de remédios difíceis de encontrar, aureomicina, strep-tomicina e cortisona. Nenhum prado de corridas poderia agüen tar o tipo de apostas que Ele teria de fazer, e, caso ganhasse, teria mais probabilidades de ser morto do que de ser pago.

De qualquer maneira, sabemos que Ele retirou os últimos 25 milhões de francos do cofre do seu sindicato e que alugou uma pequena vila perto de Royale-les-Eaux, um pouco ao norte de Dieppe, durante uma semana, há uma quinzena.

Espera-se, assim, que o Cassino de Royale veja o mais alto jogo da Europa neste verão. Num esforço para desviar o dinheiro grosso de Deauville e Le Touquet, a Sociedade dos Ba nhos de Mar de Royale arrendou o baccarat e as duas principais mesas de chemin-de-fer ao Sindicato de Mahomet Ali, um grupo de banqueiros e homens de negócios emigrados do Egito que, ao que se diz, entraram em alguns fundos reais e que há alguns anos estão tentando entrar também nos lucros de Zographos e seus sócios gregos que têm o monopólio das mais altas bancas francesas de baccarat.

Mediante uma discreta publicidade, um número considerá vel dos maiores operadores da América e da Europa foi encorajado a jogar em Royale neste verão e é possível que esta anti quada estação de águas recupere um pouco do renome que tinha na era vitoriana.

Seja como for, estamos certos de que é lá que, no dia 1.5 de junho, ou nos dias que se seguirem, Le Chiffre tentará ganhar no baccarat 50 milhões de francos com um capital de 25 mi lhões (e, incidentalmente, salvar a própria vida).

Contra-operação proposta

Seria de grande interesse para este país e para as outras na ções da Organização do Tratado do Atlântico Norte (nato) que este poderoso agente soviético fosse ridicularizado e des truído, que seu sindicato comunista fosse à falência e desacre ditado, e que esta “quinta-coluna” em potencial com efetivo de 50 mil, capaz, em tempo de guerra, de controlar um vasto setor da fronteira norte da França, perdesse a fé e a coesão. Tudo isto aconteceria se Le Chiffre fosse derrotado na mesa de jogo. (N.B. — Não teria sentido assassiná-lo. Leningrado cobriria rapidamente suas dívidas e faria dele um mártir).

Portanto, recomendamos que ao melhor jogador perten cente ao Serviço fossem dados os fundos necessários para tentar vencer este homem no jogo.

Os riscos são óbvios e as possíveis perdas para os fundos do Serviço Secreto seriam altas; mas houve outras operações em que grandes quantias foram arriscadas com menor chance de êxito, muitas vezes por objetivos menores.

Se a decisão for desfavorável, a única alternativa seria co locar todas as nossas informações e recomendações nas mãos do “Deuxième Bureau” ou de nossos colegas norte-americanos da Agência Central de Inteligência (cia) em Washington. Am bas as organizações, sem dúvida alguma, ficariam encantadas em levar adiante este esquema.

Assinado: S.

Apêndice A. Nome: Le Chiffre.

Alcunhas- variações das palavras “cifra” ou “número” em lín guas diferentes; e.g., “Herr Zipher”.

Origem: desconhecida.

Encontrado pela primeira vez como deslocado, cam po de Pessoas Deslocadas de Dachau no setor norte-americano da Alemanha, em junho de 1945. Aparen temente sofrendo de amnésia e paralisia das cordas vo cais (fingimento?). O tratamento curou a mudez, mas o paciente continuou a queixar-se de total perda da memória, exceto algumas associações de idéias que Fez com a Alsácia-Lorena e Estrasburgo, para onde foi transferido em setembro de 1945 com um passaporte de apátrida, n.° 304 596. Adotou o nome “Le Chif fre” (“já que eu não passo de um número em um pas saporte”). Não consta nenhum nome de batismo.

Idade: cerca de 45 anos.

Descrição: 1 metro e 85 de altura, 114 quilos de peso. Pele muito clara. Barba rapada. Cabelo castanho-avermelhado, cortado rente. Olhos castanhos bem escuros com o branco aparecendo em toda a volta da íris. Boca pequena e um pouco feminina. Dentes postiços de ótima qualidade. Orelhas pequenas com lóbulos gran des, indicando a presença de um pouco de sangue ju daico. Mãos pequenas, bem cuidadas, peludas. Pés pequenos. Quanto à raça, trata-se provavelmente de uma mistura de mediterrâneo com traços prussianos ou polacos. Veste-se bem e com meticulosidade, geralmen te ternos escuros, de feitio jaquetão. Fuma incessante mente Caporals, usando um filtro contra a nicotina. Periodicamente aspira um inalante de benzedrina. Voz suave e modulada. Fala francês e inglês correntemente. Bom conhecimento de alemão. Sinais de sotaque marselhês. Sorri pouco. Nunca ri.

Hábitos: Muito gastador, mas discreto. Grande apetite sexual. Flagelador. Motorista perito em carros rápidos. Trei nado em pequenas armas e outras formas de luta pes soal, inclusive facas. Leva 3 lâminas de barbear mar ca Eversharp na fita do chapéu, no salto do sapato esquerdo e na cigarreira. Conhecimentos de contabi lidade e matemática. Ótimo jogador. Sempre acompa nhado de dois guarda-costas armados, bem vestidos, um francês, outro alemão (detalhes disponíveis) .

Comentários: um formidável e perigoso agente da URSS, con trolado pela III Seção de Leningrado através de Paris.

Assinado: Arquivista. Apêndice B.

Assunto: Smersh

Fontes: arquivos próprios e material esparso fornecido pelo “Deuxième Bureau” e pela cia de Washington.

Smersh é a conjunção de duas palavras russas: “Smyert Shpionam”, que significa a grosso modo “mor te aos espiões”.

É superior à mwd (antiga nkvd) e acredita-se que esteja sob a direção pessoal de Béria.

Quartel-general: Leningrado (subseção em Moscou).

Sua tarefa é a eliminação de todas as formas de traição e desvios dentro dos vários setores do Serviço Secreto soviético e da Polícia Secreta no país e no ex terior. É a mais poderosa e a mais temida organização da URSS e popularmente acredita-se que nunca falhou numa missão de vingança.

Suspeita-se que Smersh foi responsável pelo assassínio de Trotsky no México (22 de agosto de 1940) e talvez tenha realmente feito nome com o êxito deste crime, depois que já haviam falhado os atentados rea lizados por outros agentes e organizações russas.

Voltou-se a falar novamente em Smersh quando Hitler atacou a Rússia. A organização expandiu-se rapidamente para ficar à altura dos adversários e en frentar traições e agentes duplos durante a retirada das forças soviéticas em 1941. Naquela época, ela trabalhava com um grupo de execução para a nkvd e sua atual missão seletiva ainda não estava tão cla ramente definida.

Depois da guerra, registrou-se um expurgo com pleto na organização e atualmente acredita-se que con sista somente de algumas centenas de operadores de altíssima qualidade, divididos em 5 seções:

Departamento I: encarregado de contra-espiona gem entre as organizações soviéticas no país e no ex terior.

Departamento II: operações, inclusive execuções.

Departamento III: administração e finanças.

Departamento IV: investigações e serviço jurídi co. Departamento do Pessoal.

Departamento V: acusações — a seção onde é feito o julgamento final de todas as vítimas.

Só um agente da Smersh caiu em nossas mãos desde o tempo da guerra: Goytchev, aliás Garrad-Jones. Ele alvejou Petchora, oficial-médico da Embai xada Iugoslava em Hyde Park, a 7 de agosto de 1948.-Durante o interrogatório, suicidou-se engolindo um botão do casaco que continha cianureto de potássio. Nada revelou, além de ser membro da Smersh, do quase gabava arrogantemente.

Acreditamos que os seguintes agentes duplos bri tânicos foram vítimas da Smersh: Donovan, Harthrop-Vane, Elizabeth Dumont, Ventnor, Mace, Savarin (para detalhes, ver Necrotério: Seção Q).

Conclusão: Todos os esforços devem ser envidados para aumen tar nossos conhecimentos sobre esta poderosa organi zação e destruir seus agentes.

O chefe da S (a seção do Serviço Secreto encarregada da União Soviética) estava tão seguro de seu plano para a destruição de Le Chiffre que pegou o memo rando e o levou pessoalmente ao último andar do sombrio edifício, atravessando a porta verde e seguindo o corredor até a última sala.

Caminhou agressivamente até o chefe de gabinete de M, um jovem oficial que conquistara seus galões como membro do secretariado da comissão dos Chefes de Gabinete, depois de ter sido ferido em uma missão de sabotagem no ano de 1944, mas que conservava seu senso de humor apesar de ambas as expe riências.

“Escute aqui, Bill. Quero vender algo ao chefe. Você acha que o momento é propício?”

“Qual a sua opinião, Penny?” O chefe de gabinete voltou-se para a secretária particular de M, que dividia a sala com Ele.

A srta. Moneypenny seria uma mulher atraente se não fos se seu olhar frio, direto e irônico.

“Acho que não tem problema. Ele obteve uma pequena vitória esta manhã no Ministério do Exterior e não tem nenhuma entrevista marcada na próxima meia hora.” Penny sorriu para o chefe da S, encorajando-o. Ela gostava dele, tanto por sua simpatia como pela importância de seu cargo.

“Bem, aqui está a bomba, Bill.” E entregou a pasta preta com a estrela vermelha que significa Segredo de Estado. “E pelo amor de Deus faça um olhar entusiasmado quando você entregar isto a Ele. E diga-lhe também que eu aguardo aqui lendo um bom livro de códigos enquanto Ele examina o material. Talvez Ele queira saber alguns detalhes a mais, e de qualquer maneira quero ver se vocês dois não o amolam com outra coisa até que Ele termine de ler.”

“Está bem.” O chefe de gabinete apertou o botão e abai xou a cabeça em direção ao aparelho de intercomunicação de sua mesa.

“Sim?” — perguntou uma voz baixa e seca.

“O chefe da S tem um relatório urgente para o senhor”.

Houve um pequeno silêncio.

“Traga-o aqui”, disse a voz.

O chefe do gabinete soltou o botão e levantou-se.

“Obrigado, Bill. Estarei na sala ao lado,” disse o chefe da S.

O chefe de gabinete atravessou o escritório e cruzou a por ta dupla que levava à sala de M. Voltou logo em seguida e em cima da porta acendeu uma luzinha azul indicando que M não devia ser incomodado.

Mais tarde, o chefe da S, triunfante, disse a seu assistente: “Quase nos queimamos com aquele último parágrafo. Ele disse que era subversão e chantagem. Ficou zangadíssimo com isso. De qualquer maneira aprovou. Disse que a idéia é maluca, mas que vale a pena tentar se o Tesouro entrar na brincadeira, e Ele acha que entra. E vai dizer a eles que esta é uma maneira muito melhor de arriscar o dinheiro do que ficar ajudando esses coronéis russos desertores que viram bandeira depois de alguns meses de asilo aqui. A verdade é que Ele quer pegar Le Chiffre. Além disso acha que tem o homem certo para este trabalho e quer experimentá-lo”.

“Quem é?” — murmurou o assistente.

“Um dos zeros-duplos — acho que o 007. É um sujeito durão e M acha que pode haver barulho com os pistoleiros de Le Chiffre. Parece também que é um grande jogador, caso con trário não teria sentado toda noite no Cassino de Monte Cario durante dois meses antes da guerra, observando aqueles rome nos que faziam trapaça com tinta invisível e óculos escuros. No fim, Ele e os agentes do Deuxième acabaram com os romenos e o 007 ainda devolveu um milhão de francos que ganhara no chemin-de-fer. Um bom dinheiro naqueles tempos.”

Foi curta a entrevista de James Bond com M.

“O que você acha, Bond?” — perguntou M quando Bond voltou à sala depois de ler o memorando do chefe da S e depois de ficar uns dez minutos olhando sonhadoramente, pela janela da ante-sala, as árvores do parque, lá longe.

Do outro lado da mesa, Bond encarou os olhos claros e penetrantes de M.

“É muita gentileza de sua parte. Eu gostaria de fazer este trabalho. Mas não posso garantir que vencerei. As probabilidades no baccarat são as melhores, depois das do trente-e-quarante — quantias redondas sempre, exceto para o pequeno “barato” — mas eu posso pegar uma maré ruim e sair limpo. O jogo vai ser muito alto — acho que já começa com meio milhão”.

O olhar frio de M Fez com que Bond se calasse. Ele já sabia disso tudo, conhecia as probabilidades do baccarat tão bem quanto Bond. Seu trabalho era exatamente este — saber as probabilidades de tudo, conhecer os homens, tanto os que traba lhavam com Ele como os do inimigo. Intimamente, Bond dese jou ter ficado calado sobre suas próprias apreensões.

“Ele também pode ter uma maré de azar”, disse M. “Você levará bastante dinheiro. Uns 25 milhões, a mesma coisa que Ele. Você começará com 10 milhões e nós mandaremos os ou tros 10 depois que você der uma olhada na situação. Os cinco milhões que faltam você poderá ganhá-los sozinhos.” M sorriu. “Vá alguns dias antes que comece o jogo grosso e já fique son dando o ambiente. Fale com Q sobre acomodações, trens e qual quer equipamento que você queira. O tesoureiro providenciará o dinheiro. Pedirei ao Deuxième para cooperar. Aquela região é deles e do jeito que as coisas vão teremos muita sorte se eles não começaram a achar ruim. Tratarei de persuadi-los a mandar Mathis para lá. Aparentemente vocês se deram bem em Monte Cario naquele outro caso de cassino. Também tenho que informar Washington, por causa da nato. A cia tem um ou dois bons homens trabalhando em Fontaineblau com os nossos amigos do Serviço Secreto de lá. Mais alguma coisa?”

Bond balançou a cabeça.

“Eu gostaria muito de ter Mathis lá comigo”.

“Bem, talvez isto seja possível. Procure vencer. Caso con trário vamos ficar com cara de idiota. E tome cuidado. Pelo jeito, parece um trabalho divertido, mas acho que não vai ser nada’ disso. Le Chiffre não é de brincadeira. Enfim, boa sorte”.

“Obrigado,” disse Bond, e voltou-se em direção à porta.

“Um minuto”.

Bond virou-se.

“Acho que mandarei alguém para ajudá-lo, Bond. Duas ca beças funcionam melhor do que uma e você precisará de alguém para transmitir suas comunicações. Vou pensar nisto. Eles en trarão em contato com você lá em Royale. Mas não se preo cupe com isto. Será uma pessoa eficiente”.

Bond teria preferido trabalhar sozinho, mas ninguém dis cute com M. Saiu da sala desejando que mandassem um homem leal, que não fosse estúpido nem, muito pior, ambicioso.

Parte dessas lembranças passaram pelos pensamentos de James Bond quando, duas semanas depois, ele acordou uma manhã no Hotel Splendide.

Dois dias antes, chegara a Royale-Les-Eux a tempo de al moçar. Ninguém tentara entrar era contato com Ele, nem se re gistrou o menor sinal de curiosidade quando Ele assinou no livro de registros do hotel “James Bond, Port Maria, Jamaica”. M não vira nenhuma necessidade de um nome suposto. “Logo que começar a enfrentar Le Chiffre nas mesas de jogo, você será imediatamente notado”, dissera Ele. “Mas apa rente uma situação que possa enganar as outras pessoas”.

Bond conhecia bem a Jamaica e por isso pediu para ser controlado de lá e para usar a identidade de um rico plantador cujo pai fizera fortuna com tabaco e açúcar e que decidira es banjá-la especulando na Bolsa e nos cassinos. Se alguém per guntasse alguma coisa, Ele citaria Charles Dasilva, de Caffery, Kingston, como seu procurador. Charles confirmaria toda a estória.

Bond passara as duas últimas tardes e a maior parte das noites no cassino, jogando complicados sistemas progressivos nos números pares da roleta. Sempre que tinha uma boa chance no chemin-de-fer, jogava alto. Se perdia, ainda ia mais uma vez, mas não continuava se perdesse de novo.

Desta maneira, ganhou uns três milhões de francos, além de treinar bem os nervos e sua intuição de jogador. Fixou o mapa do Cassino claramente na memória. Mas acima de tudo conseguiu observar Le Chiffre jogando e notou a contragosto que se tratava de um jogador perfeito e com muita sorte.

Bond gostava de um bom café-da-manhã. Depois de to mar um chuveiro frio, sentou-se à escrivaninha diante da janela. Enquanto observava o lindo dia lá fora, consumiu meio litro de suco de laranja gelado, três ovos mexidos com bacon e duas xícaras grandes de café preto sem açúcar. Acendeu seu primeiro cigarro, uma mistura especial feita para Ele por Morland, de Londres, com fumo importado da Turquia e dos Bálcãs. Depois, ficou olhando as pequenas ondas que lambiam a areia da praia comprida e a frota de pesca que deixava Dieppe em fila para desaparecer atrás da onda de calor que o sol de junho provoca va em cima do mar. Um bando de gaivotas seguia os barcos, parecendo pedacinhos de papel voando.

Ele estava imerso em seus pensamentos quando o telefone tocou. Era da portaria anunciando que um diretor da Rádio Stentor estava esperando lá embaixo com o aparelho de rádio de ondas curtas que Ele havia encomendado de Paris. “Está certo”, disse Bond. “Mande-o subir”. Esta era a identidade que o Deuxième Bureau determinara para o homem que trabalharia junto com Bond. Bond ficou olhando a porta, esperando que fosse Mathis.

Quando Mathis entrou, um respeitável homem de negócios carregando um grande pacote quadrado por uma alça de couro, Bond abriu um largo sorriso e teria cumprimentado o amigo efusivamente se Mathis não fizesse uma careta e levantasse a mão livre num gesto de silêncio, depois de fechar a porta cuida dosamente.

“Acabo de chegar de Paris, meu senhor, c aqui está o apa relho que o senhor pediu para experimentar — cinco válvulas, freqüência modulada, e o senhor poderá ouvir a maioria das capitais européias aqui em Royale. Não há montanhas em ne nhuma direção num raio de 60 quilômetros”.

“Parece que está tudo bem”, disse Bond, levantando as so brancelhas diante de tamanho mistério.

21

Mathis não deu confiança. Desembrulhou o aparelho e co locou-o no chão ao lado do painel do aquecedor elétrico apa gado, debaixo do beirai da lareira.

“Já passa das onze — disse Ele — e acho que os “Compagnons de la Chanson” devem estar agora no programa de ondas médias irradiado de Roma. Eles estão viajando pela Eu ropa. Vamos ver como está a recepção. Deve ser um bom teste para o aparelho”.

Mathis piscou o olho. Bond reparou que Ele havia ligado o rádio no maior volume possível e que a luz vermelha da faixa de ondas longas estava acesa, embora o aparelho ainda estivesse em silêncio.

Mathis mexeu atrás do aparelho. Subitamente um espanto so ronco de estática encheu o pequeno quarto. Mathis olhou o aparelho durante alguns segundos com ar de benevolência e depois desligou-o. Sua voz dava a impressão de um grande de sânimo.

“Meu caro senhor, perdoe-me, por favor. Sintonizei mal”. E novamente curvou-se em direção aos botões do aparelho. De pois de fazer alguns acertos, uma melodiosa canção francesa veio ao ar, e Mathis caminhou até Bond abraçando-o calorosa mente e apertando sua mão até que os dedos começassem a doer.

Bond devolveu o sorriso. “Que diabo?” — perguntou.

“Meu querido amigo”, Mathis estava encantado, “já des cobriram você. Aí em cima”, apontou para o teto, “neste preciso momento ou Monsieur Muntz ou sua falsa esposa, supostamente acamada com gripe, estão surdos, completamente surdos, e es pero que agonizantes”. Ele sorriu de prazer com a careta in crédula de Bond.

Mathis sentou-se na cama e abriu um maço de Caporal com a unha do polegar. Bond esperou.

Mathis estava satisfeitíssimo com a sensação que suas pa lavras haviam provocado. Tornou-se sério.

“Como aconteceu, não sei. Eles devem ter recebido notí cias a seu respeito muitos dias antes de você chegar. A oposição está muito bem organizada aqui em Royale. Em cima de você, encontra-se a família Muntz. Ele é alemão. Ela é de algum lu gar da Europa Central, talvez tcheca. Este hotel é antigo. Exis tem chaminés fora de uso atrás desses aquecedores elétricos. E bem aqui”, apontou um pouco acima do painel elétrico, “há um poderoso receptor de rádio. Os fios sobem pela chaminé até atrás do aquecedor elétrico dos Muntz, onde há um amplificador. No quarto deles, há um gravador e um par de fones nos quais os Muntz ouvem tudo o que se passa aqui, revezando-se de tempos em tempos. É por isso que Madame Muntz está gripada e toma todas as refeições na cama e é por isso que Mon sieur Muntz tem de estar constantemente ao lado dela, em lugar de aproveitar o sol e as mesas de jogo deste recanto encantador”.

“Algumas destas coisas nós descobrimos porque na França somos muito espertos. O resto confirmamos desmontando este seu aquecedor elétrico algumas horas antes de você chegar”.

Desconfiado, Bond levantou-se e foi examinar os para fusos que seguravam o painel na parede. Notou minúsculos arranhões.

“Está na hora de fazer um pouco mais de teatro”, disse Mathis. Dirigiu-se ao aparelho de rádio que ainda estava trans mitindo música para aquele pequeno auditório de três pessoas e desligou-o.

“Está satisfeito, cavalheiro?” — perguntou. “Notou como a transmissão é clara? Eles cantam muito bem, não?” Fez um gesto de brincadeira com a mão direita e levantou as sobrancelhas.

“Eles são tão bons”, respondeu Bond, “que eu gostaria de ouvir o resto do programa”. E sorriu ao pensar nos olhares furiosos que os Muntz estariam trocando lá em cima. “O apa relho parece esplêndido. É exatamente o que eu estava querendo levar comigo para a Jamaica”.

Mathis Fez uma careta sarcástica e ligou outra vez o pro grama de Roma. “Você e a sua Jamaica”, disse Ele sentando-se outra vez na cama.

Bond devolveu a careta. “Bem, agora não adianta recla mar”, disse Ele “Não esperávamos que o disfarce pegasse por muito tempo, mas o que me preocupa é que eles descobriram cedo demais”. Como teria isso sido possível? Será que os russos haviam decifrado um dos nossos códigos? Em caso afirmativo, o melhor que Ele tinha a fazer era arrumar as malas e voltar para Londres. Tanto Ele quanto seu trabalho teriam sido des cobertos.

Mathis pareceu Ler os pensamentos de Bond. “‘Não pode ter sido um código”, disse Ele. “De qualquer maneira, comuni camos imediatamente a Londres e eles já o terão modificado. Posso dizer a você que causamos um grande movimento”. Sorriu com a mesma satisfação de um amigo rival. “E agora vamos ao que interessa, antes que os nossos amigos aí no rádio percam o fôlego.

“Antes de mais nada” — deu uma boa tragada no seu Caporal — “você ficará contentíssimo com a pessoa que foi designada para auxiliá-lo. Ela é linda (Bond franziu a testa), realmente linda”. Contente com a reação de Bond, Mathis prosseguiu: “Bem morena, olhos azuis e magnificamente. . . ahn… protuberante. Na frente e atrás”, acrescentou. “E é uma perita em transmissão de rádio o que, apesar de ser menos interessante sexualmente, faz dela uma funcionária perfeita da Rádio Stentor e minha assistente neste cargo que eu ocupo de vendedor de aparelhos de rádio de ondas curtas para esta rica cidade balneária”. Sorriu. “Estamos os dois hospedados neste mesmo hotel e minha assistente estará sempre por perto caso seu novo rádio quebre. Todo aparelho novo, mesmo sendo francês, pode ter problemas no primeiro ou no segundo dia. Ou à noite também”, acrescentou Ele, piscando exageradamente para Bond.

Este não achou nenhuma graça. “Que diabo! Por que será que eles me mandaram uma mulher?”, resmungou Ele. “Será que eles pensam que isto aqui é um piquenique?”

Mathis interrompeu-o:

“Acalme-se, meu caro James. Mais eficiente do que ela você não poderia desejar, nem com mais sangue-frio. Ela fala francês como se tivesse nascido aqui e conhece o trabalho de trás para a frente. A suposta identidade que ela usa é perfeita e eu já arrumei para que o primeiro encontro de vocês seja muito natural. Aliás, o que seria mais natural do que você arranjar uma linda garota por aqui? Como um milionário da Jamaica”, tossiu respeitosamente, “com sangue latino e tudo o mais, você pareceria nu sem uma mulher”.

Bond resmungou, como se duvidasse da explicação.

“Alguma outra surpresa?” — indagou desconfiado.

“Nada de excepcional”, respondeu Mathis. “Le Chiffre está instalado na vila que comprou, e que fica a uns 16 quilômetros daqui, descendo a estrada que acompanha o mar. Anda sempre com dois guarda-costas, que têm jeito de ser bem eficientes. Um deles já foi visto visitando uma pensãozinha na cidade, onde três sujeitos, misteriosos e meio animalescos, se registraram há três dias. Talvez eles façam parte do grupo. Seus papéis estão em ordem — ao que parece são apátridas tchecos — mas um dos nossos homens disse que a língua que eles falam no quarto em que estão hospedados é búlgaro. Não se vêem muitos deles por aqui. Na maior parte das vezes, são usados contra turcos e iugoslavos. São burros, mas obedientes. Os russos utilizam-nos para assassínios simples ou então como chamariz para outros assassínios mais complicados”.

“Muito obrigado pela parte que me toca. Em qual das duas categorias eu estou incluído?” — perguntou Bond. “Algo mais?”

“Não. Venha ao bar do Hermitage antes do almoço. Eu farei as apresentações. Convide-a para jantar hoje à noite. Assim, será muito natural ela entrar no cassino com você. Eu também estarei lá, mas nos bastidores. Estarei acompanhado de um ou dois sujeitos muito bons, e não perderemos você de vista. Ah, há também um americano aqui chamado Leiter, hospedado no hotel. Felix Leiter. É o agente da cia em Fontainebleau. Londres mandou-me avisar você. Ele parece ok. Talvez seja útil”.

Uma torrente de palavras em italiano irrompeu do aparelho de rádio. Mathis desligou-o e os dois trocaram algumas frases sobre o aparelho e sobre como Bond deveria efetuar os paga mentos. Depois despediram-se efusivamente e, com uma pis cadela final, Mathis inclinou-se e saiu.

Bond sentou-se à janela e reuniu os pensamentos. Nada do que Mathis dissera dava para inspirar confiança. Ele estava completamente descoberto e realmente vigiado por profissionais. Um atentado para botá-lo fora de combate poderia acontecer mesmo antes que tivesse uma chance de competir com Le Chiffre nas mesas de jogo. Os russos não têm preconceitos bobos contra assassínios. E agora havia essa peste dessa mulher. Bond suspirou. As mulheres são para a gente divertir-se. No trabalho, elas atrapalham e complicam as coisas com sexo, com senti mentos feridos e com toda a bagagem emocional que trazem consigo. A gente tem que tomar cuidado com elas, tem que tomar conta delas.

“Vaca!”, disse Bond, e lembrando-se dos Muntz, repetiu “Vaca!” mais alto ainda e saiu do quarto.

EXATAMENTE QUANDO O relógio da Prefeitura batia o carrilhão do meio-dia Bond deixou o Splendide. Havia no ar um perfume forte de pinheiros e mimosas, e os jardins do Cassino recém-regados, com caminhos de cascalho entremeando os canteiros bem cuidados, emprestavam à cena um formalismo lindo, mais apropriado ao cenário de um bale do que de um melodrama.

O sol brilhava, a alegria e a animação que se sentiam no ar pareciam prometer uma nova era de moda e prosperidade para a qual a pequena cidade balneária, depois de muitas vicissitudes, preparava-se galantemente.

Royale-les-Eaux, que fica perto do estuário do Somme, antes que a costa baixa das praias do sul da Picardia suba até os rochedos da Bretanha que vão até o Havre, teve a mesma sorte que Trouville.

Royale (sem les-Eaux) também começou como uma peque na aldeia de pescadores, e atingiu a fama, como estação de águas da moda durante o Segundo Império, tão meteòricamente quanto Trouville. Mas da mesma maneira que Deauville matou Trou ville, depois de um longo período de declínio, Le Touquet matou Royale.

No começo do século, quando as coisas iam muito mal para a pequena cidade praiana e quando a moda era combinar o prazer com uma estação de cura, descobriu-se que havia nas colinas atrás de Royale uma fonte natural sulfurosa que trazia resultados benéficos para quem sofresse do fígado. Como todo o povo francês sofre do fígado, Royale tornou-se rapidamente Royale-les-Eaux e a água de Royale, numa garrafa em forma de torpedo, entrou modestamente no fim da lista de águas minerais servidas nos hotéis e nos carros-restaurantes.

Mas esta situação não agüentou por muito tempo a poderosa união das águas Vichy, Perrier e Vittel. Seguiu-se uma série de processos; uma porção de gente perdeu uma porção de dinheiro e logo a venda das águas de Royale voltou a ser somente local. Royale passou outra vez a viver das famílias francesas e inglesas que só apareciam durante o verão, do que a sua frota de pesca conseguia apurar no inverno, e das quantias que sobravam de Le Touquet e que caíam como migalhas nas mesas do Cassino elegantemente dilapidado de Royale-les-Eaux.

Contudo, havia algo de esplêndido no barroco negresco deste Cassino, um forte sopro de elegância e de luxo puramente vitorianos. Em 1950, Royale caiu nas graças de uma companhia de Paris que dispunha de grandes somas pertencentes a um grupo de expatriados de Vichy.

Brighton havia sido revivido depois da guerra, e Nice também. De modo que despertar uma certa nostalgia dos tempos passados, com todo seu brilho, poderia ser uma fonte de renda.

O Cassino foi repintado de dourado e branco, suas cores originais, e os salões decorados em cinza-claro, com cortinas e tapetes vermelhos. Grandes lustres foram dependurados dos tetos. Os jardins foram replantados, as fontes jorraram novamente e os dois hotéis principais, o Splendide e o Hermitage, foram tam bém repintados, redecorados e reequipados com toda uma criadagem nova.

Até mesmo a cidadezinha e o velho porto conseguiram mos trar um sorriso de boas-vindas em suas expressões marcadas e a rua principal alegrou-se com as vitrinas dos grandes joalheiros e costureiros de Paris, tentados por uma pequena tem porada cujos principais atrativos eram os aluguéis baratos e as esperanças de algumas extravagâncias.

Então convenceu-se o sindicato de Mahomet Ali a começar um jogo forte no Cassino e a Sociedade dos Banhos de Mar de Royale teve a sensação de que agora, finalmente, Le Touquet teria de devolver parte do tesouro que roubara durante anos de sua cidade-irmã.

No cenário luminoso e faiscante desse palco, Bond deteve-se um momento ao sol e sentiu que sua missão era estranha àquele ambiente e que sua sombria profissão era uma afronta aos seus companheiros de palco.

Mas afastando a sensação de momentâneo mal-estar de que fora acometido, deu a volta por trás do hotel e desceu a rampa da garagem. Antes de comparecer ao encontro marcado no Her mitage, resolveu dar uma volta em seu carro pela estrada beira-mar, afim de observar rapidamente a vila de Le Chiffre e de pois’ voltar pelo caminho de dentro até cruzar a estrada que leva a Paris.

O carro de Bond era seu único “hobby”. Tratava-se de um dos últimos modelos Bentley, de quatro litros e meio, com um supercarburador construído por Amherst Villiers, que Ele com prara quase novo em 1933 e que conservara cuidadosamente guardado durante a guerra. Era sempre revisado uma vez a cada ano e, em Londres, um antigo mecânico da Bentley, que trabalhava numa oficina perto do apartamento de Bond, em Chelsea, cuidava dele com extremo cuidado. Bond dirigia-o firme e ve lozmente, com um prazer quase sensual. Era um cupê conver sível cinza-chumbo, capaz de fazer 90 milhas por hora facil mente, mas que, se necessário, alcançaria uma velocidade de 120 milhas.

Bond tirou o carro da garagem, subiu a rampa e logo o ronco suave do escapamento se fazia ouvir na avenida cer cada de árvores, pela movimentada rua principal da cidadezi nha e afastando-se em direção ao sul, cortando as dunas da praia.

Uma hora depois, Bond entrou no bar do Hermitage e sentou-se numa mesa perto de uma das amplas janelas.

A sala era suntuosa, repleta desses enfeites masculinos que, somados a cachimbos de roseira e cachorros fox de pêlo duro, representam na França o máximo em luxo. Tudo era forrado de couro com tachinhas de metal dourado e mogno polido. As cor tinas e os tapetes eram azul-rei. Os garçons usavam jaquetas e aventais de feltro verde. Bond pediu um coquetel “Americano” e examinou os outros fregueses, todos eles elegantemente vestidos, a maioria provavelmente de Paris, que conversavam animadamente criando aquela atmosfera borbulhante e teatral que caracteriza a hora do aperitivo.

Os homens bebiam champanha dessas garrafas de um quarto, que pareciam não acabar mais, e as mulheres martini seco.

“Moi, j´adore le martini” dizia uma moça de rosto brilhante para seu companheiro, muito arrumadinho num terno de tweed, que olhava para ela com seus olhos castanhos igualmente brilhantes, atrás do cabo de uma finíssima bengala comprada no Hermes, “fait avec du Gordons, bien entendu”.

“D’accord, Daisy. Mais tu sais, un zeste de citron…”

A figura alta de Mathis na calçada, seu rosto voltado ani madamente para uma moça morena vestida de cinza, chamou a atenção de Bond. Estavam de braços dados, mas mesmo assim notava-se uma falta de intimidade entre os dois, uma expres são irônica e fria no rosto da moça que fazia com que eles pa recessem mais dois desconhecidos do que um casal. Bond es perava que eles entrassem no bar, mas, para salvar as aparên cia continuou a observar pela janela as pessoas que passavam la.

“Mas veja quem está aqui! Monsieur Bond!” Vinda de trás, a voz de Mathis tinha um tom de alegre surpresa. Bond levan tou-se, aparentando aquela leve confusão própria de momen tos assim. “Não me diga que está sozinho! Ou espera alguém? Posso apresentá-lo à minha colega, mademoiselle Lynd? Minha cara, este é o cavalheiro da Jamaica com quem tive o prazer de fechar um negócio hoje de manhã.”

Bond inclinou-se com reservada delicadeza. “É um grande prazer”, disse Ele à moça. “Estou realmente sozinho. Gostariam de me fazer companhia?”

Puxou uma cadeira e, enquanto sentavam, Fez um sinal ao garçom. Apesar dos protestos de Mathis, insistiu em oferecer as bebidas — um conhaque com água para Mathis e um Bacardy para a moça.

Mathis e Bond conversaram alegremente sobre o bom tem po e sobre as perspectivas de um rico renascimento para Royale-les-Eaux. A moça permaneceu em silêncio. Aceitou um cigarro de Bond, examinou-o e fumou-o sem afetação, com um ar apreciativo tragando profundamente com um pequeno suspiro e soltando a fumaça casualmente pela boca e pelo nariz. Movi mentava-se pouco, mas com precisão, sem o menor sinal de embaraço.

Bond sentia sua forte presença. Enquanto conversava com Mathis voltava-se de vez em quando para ela, incluindo-a cortesmente na conversa, mas sentindo aumentar a impressão que ela lhe provocava cada vez que a olhava. Tinha os cabelos muito pretos, cortados retos na altura da nuca, emoldurando o rosto com a’ linha bem marcada do queixo. Sempre que ela se mexia, seu cabelo se desarrumava um pouco, mas ela não se incomoda va e deixava-o à vontade. Tinha os olhos bem separados e da um azul-escuro que olhavam inocentemente para Bond com um toque de irônico desinteresse, expressão esta que, a contragosto, Ele sentiu que gostaria de desfazer, nem que fosse rudemente. Tinha a pele levemente queimada de sol, sem nenhum traço de pintura a não ser na boca larga e sensual. Os braços nus e as mãos seguiam aquela linha de desenho que inspira à gente acima de tudo uma grande sensação de repouso; enfim, toda esta apa rência de personalidade controlada, mesmo nos menores movi mentos, se estendia também às unhas, curtas e sem esmalte. No pescoço, usava uma corrente simples de ouro, de elos largos e chatos e, no quarto dedo da mão direita, um grande anel de topázio. O vestido de seda grossa, cinzento, colava sensualmente o decote quadrado da blusa nos seios firmes. A saia caía, em pregas finas, de uma cintura estreita, mas não frágil, marcada por um cinto preto, feito à mão. Na cadeira ao lado, uma bolsinha, também feita à mão, e um chapéu de abas largas, feito de palha dourada, com um laço de veludo preto. Nos pés, sa patos pretos de ponta quadrada.

Toda essa beleza excitava Bond, tanto quanto sua com postura o intrigava. A perspectiva de trabalhar com a moça já começava a estimulá-lo. Ao mesmo tempo, porém, sentiu uma vaga inquietação, e num impulso bateu na madeira.

Mathis notou que Bond estava preocupado. Minutos depois, levantou-se.

“Desculpe-me”, disse Ele à moça, “vou telefonar aos Dubernes, para confirmar meu jantar com eles hoje à noite. Você tem certeza de que não há mesmo problema nenhum em ficar sozinha hoje?”

Com a cabeça, ela Fez que não.

Bond não perdeu a deixa. Enquanto Mathis atravessava a sala em direção ao telefone, atrás do bar, disse: “Se você vai ficar mesmo sozinha à noite, não gostaria de jantar comigo?”

Ela sorriu, e este sorriso foi a primeira manifestação da parte dela de que os dois estavam conspirando. “Gostaria muito”, respondeu ela, “e depois talvez você me acompanhasse ao Cassino. Monsieur Mathis contou que você se sente muito à vontade lá. E talvez eu possa lhe dar um pouco de sorte”.

Com a partida de Mathis, a atitude dela ganhou um calor repentino. Era como se tomasse consciência de que os dois re presentavam mesmo uma equipe de trabalho. Enquanto dis cutiam a hora e o lugar de encontro para a noite, Bond chegou à conclusão de que, apesar de tudo, seria bem fácil arquitetar todos os detalhes de seu plano com ela. Teve a impressão de que ela demonstraria bastante interesse no trabalho, que estava excitada pelo papel que iria desempenhar e que se empenharia na missão com a maior boa vontade. Ele imaginara que muitos obstáculos surgiriam antes que ambos chegassem a entender-se, mas agora achava que já podia entrar diretamente nos detalhes profissionais. Nada disso, porém, impedia que Ele encarasse sem a menor hipocrisia, ao contrário, com a maior honestidade, a sua própria situação diante da moça. O que Ele queria mesmo era dormir com ela, mas somente depois de terminado o tra balho.

Quando Mathis voltou, Bond pediu a conta, explicando que tinha de ir para o hotel, almoçar com alguns amigos. Du rante o breve momento em que segurou a mão da moça para despedir-se, sentiu uma onda de afeto e compreensão passai entre eles e achou que isso teria sido impossível uma hora antes.

Os olhos da moça seguiram Bond afastando-se pelo boulevard.

Mathis aproximou sua cadeira da dela: “Ele é muito meu amigo e eu gosto muito dele. De modo que estou contente com o encontro de vocês dois. Já notei o degelo dos dois rios.” Sorriu. “Aliás, nunca tive notícias de nenhum degelo em James Bond. Será uma nova experiência para Ele. E para você”.

Ela não respondeu diretamente.

32

“Ele é muito bonito. Lembra muito o Hoagy Carmichael, mas há algo frio e cruel na maneira com que Ele…”

Não chegou a terminar a sentença. De repente, o vidro in teiro da janela que ficava a alguns passos dali transformou-se em confete. O estrondo de uma violenta explosão, muito pró xima, atirou-os com cadeira e tudo para trás. Houve um ins tante de silêncio. Alguns objetos caíram na calçada lá fora; gar rafas das prateleiras do bar se espatifaram no chão. Só então alguns gritos, enquanto as pessoas corriam para a porta.

“Fique aí”, disse Mathis.

E, empurrando a cadeira para trás, saltou pela janela que brada e correu para a rua.


Ao deixar o bar, Bond escolheu deliberadamente a calçada que acompanhava a avenida arborizada para voltar ao hotel, que ficava somente a alguns metros dali. Estava com fome.

O dia ainda estava lindo, só que agora o sol queimava muito mais e as árvores, separadas de sete em sete metros na faixa de grama entre a calçada e o asfalto, projetavam uma sombra gostosa.

Havia pouca gente na rua e os dois homens silenciosamen te de pé do outro lado da avenida, debaixo de uma árvore, pa reciam realmente deslocados naquele cenário.

Bond notou-os quando ainda estava a uns cem metros e quando essa mesma distância os separava da entrada toda en feitada do Splendide.

A aparência daqueles dois homens tinha algo de inquietante. Ambos eram pequenos, com roupas iguais, escuras e — pensou Bond — um tanto quentes para a ocasião. Pareciam mesmo dois atores de vaudeville esperando o ônibus que os levaria ao teatro. Talvez como uma concessão à atmosfera festiva de Royale, cada um deles usava uma palheta com uma fita preta; a sombra das abas das palhetas somadas à sombra das árvores escondia completamente os dois rostos. Destoando completamente, cada uma daquelas duas figuras baixas e escuras era iluminada por um toque de cor viva. A tiracolo, os dois carregavam estojos de máquinas fotográficas.

Um estojo era vermelho bem vivo e o outro azul bem vivo.

Até que Bond prestasse atenção em todos esses detalhes, já havia chegado a uns cinqüenta metros dos dois homens. Es tava refletindo sobre o alcance dos vários tipos de armas e as possibilidades de esconder-se, quando se registrou uma cena ter rível e ao mesmo tempo extraordinária.

Parece que o homem de vermelho deu um pequeno sinal de cabeça ao de azul. Com um movimento rápido, o homem de azul tirou o estojo azul do ombro. O homem de azul — e Bond não podia ver exatamente o que se passava porque um tronco de árvore bloqueava sua visão — curvou-se para a frente a fim de mexer na máquina. O clarão violento de uma luz branca acompanhou o estrondo ensurdecedor de uma explosão mons truosa e Bond, mesmo protegido por uma árvore, foi derrubado na calçada por uma sólida descarga de ar quente, sentindo o rosto e o estômago amassados como se fossem de papel. Estendido no chão ficou, olhando para o sol, enquanto o ar (pelo menos teve esta impressão) ficou ressoando com a explosão, como se alguém batesse nas notas graves de um piano com um martelo.

Quando Bond conseguiu ajoelhar-se, ainda tonto e semi-consciente, uma chuva horrível de pedaços de carne humana e frangalhos de tecido ensangüentado caiu sobre Ele e em toda a sua volta, entre galhos de árvore e pedregulhos. Seguiu-se uma outra chuva de galhinhos e folhas. De todos os lados chegava o tilintar agudo de vidro quebrado caindo no chão. No céu, o cogumelo de fumaça preta que estava flutuando começou a dissolver-se, diante do olhar ainda meio embriagado de Bond. Um cheiro obsceno tomou conta do ar: era uma mistura de ex plosivo, de madeira queimada e de — sim, era isso mesmo — de carneiro assado. Até uma distância de cinqüenta jardas, avenida abaixo, as árvores estavam sem folhas e lascadas. Do outro lado da avenida, duas delas estavam caídas sobre a rua como dois bêbados. Entre elas havia uma cratera fumegante. Dos dois homens de palheta, não sobrara absolutamente nada. Mas havia marcas vermelhas no asfalto, na calçada e nos troncos das ár vores, além de farrapos brilhantes nos galhos caídos.

Bond sentiu uma ânsia de vômito.

Mathis foi o primeiro a chegar onde Ele estava, encostado na árvore que salvara sua vida.

Atordoado, mas sem o menor ferimento, Bond deixou-se levar por Mathis até o Splendide, de onde hóspedes e emprega dos saíam cochichando amedrontados. Enquanto o barulho dis tante das sirenas anunciava a chegada das ambulâncias e dos bombeiros, os dois conseguiram atravessar a multidão, subir as escadas e seguir o corredor até o quarto de Bond.

Mathis parou somente para ligar o rádio diante da lareira e então, enquanto Bond despia as roupas respingadas de sangue, metralhou-o de perguntas.

Quando chegaram à descrição dos dois homens, Mathis retirou o telefone do gancho, ao lado da cama de Bond.

“. . . e diga à polícia”, concluiu, “diga a eles que o inglês da Jamaica que foi derrubado pela explosão é coisa minha. Ele está bem e não deve ser incomodado. Dentro de meia-hora, eu explico tudo a eles. Seria bom também que dissessem à imprensa que, aparentemente, foi um ato de vingança entre dois comunis tas búlgaros e que um deles matou o outro com uma bomba. Não é preciso dizer nada do terceiro búlgaro, que devia estar rondando por ali, mas precisam pegá-lo de qualquer maneira. Ele certamente tentará ir para Paris. Bloqueiem todas as estra das. Entendido? Então boa sorte”.

Mathis virou-se para Bond e ouviu a estória toda até o fim. “Vá ter sorte lá longe”, disse Ele, quando Bond terminou. “Logicamente a bomba era para você. Mas devia estar com al gum defeito. Eles pretendiam jogá-la e depois esconder-se atrás da árvore. Só que o tiro saiu pela culatra. Não faz mal. Nós des cobriremos os fatos”. Fez uma pausa. “Mas realmente é um caso curioso. Essa gente parece estar levando você a sério.” Mathis parecia ofendido. “Mas como c que esses búlgaros desgraçados pretendiam fugir? E o que significavam aqueles estojos verme lho e azul? Precisamos tentar encontrar fragmentos do verme lho”.

Mathis roeu as unhas. Estava excitado, os olhos brilhando. Este caso estava ficando formidável, dramático, com aspectos nos quais Ele estava agora pessoalmente interessado. Certamente já não era somente um caso de ficar atrás de Bond enquanto Ele travava sua batalha particular com Le Chiffre no Cassino. Ma this deu um pulo.

“Agora beba alguma coisa, almoce e descanse”, ordenou a Bond. “Quanto a mim, preciso meter o bedelho nesta estória antes que a polícia esmague todas as pistas com suas botas pre tas”.

Mathis desligou o rádio e com a mão deu um até-logo amistoso para Bond. A porta bateu e Fez-se silêncio no quarto. Bond sentou-se um pouco à janela, feliz com o fato de ainda estar vivo.

Mais tarde, quando Bond estava terminando seu primeiro uísque com gelo e contemplando o “patê de foie gras” que o garçom acabara de depositar à sua frente, o telefone tocou.

“Aqui é mademoiselle Lynd”.

Falava baixo e sua voz parecia ansiosa.

“Você está bem?”

“Sim, muito bem”.

“Ainda bem. Por favor, tome cuidado”.

E desligou.

Bond sacudiu a cabeça, como se pretendesse acordar di reito, depois apanhou a faquinha e escolheu a fatia mais grossa de torrada quente que havia à sua frente. Raciocinou: dois deles já se foram deste para o outro mundo. Tenho um mais a meu lado. É um bom começo.

Mergulhou a faca no copo de água quente que estava ao lado do pote de porcelana de Estrasburgo e lembrou-se de dar uma gorjeta dobrada ao garçom por ter trazido estas coisas tão especiais.


Bond fazia questão absoluta de estar completamente preparado e descansado para uma sessão de jogo que poderia durar até a noite inteira. Pediu um massa gista para as três horas. Depois que os restos de sua refeição foram retirados do quarto, Ele sentou-se outra vez à janela, olhando o mar ao longe, até que uma batida na porta anunciou a chegada do massagista, um sueco.

Silenciosamente, Ele trabalhou no corpo de Bond dos pés à cabeça, desfazendo as tensões e acalmando os seus nervos ainda abalados. Até as marcas arroxeadas que haviam ficado no ombro em que Bond se machucara deixaram de latejar, e quando o sueco partiu Bond caiu num sono profundo.

À noite, acordou completamente refeito.

Tomou um chuveiro frio e depois caminhou até o Cassino. Desde a noite anterior, Ele havia desligado completamente o es pírito das mesas de jogo. Agora, precisava restabelecer essa maneira de encarar o jogo, uma espécie de contato íntimo, que é meio matemático, meio intuitivo, e que, mais o pulso calmo e o temperamento moderado, constituem equipamento essencial para qualquer jogador que se proponha a ganhar no jogo.

Bond sempre fora um jogador. Gostava de sentir o emba ralhar seco das cartas e o drama constante que, sem que os assistentes percebam, marca as figuras silenciosas dispostas em volta das mesas verdes. Gostava do conforto sólido e estudado das salas de carteado dos cassinos, os braços acolchoados das cadeiras, o copo de champanha ou de uísque ao lado, a atenção silenciosa e despreocupada dos bons empregados. Divertia-se com a imparcialidade da bolinha que gira na roleta, das cartas baralho — e suas eternas alternativas. Gostaria de se sentir ator e espectador ao mesmo tempo e de, sentado em sua ca deira participar dos dramas e das decisões dos outros, até che gar sua própria vez de dizer aquele “sim” vital, ou aquele “não” vital, geralmente com uma chance de cinqüenta por cento.

Mas, acima de tudo, Ele gostava de ser o único responsável pelas próprias atitudes, como todo bom jogador. Não há mais ninguém a elogiar ou a culpar: só a gente mesmo. A sorte é um empregado, não um patrão. Ela deve ser recebida com um encolher de ombros ou então ser aproveitada ao máximo. Mas precisa ser compreendida e reconhecida pelo que é, e não con fundida com uma falsa apreciação das probabilidades porque, no jogo, confundir uma má jogada com a má sorte é pecado mortal. E a sorte, em todos os seus aspectos, deve ser amada e não temida. Bond via a sorte como uma mulher, a ser doce mente conquistada ou brutalmente atacada, mas nunca persegui da ou conseguida através de terceiros. Mas Ele era suficiente mente honesto para admitir que nunca, até então, havia sofrido por causa de mulheres ou de jogo. Um dia, e Ele aceitava esta certeza, haveria de cair de joelhos por causa de uma mulher ou por causa da má sorte. Quando isso acontecesse, saberia tam bém que ficaria marcado com aquele ponto de interrogação que tantas vezes já percebera nos outros, a promessa de pagar antes de perder: a aceitação do fato de que também poderia falhar.

Contudo, naquela noite de junho, foi com uma sensação de confiança e alegre antecipação que, depois de passar pela “cozinha” (saia onde ficam as mesas públicas), entrou na sala privada e trocou um milhão de francos em fichas de cinqüenta mil e sentou-se ao lado do chef de partie da primeira mesa de roleta.

Pediu emprestada a agenda do chef e estudou todas as ro dadas da bolinha, desde que a sessão começara, às três horas da tarde. Sempre fazia isto, mesmo sabendo que cada virada da roda, que cada caída da bolinha dentro de uma concavidade com um número, não tinha relação absolutamente nenhuma com a precedente. Aceitava sem problemas a idéia de que o jogo reco meça cada vez que o croupier pega a bolinha de marfim branco com a mão direita, gira a roleta no sentido horário com a mes ma mão e, num terceiro movimento também com a mão direita, joga a bolinha em sentido anti-horário no anel que cerca a roda da roleta.

É óbvio que todo esse ritual e todas essas minúcias mecâ nicas da roda e do cilindro, mais as marcações dos números, fo ram de tal maneira aperfeiçoadas nos últimos anos, que não é mais possível, nem com a prática do croupier nem com uma eventual indecisão ao dar impulso à roda, impedir que a boli nha caia no número que a sorte mandar. Mesmo assim, há uma convenção entre os jogadores de roleta — e Bond a seguia reli giosamente — de anotar o histórico inteirinho de cada sessão e de se guiar pela menor peculiaridade observada no girar da roda. Por exemplo, é importante levar em consideração seqüên cias de mais de dois em um mesmo número ou de mais de qua tro noutras chances, até chegar a contas redondas.

Bond não defendia este princípio. Simplesmente acreditava que, quanto mais esforço e engenho você coloca no jogo, mais você tira dele.

No histórico daquela mesa em que se sentara, onde o jogo já começara desde três horas, Bond pouca coisa viu de inte ressante, a não ser que a última dúzia estava um pouco des favorecida nas últimas jogadas. Costumava jogar sempre de acor do com a roda, e somente ir contra seus planos prévios, come çando um novo sistema, depois que aparecesse um zero. Desta maneira decidiu jogar seu sistema favorito e cobrir duas dúzias — neste caso as duas primeiras — cada qual com o máximo: cem mil francos. Assim, ficava com dois terços da mesa cober tos (menos o zero) e, desde que as dúzias pagam na proporção de dois para um, ganharia cem mil francos cada vez que desse qualquer número abaixo de 25.

De sete rodadas, ganhou seis. Perdeu na sétima, quando deu o 30. Seu lucro líquido era de meio milhão de francos. Ficou fora da mesa na oitava jogada. Deu o zero. Este golpe da sorte alegrou-o ainda mais e, aceitando o 30 como uma indicação para a última dúzia, decidiu cobrir a primeira e as últimas dúzias até perder duas vezes, o que lhe custou 400 mil francos. Mas e1e ainda se levantou da mesa ganhando um milhão e cem mil francos.

Logo que Bond começara a jogar fazendo apostas máximas, seu jogo tornou-se o centro de atração da mesa. Como parecia estar com sorte, um ou dois peixes-pilotos mais corajosos come çaram a nadar com o tubarão. Bem na frente de Bond, do outro lado da mesa, estava sentado um americano — pelo menos foi assim que Bond o imaginou — que mostrava uma intimidade maior do que seria normal, mesmo para quem experimenta aquele prazer costumeiro de explorar um veio de ouro alheio. Este homem já sorrira umas duas vezes para Bond e havia algo de deliberado na maneira com que Ele duplicava os movimentos de Bond, colocando suas duas modestas fichas de 10 mil exa tamente ao lado das fichas maiores colocadas por Bond. Quan do Bond se levantou, Ele Fez o mesmo, dizendo alegremente por cima da mesa:

“Obrigado pela carona. Acho que tenho a obrigação de convidá-lo para beber alguma coisa. Vamos?”

Bond teve a impressão de que aquele deveria ser o homem da CIA. Quando se encaminharam juntos para o bar, depois que Bond deu uma ficha de 10 mil ao croupier e de mil ao em pregado que puxara sua cadeira, Ele já tinha certeza.

“Meu nome é Felix Leiter”, disse o americano. “Muito prazer em conhecê-lo”.

“O meu é Bond — James Bond.”

“Oh, muito bem”, comentou o outro. “E agora, vejamos. O que tomaremos para comemorar?”

Bond insistiu em oferecer um Haig-and-Haig com gelo para Leiter, e depois examinou cuidadosamente o barman à sua frente.

“Martini seco”, disse. “Um. Numa taça comprida de cham panha”.

“Oui, monsieur”.

“Um momento. Mudei de idéia. Misture três medidas de gim, uma de vodca, meia de quina Lillet, até ficar tudo bem geladinho, depois junte um pedaço de casca de limão cortada bem fininha. Entendeu?”

“Lógico, monsieur”. O barman parecia encantado com a idéia.

“Meu Deus”, exclamou Leiter, “isto é que é um coquetel de verdade”.

Bond sorriu. “Quando estou — ahn — concentrado”, ex plicou, “nunca bebo mais do que uma coisa antes do jantar. Mas gosto que essa coisa seja grande, bem forte, bem gelada, bem feita. Detesto pequenas doses, seja do que for, especialmente quando o gosto não é bom. Este coquetel, eu mesmo inventei. Vou tirar patente assim que achar um bom nome”.

E ficou observando atentamente o copo que se embaçava aos poucos com o gelo da bebida dourada, ainda borbulhando com o movimento da coqueteleira. Pegou o copo comprido e tomou um longo gole.

“Ótima”, disse ao barman, “mas se você conseguir vodca feita de cereal, e não de batata, ainda poderá ficar muito me lhor”.

Encarando o barman, acrescentou: “Mas não vamos rachar os lucros por causa disso”.

Leiter, porém, ainda estava interessado no coquetel de Bond. “Você certamente pensa bastante em tudo”, comentou sorrindo, enquanto se dirigiam a um canto da sala, com os co pos na mão. E acrescentou, baixando a voz:

“Talvez fosse interessante batizá-lo de coquetel Molotov, depois do que você experimentou hoje à tarde.” Sentaram-se. Bond sorriu.

“Vi que o lugar marcado com um X foi cercado de cordas e que estão desviando o trânsito daquele local. Espero que o incidente não chegue a espantar nenhuma fortuna grande daqui”. “Todo mundo está acreditando na estória dos comunistas, ou então pensando que foi um cano de gás que explodiu. Todas as árvores queimadas serão arrancadas hoje à noite e se eles tra balharem tão depressa aqui quando em Monte Cario, amanhã de manhã não haverá o menor vestígio do que aconteceu”.

Leiter acendeu um Chesterfield. “Estou contente de tra balhar com você neste caso”, disse, olhando o copo, “de modo que fiquei muito contente com o fato de que você não passou desta para melhor. Meu pessoal está muito interessado neste caso. Dão a Ele a mesma importância que o seu pessoal dá, e acham que não há nada de louco nisso tudo. Na verdade, Washington está doente por não poder dirigir este show, mas você sabe como são os chefões. Acho que em Londres é mais ou menos igual.

Bond concordou. “Também são capazes de sentir um pou co de ciúme, quando a coisa não é dirigida por eles”.

“De qualquer maneira, estou sob suas ordens para ajudá-lo no que você precisar. Com Mathis e os homens dele, é difí cil haver algo ainda não providenciado. Mesmo assim, estou às ordens”.

“Acho ótimo você estar aqui”, disse Bond. “A oposição já sabe tudo a meu respeito, a respeito de Mathis e provavel mente a seu respeito também. Além disso, pelo jeito, nada os im pedirá de agir. Estou contente, porque Le Chiffre está real mente tão desesperado quanto nós imaginávamos. Não tenho nada de muito específico para você fazer, mas ficaria muito grato se você não se afastasse do Cassino esta noite. Já tenho uma assistente, miss Lynd, e gostaria que você fizesse compa nhia a ela quando eu começar a jogar. Você não se envergonhará dela. Ê uma moça muito bonita”. Bond sorriu para Leiter. “E procure ficar de olho nos dois pistoleiros de Le Chiffre. Acho que não tentarão fazer nenhuma violência, mas nunca se sabe”.

“Talvez eu possa ajudar”, afirmou Leiter. “Antes de entrar neste negócio, eu era fuzileiro naval, se isto quer dizer alguma coisa para você”. Olhou imediatamente para Bond, com um ar arrependido.

“Quer dizer muita coisa”, disse Bond.

Continuaram conversando e Leiter contou que nascera no Texas. Enquanto Ele falava sobre seu trabalho no Serviço Secre to Combinado da nato e sobre as dificuldades de manter um serviço de segurança numa organização composta de tantas na ções, Bond pensava que os norte-americanos são ótimas pessoas e que a maioria deles parecia vir do Texas.

Felix Leiter tinha cerca de 35 anos. Era alto, tinha uma ossatura delicada e seu terno marrom-claro parecia dependurado num cabide pequeno demais, como as roupas de Frank Sinatra. Falava e movimentava-se devagar, mas dava a impressão de ser um sujeito rápido e forte, e de que — numa luta — seria duro e cruel. Sentado meio curvado sobre a mesa, parecia um falcão. Os traços de seu rosto reforçavam essa impressão, o queixo e as maçãs agudas, a boca larga e destorcida. Os olhos cinzentos tinham um corte felino, e se alongavam ainda mais com o hábito que tinha de apertar os olhos para evitar a fumaça dos Chesterfield que acendia um atrás do outro. Esse hábito mar cara no canto dos olhos uma série de rugas permanentes que da vam a impressão de que Ele sorria muito mais com os olhos do que com a boca. Um chumaço de cabelos côr-de-palha dava a seu rosto um ar de garoto, que um exame mais minucioso desmentiria. Mesmo falando sobre seu trabalho em Paris, Bond logo notou que Ele nunca mencionava os colegas norte-america nos na Europa ou em Washington e imaginou que Leiter deveria ter os interesses de sua própria organização muito acima das preo cupações mútuas dos aliados do Atlântico Norte. Bond simpati zou com Ele.

Depois que Leiter tomou outro uísque e Bond contou o caso dos Muntz e da pequena viagem que fizera naquela manhã pela costa, já eram sete e meia. Decidiram andar juntos até o hotel. Antes de deixar o Cassino, Bond depositou na caixa os 24 mi lhões que tinha, e guardou somente algumas notas de dez mil para as despesas do jantar.

Ao cruzar a rua em direção ao Splendide, viram que um grupo de homens trabalhava na cena da explosão. Diversas ár vores tinham sido arrancadas e três carros-tanque lavavam a ave nida e as calçadas. A cratera provocada pela explosão já desa parecera e só alguns passantes paravam para olhar. Bond ima ginou que este trabalho de reconstrução já deveria ter sido levado a cabo também no Hermitage, nas lojas e nas vitrinas cujos vi dros haviam sido estraçalhados.

Na tarde azul e quente, Royale-les-Eaux estava novamente em paz, em ordem.

“Para quem o porteiro está trabalhando?”, perguntou Leiter, ao se aproximarem do hotel. Bond não tinha certeza e foi o que respondeu.

Mathis não o elucidara sobre esta questão. “A menos que o tenha comprado, é melhor imaginar que o outro lado já o Fez. Todo porteiro é venal. Mas não é culpa deles. São treinados para encarar todo hóspede do hotel, exceto os marajás, como ladrões e vigaristas em potencial. Eles se preocupam com o conforto e o bem-estar da gente tanto quanto os crocodilos”.

Bond lembrou-se das palavras de Mathis quando o porteiro perguntou se já se havia recuperado da infeliz experiência da tarde. Bond achou melhor responder que ainda estava um pouco abalado. Esperava que, apesar de tudo o que acontecera, Le Chiffre começasse de qualquer maneira a jogar naquela noite, interpretando erroneamente a força do adversário. O porteiro manifestou o desejo de que Bond se recuperasse rapidamente.

O quarto de Leiter ficava num dos andares de cima e eles se separaram no elevador, depois de combinar encontrar-se no Cassino entre 10 e meia e 11 horas, que é geralmente a hora em que as mesas fortes começam a jogar.

Bond entrou no quarto, onde outra vez não havia nenhum sinal de visitas indesejáveis, tirou a roupa, tomou um longo banho quente de imersão, seguido de um chu veiro frio, e deitou-se na cama. Ficou assim uma hora, tempo suficiente para repousar e ordenar os pensamentos antes de en contrar a moça no bar do Splendide, uma hora para examinar minuciosamente os detalhes dos planos que desenvolveria durante o jogo, todas as possibilidades de vitória ou insucesso. Tinha também que estudar os papéis de seus coadjuvantes: Mathis, Leiter e a moça, além de visualizar as possíveis reações do inimigo nas mais diversas circunstâncias. Fechou os olhos e seus pensamentos perseguiram sua imaginação através de uma série de cenas cuidadosamente construídas, como se Ele estivesse olhando por um caleidoscópio.

Faltavam vinte para as nove quando Ele esgotou todas as hipóteses relativas ao seu duelo com Le Chiffre. Levantou-se, vestiu-se e afastou completamente qualquer pensamento sobre o futuro.

Enquanto dava o laço em sua gravata borboleta de cetim preto, deteve-se um instante e examinou-se friamente ao espelho. Uma calma ironia refletia-se no cinza-azulado de seus olhos; uma mecha rebelde de cabelo preto assumia aos poucos a forma de uma vírgula sobre sua sobrancelha direita. Tudo isto, somado alinha fina da cicatriz vertical no lado direito do rosto, dava-lhe, um ar de pirata. Não havia muito de Hoagy Carmichael nesta expressão, pensou Bond, enquanto colocava cinqüenta ci garros Morland de três faixas douradas em sua cigarreira de metal cinzento e leve. Mathis lhe contara o comentário da moça.

Guardou a cigarreira no bolso de trás e experimentou ra pidamente o isqueiro Ronson oxidado de preto para ver se pre cisava de fluido. Guardou também o pequeno pacote de notas de dez mil francos, abriu uma gaveta e dela tirou um coldre de camurça leve; ajustou as tiras, confeccionadas no mesmo cou ro de modo que o coldre ficasse exatamente oito centímetros abaixo de sua axila. Abriu outra gaveta e debaixo de uma pilha de camisas pegou a Bereta automática, tirou o pino, descarre gou o tambor e o girou diversas vezes para a frente e para trás; depois experimentou o gatilho. Carregou novamente a arma, travou-a e a colocou no coldre. Examinou o quarto cuidado samente para ver se tinha esquecido alguma coisa e vestiu o “dinner-jacket” sobre a camisa de seda grossa. Sentia-se bem, à vontade. Verificou no espelho que não se via o menor sinal da arma debaixo de seu braço esquerdo, ajeitou a gravata estreita pela última vez, saiu e trancou a porta.

Ao descer o último degrau da escada e virar-se em direção ao bar, ouviu a porta do elevador abrir-se às suas costas e uma voz suave dizer: “Boa noite”.

Era a moça. Ela parou e esperou que Ele se aproximasse.

Ele se lembrava exatamente de como ela era bonita. Não ficou surpreso ao sentir-se novamente emocionado.

Estava vestida de veludo preto, um modelo simples, mas com aquele toque de esplendor que só uma meia dúzia de cos tureiros no mundo inteiro consegue alcançar. No pescoço, usava um colar fino de diamantes e um clip, também de diamantes, no fim do decote, que deixava entrever a curva dos seios. No braço dobrado à altura da cintura, carregava uma bolsinha de noite, simples, da cor do vestido. Seu cabelo muito preto caía reto e liso até a altura do queixo, onde fazia uma curva para dentro.

Estava muito linda e o coração de Bond bateu mais forte.

“Você está simplesmente maravilhosa. Os negócios devem estar indo muito bem no setor dos rádios!”

Ela tomou-lhe o braço e perguntou: “Você se incomoda se formos jantar agora? Quero fazer uma entrada triunfal e a ver dade é que o veludo preto tem um segredo horrível. Ele marca quando você senta. E, se você me ouvir gritar esta noite, é por que terei sentado numa cadeira de vime.”

Bond riu. “Lógico, vamos jantar já. Tomaremos uma vodca enquanto não nos servirem”.

Ela respondeu com um olhar brincalhão e Ele logo corri giu-se: “Ou algo mais suave, é claro, se você preferir. A comida aqui é a melhor de Royale”.

Durante um momento, Ele se sentiu picado por um toque de ironia, por uma leve sombra de sarcasmo, com a qual ela havia recebido seu gesto decidido e a maneira com que Ele rea gira ao rápido olhar que ela lhe dirigira.

Mas isto não passou de um rapidíssimo entrechocar de floretes e quando o maítre d’hôtel, cheio de mesuras, os conduziu através do salão repleto de gente, Bond esqueceu o incidente e passou a prestar atenção nas pessoas que se viravam para vê-la passar.

A parte elegante do restaurante ficava ao lado da grande janela em curva, construída como uma proa de navio sobre os jardins do hotel, mas Bond escolheu uma mesa numa das alcovas com espelho localizadas no fundo do grande salão. Eram ves tígios dos tempos eduardinos: recantos discretos e ao mesmo tempo alegres, pintados de branco e dourado, a mesa coberta de seda vermelha, as lâmpadas de parede do tempo do Império.

Enquanto decifravam o emaranhado de tinta roxa que co bria o menu de duas páginas, Bond chamou o garçom. Virou-se para a companheira.

“Você já resolveu?”

“Gostaria muito de tomar um pouco de vodca”, disse ela simplesmente, voltando a estudar o menu.

“Uma garrafinha de vodca bem gelada”, pediu Bond. Di rigiu-se a ela abruptamente: “Não posso beber à saúde de seu vestido novo sem saber seu nome de batismo”.

“Vésper”, respondeu ela. “Vésper Lynd”.

Bond olhou-a com ar curioso.

“B muito chato ter de explicar sempre para todo mundo, mas eu nasci à tarde, e numa tarde em que caiu uma forte tem pestade, segundo o que meus pais me contaram. Pelo jeito, eles não quiseram esquecer aquela tarde”. Sorriu. “Algumas pessoas gostam deste nome, outras não. Eu já me acostumei”.

“Eu acho que é um ótimo nome”, disse Bond. E teve uma idéia. “Posso pedi-lo emprestado?” Contou a estória do martini que Ele inventara e que não conseguira batizar. “Vésper”, disse Ele. “É um nome que soa muito bem e que é muito apro priado para a hora violeta em que meu coquetel será de agora em diante bebido em todo o mundo. Posso usá-lo?”

“Desde que eu possa experimentar um antes”, respondeu ela. “Parece que a gente pode orgulhar-se desse coquetel”.

“Vamos experimentá-lo quando tudo isto terminar’, disse Bond. “Perder ou ganhar. E agora, já decidiu o que vai comer? Por favor, esbanje”, acrescentou Ele, quando sentiu que ela he sitava, “ou não faremos jus ao seu lindo vestido”.

“Eu pediria duas coisas”, disse ela, rindo, “ambas seriam deliciosas; e comportar-se como milionária às vezes é uma coisa muito divertida e já que você insiste. . . bem, gostaria de co meçar com caviar e depois pedir um rognon de veau com ba tatas soufflées. Depois, eu quereria morangos silvestres com muito creme . Você acha que é muita falta de vergonha ter tanta certeza daquilo que se quer e esbanjar tanto assim?” Sorriu para Ele, curiosa.

“Trata-se de uma virtude e, de qualquer maneira, não passa de uma boa refeição, simples e saudável”. Voltou-se para o maítre d’hôtel. “E traga bastante torrada”.

“O difícil”, explicou a Vésper, “não é conseguir que eles tragam bastante caviar, mas bastante torrada”.

“Bem”, continuou ele, lendo o menu, “acompanharei a senhorita no caviar; mas depois gostaria de comer um tournedos muito pequeno, mal passado, com molho Béarnais e coeur d’artichaud. Enquanto a senhorita estiver se deleitando com os morangos, eu enfrentarei um abacate com molho francês. Apro vado?”

O maitre d’hôtel inclinou-se.

“Meus cumprimentos a ambos. George…” chamou o garçom e repetiu o que os dois haviam pedido.

“Perfeito”, respondeu o garçom, apresentando a lista de vinhos encadernada de couro.

“Se concordar”, disse Bond, “gostaria de tomar champanha com você esta noite. É um vinho alegre, muito próprio para a ocasião — espero”, acrescentou.

“Sim, eu gostaria de tomar champanha”, respondeu ela.

Com o dedo na página, Bond perguntou ao garçom: “Taittinger 45?”

“Um ótimo vinho, meu senhor”, respondeu o garçom. “Mas, se o senhor me permite a sugestão”, apontou com o lápis, “o Brut Blanc, de 1943, dessa mesma marca, não tem igual”.

Bond sorriu. “Então, que seja esse”, disse ao garçom.

“Trata-se de uma marca não muito conhecida”, explicou Bond à companheira, “mas é provavelmente o melhor champa nha do mundo”. Franziu subitamente o rosto, quando caiu em si e percebeu a pretensão da observação que fizera.

“Perdão”, disse. “Comer e beber são para mim prazeres quase ridículos. Isto acontece em parte porque sou solteiro, mas principalmente porque me habituei a prestar muita atenção nos detalhes. Eu sei que são manias muito meticulosas, dignas de um solteirão, mas quando estou trabalhando tenho quase sem pre de comer sozinho e uma maneira de tornar as refeições mais agradáveis é interessar-se por elas até os menores deta lhes”.

Vésper sorriu para Ele.

“Eu também sou um pouco assim”, ela. “Gosto de fazer as coisas até o fim, tirando o máximo de tudo aquilo que a gen te faz. Acho que é assim que se deve viver. Só que estas coisas, ditas neste tom, soam muito infantis”, emendou ela, desculpando-se também.

Enquanto conversavam, chegou a garrafa de vodca, mer gulhada em gelo picado. Bond encheu os dois cálices.

“Bem, de qualquer maneira, concordo com você”, disse Ele. “E agora, um brinde: muita sorte para hoje à noite, Vésper”.

“Sim”, respondeu a moça, baixinho. Ao levantar o cálice, olhou-o fixamente, bem dentro dos olhos, de uma maneira bas tante curiosa. “Desejo que tudo corra bem esta noite”.

Bond teve a impressão de que ela, num gesto rápido, encolheu os ombros involuntariamente ao dizer esta frase mas em seguida Vésper aproximou-se dele, impulsivamente.

“Tenho novidade par você, de Mathis. Ele estava ansioso para contar tudo pessoalmente. Sobre a bomba. É uma estória fantástica”

Bond olhou em volta; não havia a menor possibilidade de que alguém estivesse ouvindo a conversa, e o caviar ainda estaria na cozinha, esperando pelas torradas quentes.

“Conte tudo”. Seus olhos brilhavam de interesse.

“Pegaram o terceiro búlgaro na estrada para Paris. Estava num Citroen, e para despistar dera carona a dois ingleses. Quan do chegou à barreira policial, seu francês era tão ruim que lhe pediram os papéis. Aí Ele tirou uma arma e matou um dos patrulheiros. Mas o outro conseguiu pegá-lo, não sei como, e não o deixou suicidar-se. Então levaram-no para Ruão, onde extraí ram toda a estória dele, com os costumeiros métodos franceses, suponho.”

“Aparentemente, faziam parte de um grupo mantido na França para esse tipo de trabalho — sabotagens, assassínios etc. — e a turma de Mathis já está tentando pegar o resto do ban do. Para matar você, eles receberiam dois milhões de francos, e o agente que os contratou disse-lhes que; se seguissem exa tamente suas instruções, não haveria a menor chance de serem presos”.

Ela tomou um golinho de vodca. “Mas agora é que vem a «arte interessante”.

“Foi este agente quem deu a eles os dois estojos de máquina fotográfica que você viu, dizendo que as cores brilhantes tornariam as coisas mais fáceis. E que o estojo azul continha uma bomba de fumaça muito poderosa. No vermelho, estaria o ex plosiva Enquanto um atirava o estojo vermelho, o outro aper tava um comutador no azul, e os dois escapariam sob uma cor tina de fumaça. Mas na verdade a estória da bomba de fumaça era pura invenção, para que os búlgaros pensassem que esca pariam facilmente. Os dois estojos continham duas bombas idênticas, de alto poder explosivo. Não havia a menor diferença entre o estojo azul e o vermelho. A idéia era destruir você e os dois búlgaros, sem deixar o menor vestígio. Acho que deveria haver outro plano, para liquidar o terceiro homem”.

“Continue”, pediu Bond, bastante admirado com a esper teza que havia atrás de toda aquela traição.

“Bom, aparentemente os búlgaros acharam a idéia ótima, mas, precavidos, decidiram não se arriscar. E pensaram que seria melhor soltar a cortina de fumaça antes e de dentro dela, jogar a bomba em você. O que você viu foi um deles mexendo no comutador da falsa bomba de fumaça; e, naturalmente, os dois explodiram ao mesmo tempo”.

“O terceiro búlgaro estava esperando os dois companhei ros atrás do Splendide. Quando viu o que aconteceu, concluiu que os dois haviam falhado. Mas a polícia tinha apanhado al guns fragmentos da bomba vermelha, que não explodiu, e mos traram a Ele. Quando compreendeu que os dois amigos haviam sido enganados e que tudo estava planejado para que morressem junto com você, Ele começou a falar. Parece que está falando até agora. Porém não há nada que ligue esse fato a Le Chiffre. O trabalho foi confiado a eles por algum intermediário, talvez um dos guarda-costas de Le Chiffre, pois esse nome não quer dizer absolutamente nada para o sobrevivente”.

Ela terminou a estória no momento em que os garçons che garam com o caviar, com uma pilha de torradas quentinhas, e com pratinhos contendo cebola picada e ovo cozido ralado, a clara num prato, a gema no outro.

Servido o caviar, os dois comeram durante algum tempo em silêncio.

Minutos depois, Bond disse: “É ótimo ser um cadáver que troca de lugar com os próprios assassinos. Para eles, foi certa mente um tiro que saiu pela culatra. Mathis deve estar muito satisfeito com este dia de trabalho — cinco elementos da opo sição neutralizados em vinte e quatro horas.” E contou como os Muntzes haviam sido enganados.

“Falando nisso”, perguntou, “como você se meteu neste caso? Em que seção você trabalha?”

“Sou assistente pessoal do chefe da S”, disse Vésper. “Co mo o plano é dele, Ele queria que a seção participasse desta operação, e então disse a M que eu poderia vir. Parecia ser so mente um trabalho de ligação, por isso M disse que sim, mas advertiu meu chefe de que você ficaria furioso com o fato de ter uma mulher trabalhando com você”. Fez uma pausa, mas como Bond não dissesse nada, continuou: “Tive de me encon trar com Mathis em Paris e descer até aqui com Ele. Tenho uma amiga que é vendedora na Casa Dior e, não sei como, ela conseguiu arrumar emprestado este e aquele vestido que eu es tava usando hoje de manhã; caso contrário, eu nunca poderia competir com toda esta gente”. Fez um gesto abrangendo o salão inteiro. “No escritório, todo mundo estava morrendo de inveja, embora ninguém soubesse que trabalho seria. Tudo o que eles sabiam era que eu iria trabalhar com um duplo-zero. É claro que vocês são os nossos heróis. Eu estava encantada”. Bond franziu a testa. “Não é muito difícil conseguir um duplo-zero como número, desde que você esteja preparada para matar”, disse Ele. Isto é tudo o que esses dois zeros significam. Não há o menor motivo para orgulho. Eu tenho de agradecer aos cadáveres de um japonês de Nova York, perito em códigos, e de um agente duplo norueguês, de Estocolmo, pelo fato de ser um duplo-zero. Provavelmente eles não eram maus sujeitos. Foram levados pelo turbilhão do nosso mundo, como aquele iugoslavo que Tito derrubou. É um negócio confuso, mas se a gente escolhe esta profissão, tem de fazer o que nos mandam. Está gostando do ovo ralado com o caviar?”

“É uma combinação formidável”, respondeu ela. “Estou adorando meu jantar. É uma pena. . .” Parou de falar, inter rompida pelo olhar frio de Bond.

“Se não fosse o nosso trabalho, não estaríamos aqui”, disse Ele.

Subitamente, Bond arrependeu-se de ter deixado o jantar inversa atingirem aquele grau de intimidade. Sentiu que havia falado muito, e que aquilo que não deveria passar de uma simples relação de trabalho já se tornara confuso.

“Vamos ver o que temos a fazer”, disse Ele, num tom de voz neutro. “É melhor eu explicar o que vou tentar e o que vou fazer, é como você pode ajudar. O que, acho, não é muita coisa” completou. “Os fatos básicos são esses”. E continuou a falar, delineando o plano e enumerando as várias contingên cias que os esperavam.

O maitre d’hôtel veio supervisionar os garçons, no mo mento de servir o segundo prato, e Bond continuou falando en quanto comiam aquele excelente jantar.

Ela o ouvia friamente, mas com atenta obediência. Sentia-se inteiramente desapontada com a rude reação de Bond, mas admitia que deveria ter prestado mais atenção aos conselhos do Chefe da S.

“Trata-se de um homem muito dedicado ao trabalho”, dis sera o chefe de Vésper, quando entregou o caso a ela. “Não pense que vai ser divertido. Enquanto durar o trabalho, Ele não pensará em mais nada e trabalhar com Ele é um verdadeiro in ferno. Mas é eficientíssimo e não existem muitos como Ele por aí, de modo que você não estará perdendo tempo. É um ho mem muito bonito, mas não se apaixone por Ele. Acho que não tem muito coração. De qualquer maneira, boa sorte e não se meta em complicações”.

Tudo isso tinha sido uma espécie de desafio, e ela se sentiu muito satisfeita quando percebeu que Ele se interessara por ela, se sentira atraído por ela, e isto ela sabia intuitivamente que estava acontecendo. Então, ao primeiro sinal de que eles esta vam se divertindo juntos, a um sinal de que aquelas eram so mente as primeiras palavras de uma frase convencional, Ele su bitamente se transformara em gelo e rudemente mudara a dire ção das coisas, como se calor fosse veneno para Ele. Ela se sentia magoada, boba. Mas Fez um esforço mental e concentrou toda sua atenção no que Ele dizia. Ela não cometeria o mesmo erro novamente. “. . . e a grande esperança é rezar para uma tacada de sorte para mim, ou contra Ele.”

Bond estava explicando como se joga baccarat.

“É muito parecido com qualquer outro jogo de mesa. As probabilidades contra o banqueiro e o jogador são mais ou menos equiparadas. De nodo que só uma jogada contra um deles pode ser decisiva e quebrar a banca ou quebrar o jogador.”

“Já sabemos que Le Chiffre comprou a banca de hoje a noite do sindicato egípcio que manda nas mesas de jogo alto daqui. Pagou um milhão de francos pela banca, e seu capita; ficou reduzido a vinte e quatro milhões. Eu tenho mais ou me nos a mesma coisa. Umas dez pessoas estarão jogando, espero, e estaremos sentados em volta de uma mesa que tem quase a forma de um rim”.

“Geralmente, a mesa é dividida em dois tableaux. O ban queiro joga ao mesmo tempo contra os dois tableaux, à sua es querda e à sua direita. Nesse jogo, o banqueiro deve ganhar fa zendo o jogo de um tableau contra o outro e utilizando um sis tema de contabilidade de primeiríssima classe. Mas não há ainda em Royale bastante jogadores de baccarat, de modo que Le Chiffre irá jogar sua sorte contra os jogadores de um ta bleau só. O que é estranho, porque dessa maneira as probabili dades em favor do banqueiro não são tão boas; mas há uma pequena chance de que ele se saia bem; além disso, é claro que ele sabe perfeitamente o volume das apostas que estiverem sendo feitas”.

“Bem: o banqueiro senta no meio da mesa com um croupier para distribuir as cartas e anunciar a quantia de cada banca, e geralmente com um chef de partie para cuidar do jogo em geral. Eu sentarei o mais na frente de Le Chiffre que puder. Diante dele, há uma caixa contendo seis maços de cartas, bem embaralhadas. Não há a menor possibilidade de viciar essas car tas. Elas são embaralhadas pelo croupier, cortadas por um dos jogadores e colocadas na caixa, à vista de todo mundo na mesa. Já nos informamos sobre o pessoal do Cassino e todos são ho nestos. Seria útil, mas quase impossível, marcar todas as cartas, mas para isso seria necessária a conivência pelo menos do crou pier. De qualquer maneira, estaremos de guarda contra isso também”.

Bond bebeu um pouco de champanha e continuou.

“Geralmente o que acontece no jogo é isto. O banqueiro anuncia uma banca de abertura de quinhentos mil francos, o que equivale atualmente a quinhentas   libras.   Cada  cadeira  é numerada a partir da direita do banqueiro; assim, o jogador ao lado do banqueiro, ou Número 1, pode aceitar a aposta e empurrar o dinheiro para a mesa, ou passar, se for muito para Ele ou se não quiser ir. Então, o Número 2 tem o direito de aceitar, ou se ele recusar, o Número 3, e assim por diante em toda a volta da mesa.”Se nenhum jogador aceitar a aposta inteira, ela é ofe recida a toda a mesa e cada um pinga, inclusive muitas vezes os espectadores que estão em volta da mesa, até que se com pletem os quinhentos mil”.

“Só que essa é uma aposta pequena, que seria aceita ime diatamente, mas quando chega a um milhão ou dois, é muito difícil encontrar um jogador que vá ou mesmo um grupo de jo gadores que cubra a aposta, se a banca parecer estar com sorte. Num momento assim, eu sempre tentarei aceitar a aposta — de fato, atacarei sempre a banca de Le Chiffre toda vez que houver uma chance, até que alguém estoure — Ele ou eu. Pode levar algum tempo, mas no fim um de nós dois acabará que brando o outro, sem contar com os outros jogadores que esti verem à mesa, embora — nesse meio tempo — eles possam ter deixado Le Chiffre mais rico ou mais pobre”.

“Bancando o jogo, Ele tem uma pequena vantagem nas jo gadas; mas sabendo que estou querendo a cabeça dele e já sa bendo, espero, meu capital, é possível que Ele fique com os ner vos um pouco abalados, de modo que tenho esperanças de co meçar em igualdade de condições com Ele”.

Fez uma pausa quando chegaram os morangos e o abacate.

Comeram em silêncio durante alguns minutos, depois fala ram de outras coisas enquanto o café era servido. Fumaram. Nenhum dos dois bebeu conhaque ou licor. Finalmente, Bond sentiu que era hora de explicar o verdadeiro mecanismo do jogo.

“É muito simples”, disse Ele, “e você entenderá num ins tante se já jogou alguma vez vinte-e-um, onde o objetivo é con seguir cartas da banca para completar a soma vinte e um, ou obter uma soma que se aproxime mais de vinte e um do que a banca. No baccarat, você recebe duas cartas e o banqueiro também; e, se alguém não ganhar de cara, cada um de nós ou ambos podemos pedir uma carta ou mais. O objetivo do jogo e ter duas ou três cartas que, juntas, somem nove pontos, ou que cheguem o mais perto de nove possível. Figuras e dez não valem nada; os ases valem um; todas as outras cartas valem seu número. Só o último número de cada soma é que conta. Assim: nove mais sete igual a seis, e não a dezesseis”.

“O vencedor é aquele cuja soma chega mais perto de nove. Quando empata, joga-se de novo”.

Vésper ouvia atentamente, mas notava também o olhar de abstrata paixão da expressão de Bond.

“Agora”, prosseguiu Bond, “quando o banqueiro passa as minhas duas cartas, se elas somarem oito ou nove, esta jogada se chama “natural”; então eu as mostro e ganho, a menos que Ele tenha um “natural” igual ou então melhor. Se, ao receber as cartas, eu não tiver um “natural”, não peço carta nenhuma se tiver um sete ou um seis; talvez peça uma carta se tiver um cinco; mas não terei a menor dúvida em pedir uma carta se minha soma for menos de cinco. Cinco é a virada do jogo. De acordo com as probabilidades, as chances de melhorar ou pio rar a mão, se você tiver um cinco, são exatamente iguais”.

“Só quando eu pedir uma carta ou colocar as minhas na mesa, o que significa que fico com as que tenho, é que o ban queiro pode olhar as dele. Se Ele tiver um “natural”, mostra as cartas e ganha. Se não tiver, encara o mesmo problema que eu. Mas tudo que eu fizer ajuda-o a saber se deve ou não pedir outra carta. Se fiquei com as que tenho, Ele deve concluir que eu tenho um cinco, um seis ou um sete; se pedi outra carta, Ele saberá que tenho menos de seis e que terei melhorado ou não minha mão com a carta que Ele me deu. E essa carta, Ele me entrega virada para cima. Pelo seu valor e pelo conhecimento das probabilidades Ele saberá se tem de pedir outra carta ou ficar com as que já tem”.

“Desta maneira, Ele tem uma ligeira vantagem sobre mim. Tem um pequeno auxílio em sua decisão de pedir ou ficar. Mas há sempre um problema neste jogo: devemos ficar com um cinco ou pedir outra carta, e o que fará o nosso oponente nas mesmas condições, ou seja, com um cinco na mão? Alguns jogadores sempre pedem. Eu sigo a minha intuição”.

“Mas no fim” — Bond apagou o cigarro e pediu a conta — “são os oito e nove “naturais” que contam e eu preciso obtê-los em muito maior quantidade do que Ele”.


Enquanto contava a estória do jogo e antecipava a luta próxima, o rosto de Bond se iluminava nova mente. A perspectiva de finalmente chegar às vias de fato com Le Chiffre o estimulava e fazia com que seu pulso batesse mais rápido. Parecia ter esquecido completamente a barreira de gelo que se formara entre os dois e Vésper, aliviada, adotou o mesmo estado de espírito.

Bond pagou a conta e deu uma gorjeta ao garçom. Vésper levantou-se e saiu à frente até as escadas do hotel.

O grande Bentley estava à porta e Bond dirigiu o carro até o local mais perto possível da entrada do Cassino, onde parou. Enquanto atravessavam a ante-sala toda enfeitada quase não falou. Ela olhou para Ele e notou que suas narinas estavam levemente dilatadas. Em tudo o mais, Ele parecia perfeitamente à vontade, notando alegremente os cumprimentos dos funcioná rios do Cassino. À porta da sala privada, ninguém pediu pelos cartões de sócios dos dois. O jogo alto de Bond já fizera dele um cliente favorecido, e qualquer pessoa que o acompanhasse participava desta glória.

Pouco depois de terem atravessado a entrada do salão prin cipal, Felix Leiter afastou-se de uma das mesas de roleta e cum primentou Bond como se fosse um velho amigo. Depois de ter sido apresentado a Vésper Lynd e trocado algumas observações com Bond, Leiter disse: “Bem, já que hoje você vai jogar baccarat, permite que eu mostre à srta. Lynd como se quebra a banca na roleta? Tenho três números de sorte que devem aparecer de um momento para outro e espero que a srta. Lynd também tenha um número de sorte. Então, quando o seu jogo começar a esquentar, talvez possamos assisti-lo”.

Bond olhou interrogativamente para Vésper.

“Gostaria muito de ir com Ele”, disse ela. “Você me dá um dos seus números de sorte para eu fazer uma jogada?”

“Não tenho números de sorte”, disse Bond sem sorrir. “Eu só aposto com probabilidades iguais, ou tão perto delas quanto eu consiga chegar. Bem, agora tenho de deixá-los”. Desculpou-se. “Você estará em boa companhia com meu amigo Felix Leiter”. Deu um rápido sorriso que envolveu a ambos e dirigiu-se com passos lentos em direção à caixa.

“Ele é um jogador muito sério, srta. Lynd”, disse Leiter, “e acho que tem de ser assim. Agora venha comigo e veja o número dezessete obedecer às minhas percepções extra-sensoriais. Descobrirá assim que receber muito dinheiro a troco de nada é uma sensação bastante indolor”.

Quando se viu sozinho novamente, Bond sentiu-se mais aliviado: poderia concentrar-se agora inteiramente na tarefa que tinha em mãos. Parou diante da caixa e retirou os 24 milhões de francos contra o recibo que lhe fora entregue ao depositar o dinheiro à tarde. Dividiu as notas em maços iguais, colocou metade no bolso direito do paletó, e outra metade ‘no bolso esquerdo. Vagarosamente, caminhou entre as mesas repletas até chegar ao fim do salão, onde a larga mesa de baccarat o esperava atrás da barra de metal dourado.

A mesa estava ficando cheia de gente, e as cartas estavam espalhadas, viradas para baixo, sendo lentamente misturadas pelo que se chama “o embaralhamento do croupier” — supostamente o embaralhamento mais eficiente e menos suscetível de roubo.

O chef de partie levantou a corrente coberta de veludo que dava acesso à mesa.

“Reservei o Número 6, como o senhor queria Monsieur Bond”.

Três lugares ainda estavam vazios. Bond dirigiu-se ao lugar a Ele destinado, onde um empregado já puxara a cadeira.

Sentou-se e com a cabeça cumprimentou os jogadores à sua direita e à sua esquerda. Tirou do bolso a cigarreira achatada de metal escuro e o isqueiro preto, colocando-os sobre o feltro verde ao lado de seu cotovelo direito. O empregado limpou um cinzeiro de vidro grosso com um pano e colocou-o ao lado de Bond, que acendeu um cigarro e recostou-se na cadeira. Diante dele o lugar destinado ao banqueiro ainda estava vazio. Olhou em volta da mesa. Conhecia de vista a maioria dos jogadores, mas poucos pelo nome. No Número 7, à sua direita, estava Monsieur Sixte, um belga rico que tinha interesses em metais no Congo. No Número 9, estava Lorde Danvers, um homem muito distinto, mas com uma aparência doentia cujo dinheiro, ao que se presumia, provinha de sua esposa norte-americana, uma senhora de meia idade, com uma boca feroz, parecida com a de uma barracuda, que estava sentada no Número 3. Bond imaginou que eles fariam um jogo nervoso e que estariam entre os primeiros a cair fora. No Número 1, à direita da banca, estava um jogador grego muito conhecido e que possuía — como, na opinião de Bond, todo mundo no Mediterrâneo Oriental — uma lucrativa linha de navios. Esse jogaria bem e friamente, e ficaria até o fim.

Bond pediu um pedaço de papel ao empregado e escreveu nele, sob um nítido ponto de interrogação, os demais números, 2, 4, 5, 8, 10, e pediu que o entregasse ao chef de partie.

Logo o papel foi devolvido com todos os nomes escritos.

O número 2, ainda vazio, seria de Carmel Delane, a estrela do cinema norte-americano que tinha a mesada de três maridos para queimar e, pensou Bond, a esperança de conseguir mais uma do eventual companheiro que arranjasse em Royale. De temperamento sangüíneo, jogaria corajosa e alegremente e poderia entrar numa onda de sorte.

Depois vinha Lady Danvers no Número 3 e os Números 4 e 5 eram de um casal Du Pont, com jeito de rico, que poderia oh não ter um pouco do dinheiro dos verdadeiros Du Pont. Bond achou que eles ficariam até o fim. Tinham os dois um ar de gente de negócios e conversavam casual e alegremente, como se se sentissem muito à vontade no jogo alto. Bond estava contente de tê-los ao lado — a Sra. Du Pont estava sentada no Número 5 — e Ele se sentia preparado para juntar forças com

eles ou com Monsieur Sixte, à sua direita, caso tivessem de enfrentar uma banca muito alta.

No Número 8 estava o marajá de um pequeno Estado hindu, provavelmente com todas as libras que obtivera durante a guerra, para brincar. A experiência de Bond dizia que poucos joga dores de raça asiática são corajosos, mesmo os tão famosos chineses, que perdem a coragem assim que as coisas começam a andar mal. Mas o marajá provavelmente ficaria no jogo até bem tarde e agüentaria grandes perdas, se elas fossem gradativas.

O Número 10 era um jovem italiano de aspecto próspero, o signor Tomelli, que possivelmente tinha muito dinheiro ganho no aluguel dos cortiços de Milão e que provavelmente faria um jogo rápido e idiota.

No momento em que Bond terminou de analisar os joga dores, entrou Le Chiffre, que atravessou a corrente coberta de veludo e acercou-se da mesa com o silêncio e a economia de movimento dos grandes peixes, dando um frio sorriso de boas vindas aos ocupantes da mesa e sentando-se no lugar que ficava exatamente à frente de Bond. Com a mesma economia de movimentos, cortou o maço de cartas que o croupier colocara entre suas mãos pequenas e calmas. Então, quando o croupier colocou os seis maços de cartas dentro da caixa de metal e madeira com seis movimentos precisos, Le Chiffre lhe disse alguma coisa bem baixinho.

“Messieurs, Mesdames, les jeux sont faits. Un banco de cinq cent mille”, e, enquanto o grego do Número 1 batia na mesa, na frente de sua pilha alta de fichas de cem mil: “Le banco est fait”.

Le Chiffre inclinou-se sobre a caixa. Deu deliberadamente um tapa rápido para arrumar as cartas, a primeira das quais mostrou sua pálida língua rosada e semicircular na abertura da boca de alumínio da caixa. Daí, com um indicador grosso e branco, apertou levemente a língua cor de rosa e Fez escorregar a primeira carta a uns vinte centímetros na direção do grego à sua direita. Depois, tirou uma carta para ele mesmo, outra para o grego e novamente outra para si.

Ficou imóvel, sem mexer nem nas próprias cartas.

Olhava o rosto do grego.

Com sua espátula achatada de madeira, como uma longa colher de pedreiro, o croupier levantou delicadamente as duas cartas do grego e derrubou-as com um movimento rápido, um pouco para a direita, de modo que ficassem bem na frente das mãos pálidas e peludas do grego, que permaneciam inertes como dois caranguejos cor de rosa em cima da mesa.

Os dois caranguejos cor de rosa adiantaram-se ao mesmo tempo e o grego recolheu as cartas em sua larga mão esquerda, cautelosamente inclinando a cabeça para o lado a fim de poder ver, na sombra feita por sua mão em concha, o valor da carta de baixo. Então, com o indicador da mão direita, puxou a carta de baixo um pouco para o lado a fim de que o valor da carta de cima ficasse também levemente à mostra. Seu rosto estava impassível. Estendeu a mão esquerda na mesa e depois retirou-a, deixando as duas cartas cor de rosa viradas para baixo à sua frente, conservando o segredo que elas continham.

Então levantou a cabeça e fitou Le Chiffre nos olhos.

“Non”, disse o grego simplesmente.

Pela decisão de ficar com as duas cartas e não pedir outra, ficou claro que o grego tinha um cinco, um seis ou um sete. Para ter certeza de ganhar, o banqueiro precisaria de um oito ou um nove. Se não conseguisse nenhum desses dois números, Ele também teria o direito de pedir mais uma carta, a qual poderia ou não melhorar seu jogo.

Le Chiffre estava com as mãos cruzadas, suas duas cartas a alguns centímetros à frente. Com a mão direita, pegou as duas cartas e virou-as sobre a mesa com uma ligeira batida.

Eram um quatro e um cinco, somando um invencível nove “natural”.

Ganhara.

“Neuf à la banque”, disse o croupier cm voz baixa. Com sua espátula, apanhou as duas cartas do grego. “Et le sept”, disse sem a menor emoção, levantando gentilmente os cadáveres do sete e da rainha e enfiando-os através da larga abertura na mesa, ao lado de sua cadeira, que leva à grande caixa de metal para onde vão todas as cartas mortas. As duas cartas de Le Chiffre seguiram-nas, provocando ao cair um leve barulho seme lhante ao de um chocalho que se ouve, vindo da lata, no começo de cada sessão antes que muitos descartes façam um acolchoado sobre o fundo de metal.

O grego empurrou cinco fichas de cem mil para a frente e o croupier juntou-as à ficha de meio milhão que Le Chiffre colocara no centro da mesa. De cada aposta, o Cassino tira uma pequena percentagem, o “barato”; mas num jogo alto é normal que o banqueiro subscreva esta quantia Ele mesmo, ou com uma soma total preestabelecida ou por contribuições no fim de cada mão, de maneira que o cacife da banca seja sempre uma quantia redonda. Le Chiffre escolhera a segunda moda lidade .

O croupier separou algumas fichas para o “barato” e anunciou em voz baixa:

“Un banco d’un million”.

“Suivi”, murmurou o grego, o que significava que Ele estava exercendo seu direito de recuperar sua aposta perdida.

Bond acendeu um cigarro e ajeitou-se na cadeira. O jogo que poderia durar horas e horas estava apenas começando e a seqüência desses gestos e a reiteração dessa ladainha monótona continuariam até o fim, até que os jogadores se dispersassem. Então as enigmáticas cartas seriam queimadas ou desfiguradas, uma mortalha seria jogada sobre a mesa e o campo de batalha, coberto de feltro verde como grama, absorveria o sangue de suas vítimas e se refrescaria.

O grego, depois de pegar uma terceira carta, não conseguira nada melhor do que um quatro, contra o sete da banca.

“Un banco de deux millions”, disse o croupier.

Os jogadores à esquerda de Bond ficaram em silêncio.

“Banco”, disse Bond.

 

Le Chiffre olhou para ele sem demonstrar a menor curiosidade, o branco de seus olhos, que aparecia em toda a volta da íris, emprestando à sua expressão alguma coisa do olhar impassível das bonecas.

Lentamente, retirou uma de suas grossas mãos de cima da mesa e enfiou no bolso de seu “dinner-jacket”. A mão voltou a aparecer segurando um pequeno cilindro de metal com uma tampinha, que Le Chiffre desatarraxou. Com uma deliberação quase obscena, inseriu a ponta do cilindro duas vezes em cada narina escura e gostosamente inalou o vapor da benzedrina.

Sem a menor pressa, guardou o tubinho no bolso; então, a mão voltou rapidamente para cima da mesa e deu na caixinha seu costumeiro tapa duro e seco.

Durante essa pantomima ofensiva. Bond sustentou friamen te o olhar do banqueiro, analisando a larga extensão do rosto branco coroada por um tufo curto e abrupto de cabelos aver melhados, a boca vermelha, úmida e séria, e a impressionante largura dos ombros, vestidos folgadamente num “dinner-jacket” de corte másculo.

Se não fosse pelo brilho do cetim nas lapelas, Ele poderia estar diante do pesado busto de um minotauro de pêlo preto, surgindo de um campo verde de grama.

Bond colocou o pacote de notas sobre a mesa sem contá-las. Se perdesse, o croupier retiraria o necessário para cobrir a aposta; mas o gesto displicente indicava que Bond não esperava perder e que se tratava apenas de uma amostra dos grandes fundos que Bond tinha à sua disposição.

Os outros jogadores sentiram a tensão entre Bond e Le Chiffre e Fez-se silêncio quando o último tirou as quatro cartas de dentro da caixa.

O croupier escorregou com a ponta de sua espátula as duas cartas de Bond através da mesa. Bond, ainda sustentando o olhar de Le Chiffre, avançou a mão direita alguns centímetros, olhou rapidamente para baixo; depois, olhando impassivelmente para Le Chiffre, com um gesto de desdém virou as duas cartas sobre a mesa.

Eram um quatro e um cinco — um invencível nove.

Ouviu-se um ligeiro rumor de inveja em volta da mesa e os jogadores à esquerda de Bond trocaram olhares tristonhos por não terem aceito a aposta de dois milhões de francos.

Com um imperceptível encolher de ombros, Le Chiffre virou lentamente suas cartas e afastou-as com a unha. Eram dois valetes sem valor algum.

“Le baccarat”, cantou o croupier enquanto empurrava com a espátula o monte de fichas para Bond do outro lado da mesa.

Bond enfiou-as no bolso direito junto com o pacote de notas ainda não utilizado. Seu rosto não demonstrava emoção, mas Ele estava satisfeito com o êxito de seu primeiro golpe e com o resultado do silencioso entrechoque de vontades do outro lado da mesa.

A senhora norte-americana a seu lado, casada com Du Pont, virou-se para Ele com um sorriso meio amarelo.

“Eu não deveria ter deixado que elas fossem para o senhor”, disse ela. “Na mesma hora em que as cartas foram dadas, dei um pontapé em mim mesma”.

“Estamos só no começo do jogo”, disse Bond. “A senhora poderá acertar numa outra vez”.

O sr. Du Pont inclinou-se um pouco para a frente, do outro lado de sua esposa: “Se todos pudessem acertar todas as mãos, nenhum de nós estaria aqui”, comentou filosoficamente.

“Eu estaria”, disse sua mulher sorrindo. “Não pense que faço isto por prazer”.

À medida que o jogo prosseguia, Bond examinou os espec tadores que se debruçavam na alta barra de metal em volta da mesa. Logo localizou os dois pistoleiros de Le Chiffre. Eles estavam atrás do banqueiro, um de cada lado. Pareciam suficien temente respeitáveis, mas não o bastante para passar desperce bidos naquele ambiente.

O que estava mais ou menos atrás do braço direito de Le Chiffre era alto e o “dinner-jacket” lhe emprestava um ar fúne bre. Tinha o rosto duro e cinzento, mas seus olhos brilhavam como os de um feiticeiro. Seu corpo era comprido e inquieto, suas mãos se mexiam constantemente no corrimão de metal. Bond imaginou que Ele mataria sem interesse ou preocupação pelo que estava fazendo e que preferiria o estrangulamento. Havia nele alguma coisa de Lennie, o personagem de Ratos e Homens, mas sua desumanidade não proviria de infantilismo, e sim de drogas. Maconha, concluiu Bond.

O outro homem parecia um comerciante da Córsega. Era baixo, muito moreno e com uma cabeça chata coberta de cabelo cheio de brilhantina. Parecia um aleijado. A seu lado, pendia no corrimão uma grossa bengala de Malaca com uma ponta de borracha. Deve ter pedido permissão para entrar com a bengala no Cassino, pensou Bond, que sabia que bengalas e objetos semelhantes eram proibidos dentro dos salões, como precaução contra atos de violência. Este segundo homem tinha um ar desenvolto e bem alimentado. Estava distraidamente com a boca meio aberta revelando péssimos dentes. Usava um bigode grande e preto, e as costas de suas mãos no corrimão eram cobertas de cabelos pretos. Bond imaginou que aqueles pêlos pretos cobri riam a maior parte de seu corpo troncudo. Nu, pensou Bond, seria um objeto bastante obsceno.

O jogo continuava normalmente, mas com uma ligeira des vantagem para o banqueiro.

O terceiro golpe é a “barreira do som” no chemin de fer e no baccarat. Se você estiver com muita sorte, poderá passar pelos dois primeiros testes, mas o terceiro normalmente acaba em desastre. Muitas e muitas vezes, neste momento, você é jogado de volta à terra. Era o que estava acontecendo agora. Nem a banca nem os jogadores pareciam capazes de esquentar.

Mas havia uma drenagem firme e inexorável contra a banca, somando dez milhões de francos após duas horas de jogo. Bond não tinha idéia do que Le Chiffre poderia ter ganho nesses dois dias. Mas estimava em uns cinco milhões e imaginava que o capital do banqueiro não podia ser agora muito maior que vinte milhões.

Na verdade, Le Chiffre perdera muito dinheiro durante toda a tarde. Naquele momento sobravam-lhe somente dez milhões de francos.

Bond, ao contrário, quando o relógio marcou uma hora da manhã, havia ganho quatro milhões, aumentando seu capital para 28 milhões.

Discretamente, Bond estava satisfeito. Le Chiffre não de monstrava o menor sinal de emoção. Continuava jogando como um autômato, sem falar, exceto quando dava instruções em voz baixa ao croupier a seu lado, no começo de cada jogada. Fora do círculo de silêncio em volta da mesa de jogo alto, havia o rumor constante das outras mesas, chemin de fer, frente et quarante, roleta, intercalado pelos chamados dos croupier e pelos ocasionais acessos de riso ou engasgos de excitação, vindos dos diferentes cantos da sala.

Nos bastidores disso tudo, batia em ritmo constante o metrônomo escondido do Cassino, marcando seu pequeno tesouro de um por cento em cada volta da roleta, em cada carta virada — um gato gordo, com um zero pulsando no lugar do coração.

Era uma e dez pelo relógio de Bond quando, na mesa do jogo forte, o panorama do jogo se alterou.

O grego do Número 1 estava passando por maus bocados. Perdera o primeiro golpe de meio milhão e o segundo também. Passou a terceira vez, deixando uma banca de dois milhões. Carmel Delane, no Número 2, também passou. E o mesmo Fez Lady Danvers no Número 3.

Os Du Pont entreolharam-se.

“Banco”, disse a sra. Du Pont, perdendo imediatamente para o oito “natural” do banqueiro.

“Un banco de quatre millions”, disse o croupier.

“Banco”, disse Bond, empurrando para a frente um pacote de notas.

Novamente fixou Le Chiffre. Novamente olhou as cartas com displicência.

“Não”, recusou outra carta. Tinha um cinco. A situação era perigosa.

Le Chifre mostrou um valete e um quatro. Deu uma batida na caixa. Tirou um três.

“Sept à Ia banque”, disse o croupier, “et cinq”, acrescentou, quando virou as cartas perdedoras de Bond para cima. Espalhou o dinheiro de Bond, tirou quatro milhões de francos e devolveu o resto.

“Um banco de huit millions”.

“Suivi”, disse Bond.

E perdeu de novo, para um nove “natural”.

Em duas jogadas, perdera 12 milhões de francos. Raspando o fundo de seu cofre, sobravam somente 16 milhões, exatamente a quantia da próxima banca.

De repente, Bond sentiu que as palmas de suas mãos esta vam suadas. Como neve ao sol, seu capital se derretera. Com o deliberado prazer de todo vencedor, Le Chiffre desenhava de leve uma figurinha sobre a mesa, com a mão direita. Bond olhou para o outro lado da mesa dentro daqueles dois olhos de basalto opaco. Tinham uma expressão irônica. “Quer o tratamento completo?” pareciam perguntar.

“Suivi”, disse Bond, suavemente.

Tirou algumas notas e algumas fichas do bolso direito, todo o pacote de notas do bolso esquerdo e empurrou-as para a frente. Não havia em seus movimentos o menor sinal de que esta seria a última aposta.

Sua boca secou rapidamente e ficou como papel de parede descolado. Olhou para cima e viu Vésper e Felix Leiter parados onde o pistoleiro com a bengala estivera durante algum tempo. Leiter parecia um pouco preocupado, mas Vésper sorria encorajadoramente.

Ouviu um ligeiro ruído no corrimão atrás dele e virou a cabeça. Aquela bateria de péssimos dentes sob o bigode preto se abria distraidamente para Ele.

“Le jeu est fait”, disse o croupier, e as duas cartas vieram deslizando em sua direção sobre o feltro verde — um feltro verde que já não era tão macio, mas grosso, peludo, quase sufocante, sua cor tão lívida quanto a grama de um túmulo recém-fechado.

A luz dos grandes abajures com arremates de cetim, que pareciam sempre tão aconchegantes, estava agora da mesma cor que suas mãos, quando Ele olhou para as cartas. Então Ele voltou a olhá-las.

Piores não poderiam ser — o rei de copas, um ás, o de espadas, que olhava para Ele como uma viúva negra.

“Uma carta”. Ele ainda conseguia manter a voz sem o menor sinal de emoção.

Le Chiffre examinou as próprias cartas. Tinha uma rainha e um cinco preto. Olhou para Bond e tirou outra carta com seu dedo largo. A mesa estava em absoluto silêncio. Olhou-a, jogou-a fora. O croupier levantou-a delicadamente com a espátula e Fez com que ela deslizasse até Bond. Era uma boa carta, o cinco de copas, mas para Bond era como uma impressão digital difícil marcada em sangue seco. Tinha agora um seis e Le Chiffre um cinco; mas o banqueiro, tendo um cinco e tendo dado um cinco ao outro, deveria e sem dúvida tiraria outra carta, para tentar melhorar seu jogo com um ás, um dois, um três ou um quatro. Se tirasse qualquer outra carta, seria derrotado.

As probabilidades estavam do lado de Bond, mas agora era Le Chiffre que olhava diretamente para os olhos de Bond e quase não olhou a carta, quando a virou para cima sobre a mesa.

Era, desnecessariamente, a melhor, um quatro, dando um nove à banca. Ganhara, quase sem esforço.

Bond estava derrotado e sem um tostão.

Bond permaneceu sentado, em silên cio, gelado com a derrota. Abriu a cigarreira escura e tirou um cigarro. Acendeu-o apertando a mandíbula do isqueiro Ronson e colocou-o de volta na mesa. Aspirou profundamente a fumaça e a expeliu entre os dentes, emitindo um leve silvo. E agora? Voltar para o hotel, para a cama, evitando os olhares de comiseração de Mathis, Leiter e Vésper. Telefonar a Londres, tomar amanhã o avião de volta, o táxi até Regent’s Park, subir as escadas, atravessar os corredores até a expressão fria de m, sua simpatia forçada, seu “melhor sorte da próxima vez”; e, naturalmente, não havia, não podia haver melhor chance do que esta.

Olhou em volta da mesa e para os espectadores. Poucos estavam olhando para Ele. Quase todos esperavam que o croupier contasse o dinheiro e empilhasse as fichas num monte certinho diante do banqueiro, para ver depois se alguém teria coração de desafiar esta enorme banca de 32 milhões de francos, este maravilhoso golpe de sorte do banqueiro.

Leiter tinha desaparecido, não querendo enfrentar seu olhar depois do insucesso, supôs Bond. Mas o estranho é que Vésper continuava imperturbável, e até sorriu para Ele encorajadoramente. Bem, refletiu Bond, ela não sabia nada sobre este jogo. Provavelmente não tinha a menor noção da amargura de sua derrota.

Um empregado aproximou-se de Bond. Parou a seu lado. Curvou-se para Ele. Depositou um envelope grosso ao lado de Bond, em cima da mesa. Grosso como um dicionário. Disse algo sobre a Caixa. Afastou-se.

O coração de Bond deu um salto. Pegou o pesado envelope anônimo e, debaixo da mesa, abriu-o com a unha do polegar. Notou que a cola ainda estava molhada.

Sem acreditar, e ao mesmo tempo sabendo que era verdade, sentiu o grosso pacote de notas. Enfiou-o no bolso, conser vando na mão o pedaço de papel que envolvia as notas. Exami nou-o debaixo da mesa. Havia uma linha escrita a tinta: “Plano Marshall, ajuda econômica. Trinta e dois milhões de francos. Com os cumprimentos dos eua” .

Bond engoliu em seco. Olhou para Vésper. Felix Leiter estava novamente a seu lado. Riu de leve, e Bond sorriu de volta, levantando a mão num pequeno gesto de bênção. Decidiu então concentrar-se, para limpar da cabeça todos os sinais de derrota completa que o haviam esmagado alguns minutos antes. Fora uma trégua, mas só uma trégua. Não aconteceria mais nenhum milagre. Desta vez Ele tinha de vencer — se Le Chiffre já não tivesse ganho os cinqüenta milhões que precisava — se Le Chiffre fosse continuar!

O croupier completara sua obrigação de calcular o “barato”, trocar as notas de Bond em fichas, e fazer uma pilha de aposta gigante no meio da mesa.

Ali estavam 32 mil libras. Talvez, pensou Bond, Le Chiffre só precisasse de mais um golpe, mesmo um pequeno golpe de alguns milhões de francos, para alcançar o que precisava. Teria completado então os cinqüenta milhões de francos e deixaria a mesa. No dia seguinte, cobriria seus déficits e asseguraria sua posição.

Mas Le Chiffre não dava sinais de que pretendia partir e Bond adivinhou, com alívio, que de alguma maneira superes timara os recursos de Le Chiffre.

Assim, a única esperança, pensou Bond, era esmagá-lo agora. Não dividir a banca com o resto da mesa, nem tomar uma pequena parte nela, mas ir de uma vez. Isto realmente abalaria Le Chiffre. Ele detestaria ver mais de dez milhões da aposta cobertos, e não esperaria de maneira alguma que alguém topasse sozinho a parada dos 32 milhões inteiros. Ele podia não saber que Bond estava completamente quebrado, mas poderia imaginar que Ele tinha no momento só uma pequena reserva. Le Chiffre não poderia saber o que continha o envelope. Se soubesse retiraria a banca e tudo começaria de novo, na cansativa jornada que se inicia com a aposta de abertura valendo 500 francos.

A análise estava correta.

Le Chiffre precisava de mais oito milhões.

Finalmente, Ele Fez um gesto com a cabeça.

“Un banco de trente-deux millions”.

Soou a voz do croupier. O silêncio impôs-se por si mesmo em volta da mesa.

“Un banco de trente-deux millions”.

Num tom de voz ainda mais alto e orgulhoso, o chef de partie continuou a repetir o chamado, esperando tirar dinheiro alto das mesas de chemin de fer vizinhas.

Ademais, isto era ótima publicidade. Uma aposta desse tamanho só tinha sido alcançada uma vez na história do baccarat — em Deauville, no ano de 1950. O Cassino rival de Royale, La Forêt, em Le Touquet, nem chegara perto disso.

Foi então que Bond inclinou-se ligeiramente para a frente.

“Suivi”, disse baixinho.

Houve um ruído de excitação em volta da mesa. A novi dade correu rapidamente pelo Cassino inteiro. 32 milhões! Para a maioria das pessoas ali presentes, era mais dinheiro do que eles já haviam ganho em toda a vida. Eram todas as suas eco nomias, todas as economias de suas famílias. Era, literalmente, uma pequena fortuna.

Um dos diretores do Cassino consultou o chef de partie. O chef de partie virou-se para Bond, desculpando-se.

“Excusez-moi, Monsieur. La mise?”

Era uma indicação de que Bond deveria mostrar realmente que tinha dinheiro para cobrir a aposta. Naturalmente todos sabiam que Ele era um homem muito rico, mas afinal de contas, 32 milhões! E já acontecera de gente desesperada apostar sem um tostão no bolso e ir parar alegremente na prisão, caso per desse.

“Mes excuses, Monsieur Bond”, acrescentou o chef de par tie, desculpando-se mais uma vez.

No momento em que jogou o maço de notas sobre a mesa e o croupier começou a contar as notas de dez mil francos, as notas mais altas em circulação na França, Bond percebeu um rápido olhar entre Le Chiffre e o pistoleiro que estava exata mente atrás de Bond.

Imediatamente, sentiu alguma coisa dura ser pressionada contra a base de sua espinha, justamente no vão entre suas duas nádegas e a cadeira acolchoada.

Ao mesmo tempo, uma voz pastosa, falando francês com sotaque meridional, disse suavemente, urgentemente, bem atrás da orelha direita de Bond:

“Trata-se de uma arma, monsieur. Absolutamente silencio sa. Que pode estourar a base de sua espinha, sem emitir o menor som. Parecerá que Monsieur teve um desmaio. Eu já es tarei longe. Retire sua aposta antes que eu conte até dez. Se pedir socorro, eu disparo”.

Era um tom de voz confiante. Bond acreditou na sinceri dade daquelas palavras. Essa gente já mostrara que não hesitaria em ir às últimas conseqüências. A grossa bengala estava então explicada. Bond conhecia esse tipo de arma. O cano é feito com uma série de amortecedores de borracha, que absorvem a detonação, mas permitem a passagem da bala. Foram inventadas e utilizadas na guerra para assassínios. Bond já havia experimen tado uma delas.

“Un”, disse a voz.

Bond virou a cabeça para trás. Havia um homem, debru çado atrás dele, com um amplo sorriso sob o bigode preto, como se estivesse desejando boa sorte a Bond, completamente seguro de si no meio do barulho c da multidão.

Os dentes estragados se juntaram.

“Deux”, disse a boca sorridente.

Bond olhou para o outro lado da mesa. Le Chiffre o ob servava. Seus olhos brilhavam. Estava com a boca aberta, a res piração apressada. Esperava, esperava que a mão de Bond fi zesse um gesto ao croupier, ou que, de repente, Bond caísse para trás na cadeira, o rosto contorcido por um grito.

“Trois”.

Bond olhou para Vésper e Felix Leiter. Estavam sorrindo, conversando um com o outro. Os imbecis! Onde estava Mathis? Onde andavam esse tão famosos homens de quem Mathis se gabava tanto?

“Quatre”.

E os outros espectadores? Essa multidão de idiotas conversadores. Será que ninguém via o que estava acontecendo? O chef de partie, o croupier, o outro empregado?

“Cinq”.

O croupier estava arrumando o maço de notas. O chef de partie inclinou-se sorridente em direção a Bond. Na hora em que a aposta estivesse em ordem, Ele anunciaria “Le jeux est fait”, e a arma dispararia, tivesse o pistoleiro contado até dez ou não.

“Six”.

Bond tomou uma decisão. Era uma chance. Cuidadosa mente, moveu as mãos até a beirada da mesa, firmou-as, empinou as nádegas bem para trás, sentindo a mira da arma machu car seu cóccix.

“Sept”.

O chef de partie voltou-se para Le Chiffre com as sobran celhas levantadas, esperando um sinal do banqueiro para indicar que estava pronto para jogar.

Subitamente, Bond empurrou-se para trás com toda a força que tinha. Seu ímpeto foi tão forte que deslocou a barra das costas da cadeira tão rapidamente que ela se quebrou de encontro à bengala de Malacca, tirando-a das mãos do pisto leiro antes que Ele pudesse puxar o gatilho.

Bond foi parar no chão, de pernas para o ar, entre os pés dos espectadores. As costas da cadeira fizeram-se em pedaços com a batida seca. Ouviram-se gritos de susto. Os espectadores afastaram-se e, depois, encorajados, juntaram-se novamente, Mãos ajudaram Bond a pôr-se de pé, escovaram-no. O chef de partie e o outro empregado apressaram-se. Um escândalo deve ser evitado a qualquer custo.

Bond apoiou-se no corrimão de metal. Parecia confuso, embaraçado. Passou a mão na testa. “Um desmaio momentâ neo”, explicou Ele. “Não foi nada — a excitação, o calor”.

Houve expressões de simpatia. Naturalmente, com esse jogo tão alto! Monsieur gostaria de retirar-se, deitar-se, ir embora? Queria que fossem buscar um médico?

Bond recusou tudo. Estava perfeitamente bem agora. Pe diu desculpas à mesa. Ao banqueiro também.

Trouxeram uma nova cadeira e Ele se sentou. Olhou para Le Chiffre: junto com a satisfação de estar vivo, sentiu um momento de triunfo no que viu — um pouco de medo estampa do naquela cara gorda e pálida.

Uma onda de comentários percorreu a mesa. Os vizinhos de Bond, de ambos os lados, inclinaram-se para a frente, solícitos, falando sobre o calor, sobre como já era tarde, sobre a fumaça, a falta de ar.

Bond respondeu delicadamente. Virou-se para examinar as pessoas que estavam às suas costas. Não havia sinal do pis toleiro, mas o empregado estava procurando alguém que re clamasse a bengala de Malaca. Parecia perfeita. Mas não tinha mais a ponta de borracha. Bond Fez-lhe um sinal.

“Se você entregá-la àquele senhor que está ali” — indicou Felix Leiter — “Ele poderá devolvê-la. Pertence a um conhecido dele”.

O empregado inclinou-se.

Sorrindo, Bond imaginou que, mesmo com um rápido exa me, Leiter compreenderia por que Ele, Bond, tinha feito uma cena tão embaraçosa em público.

Voltou-se para a mesa e bateu no pano verde à sua frente a fim de indicar que estava pronto para continuar.


Dando bastante ênfase ao que dizia, o chef anunciou: “O jogo continua”. E acrescentou: “Un ban co de trente-deux millions”.

Os espectadores aglomeraram-se em volta da mesa. Le Chiffre bateu na caixa das cartas e ouviu-se um barulho seme lhante ao de um chocalho. Parou, como se tivesse pensado me lhor, retirou o inalador de benzedrina do bolso e aspirou o vapor pelo nariz.

“Estúpido”, murmurou Mrs. Du Pont, à esquerda de Bond.

Bond sentia novamente a cabeça desanuviada. Por um mi lagre, sobrevivera a uma situação gravíssima. Sentia ainda o suor debaixo do braço, provocado pelo medo que passara. Mas o êxito do golpe com a cadeira varrera de sua lembrança a de sagradável sensação de derrota que experimentara pouco tempo antes.

Fizera um papelão. O jogo fora interrompido pelo menos durante dez minutos, demora nunca vista num cassino respeitá vel. Mas agora, superada esta situação, as cartas estavam outra vez à sua espera. Desta vez, não poderiam traí-lo. Com esta perspectiva, Bond sentiu o coração leve.

Eram duas horas da manhã. Além da compacta multidão que se formara em volta da mesa do jogo, ainda se jogava nas três mesas de chemin de fer e num número igual de mesas de roleta.

No silêncio que cercava a mesa que estava jogando, Bond ouviu a voz distante de outro croupier, em outra mesa, dizer: “Neuf. Le rouge gagne, impair et manque”.

Seria uma previsão para Ele ou para Le Chiffre?

Duas cartas escorregaram na direção de Bond, através da quele verde mar.

Como um polvo escondido numa pedra, Le Chiffre o ob servava do outro lado da mesa. Bond estendeu a mão direita, firme, e puxou as cartas. Sentiria aquela sensação de alívio que só um nove pode trazer, ou um oito?

Fazendo uma cortina com a própria mão, abriu as duas cartas em leque. Os músculos de seus maxilares saltaram, quan do Ele cerrou os dentes. Seu corpo inteiro retesou-se, num re flexo de autodefesa.

Bond tinha duas rainhas, duas rainhas vermelhas.

Nas sombras em que se escondiam, as duas olhavam para Ele despudoradamente. Representavam o que poderia acontecer de pior. Eram nada. Zero. Baccarat.

“Uma carta”, pediu Bond, lutando para que sua voz não traísse sua completa falta de esperança. Sentiu o cérebro atra vessado pelos olhos de Le Chiffre.

Vagarosamente, o banqueiro virou suas próprias cartas de cara para cima.

Tudo somado, tinha um três — um rei e um três preto.

Sentindo um suave alívio, Bond soltou a fumaça que tra gara de seu cigarro. Ainda tinha uma chance. Agora encarava realmente o momento da verdade. Le Chiffre bateu na caixa, ti rou uma carta, a carta de Bond, o destino de Bond, e vagaro samente virou-a para cima.

Era um nove, um maravilhoso nove de copas, a carta que a superstição cigana chama de “um sussurro de amor, um sussurro de ódio”, a carta que representava vitória quase certa para Bond.

O croupier Fez com que ela deslizasse suavemente para o outro lado da mesa. Para Le Chiffre, aquela carta não repre sentava nada. Bond poderia ter um, e neste caso estaria agora dez pontos, ou nada, ou baccarat, que é como se diz. Ou poderia ter dois, quatro ou até cinco. Neste caso, com nove, sua máxima soma seria cinco.

Para o banqueiro, que tinha um três e tirara um nove para adversário, a situação era bastante discutível. As probabilidades dividem-se perfeitamente entre tirar e não tirar outra carta. Bond deixou que o banqueiro suasse, tentando resolver estas equações. Como o nove que tirara só poderia ser igualado se o banqueiro tirasse um seis, Ele teria normalmente mostrado o próprio jogo, se fosse uma partida amigável.

As cartas de Bond continuavam na mesa à sua frente, as duas rainhas de costas, mostrando aqueles desenhos cor de rosa bastante impessoais, e o nove de copas virado para cima. Para Le Chiffre, aquele nove poderia estar dizendo a verdade, ou uma grande variedade de mentiras.

Todo o segredo do jogo estava escondido no outro lado das duas cartas cor de rosa, onde as duas rainhas beijavam o pano verde.

O suor escorria pelas narinas do banqueiro. Sua língua grossa apareceu sub-repticiamente num canto da boca e lambeu uma gota de suor. Le Chiffre olhou as cartas de Bond, depois as suas e novamente as de Bond.

Em seguida, encolhendo o corpo na cadeira, tirou da caixa uma carta para si mesmo.

Virou-a para cima. Todo mundo quis ver. Era uma ótima carta, um cinco.

“Huit à Ia banque”, disse o croupier.

Enquanto Bond permanecia em silêncio, Le Chiffre sorria animalescamente. Já contava com a vitória.

A espátula do croupier atravessou a mesa quase pedindo desculpas. Não havia praticamente na mesa quem não acredi tasse na derrota de Bond.

A espátula apanhou as duas cartas e virou-as de cara para cima. As duas alegres rainhas vermelhas sorriram para as luzes.

“Et le neuf”.

Um enorme suspiro correu em volta da mesa, seguido de um ruído de vozes.

 

Os olhos de Bond fixavam Le Chiffre. O homenzarrão caiu para trás na cadeira, como se tivesse sido golpeado no coração. Abriu e fechou a boca umas duas vezes, como se qui sesse protestar, e levou a mão direita à garganta. Mas acomo dou-se de novo na cadeira. O sangue fugira de seus lábios, que agora estavam cinzentos.

Enquanto a enorme pilha de fichas era empurrada para o lado de Bond, o banqueiro enfiou a mão no bolso de dentro do paletó e jogou um pacote de notas na mesa.

O croupier contou-as.

“Un banco de dix millions”, anunciou então. Trocou as notas pelo equivalente em fichas: dez fichas de um milhão.

É o fim, pensou Bond. Este homem chegou ao fim da li nha. Este é o último dinheiro que tem. Está na mesma situação em que eu estava há uma hora, e este é seu último gesto, como aquele parecia ser o meu. Só que, se este homem perder, nin guém virá ajudá-lo, nenhum milagre o salvará.

Bond ajeitou-se na cadeira e acendeu um cigarro. Numa pequena mesa a seu lado, materializaram-se meia garrafa de Clicquot e uma taça. Sem perguntar quem fora o amável doador, Bond encheu a taça e esvaziou-a em dois longos goles.

Então inclinou-se para trás na cadeira, com os braços es tendidos para a frente, apoiados na mesa, como os braços de um lutador que procuram segurar o adversário no início de uma partida de jiu-jitsu.

à sua esquerda, os outros jogadores continuavam em si lêncio.

“Banco”, disse Bond, olhando diretamente para Le Chiffre.

Mais uma vez, duas cartas lhe foram entregues, só que desta vez o croupier empurrou-as até a lagoa verde que se for mara entre seus braços estendidos.

Bond curvou a mão para dentro, olhou de relance para baixo e atirou as duas cartas viradas para cima no centro da mesa.

“Le neuf”, disse o croupier.

Le Chiffre contemplava os dois reis pretos que tirara para si mesmo.

“Et le baccarat”, disse o croupier, já empurrando a pilha de fichas para Bond.

Le Chiffre acompanhou-as com o olhar, enquanto se jun tavam às outras protegidas pela sombra do braço esquerdo de Bond. Então, devagar, levantou-se e sem dizer uma palavra saiu em direção à abertura no corrimão de metal. Desenganchou a ponta da corrente coberta de veludo e deixou-a cair. Os espec tadores abriram caminho. Olharam-no curiosamente e com um pouco de medo, como se Ele levasse consigo o próprio cheiro da morte. Depois, desapareceu da vista de Bond.

Bond levantou-se. Tirou uma ficha de cem mil francos da pilha que estava a seu lado e empurrou-a para o outro lado da mesa, em direção ao chef de partie. Cortou os efusivos agrade cimentos pela metade e pediu ao croupier que mandasse levar tudo o que ganhara para a caixa. Os outros jogadores também começavam a deixar seus lugares. Sem banqueiro, não poderia haver jogo e já eram duas e meia da manhã. Bond trocou al gumas palavras delicadas com seus vizinhos de mesa e passou, por baixo do corrimão, para onde Vésper e Felíx Leiter espe ravam por Ele.

Juntos, caminharam até a caixa. Bond foi convidado a comparecer ao escritório particular dos diretores do cassino. Na escrivaninha, estava sua enorme pilha de fichas. Bond juntou a elas as que haviam ficado em seus bolsos.

Ao todo, somavam mais de 70 milhões de francos.

Bond separou uma quantia em notas igual à que Felix Leiter lhe emprestara e Fez um cheque no valor dos quarenta o poucos milhões restantes, para ser depositado em sua conta do Crédit Lyonnais. Foi calorosamente felicitado pelos seus ga nhos. Os diretores do cassino esperavam que Ele voltasse a jogar naquela noite.

Bond deu uma resposta evasiva. Dirigiu-se ao bar, onde devolveu a Felix Leiter o dinheiro emprestado. Diante de uma garrafa de champanha, discutiram o jogo durante algum tempo. Leiter tirou uma bala calibre 45 do bolso e depositou-a na mesa.

“Entreguei a arma ao Mathis”, disse Ele, “que a levou. Quando você caiu da cadeira, Mathis ficou tão intrigado quanto nós. Ele estava parado atrás daquela multidão, com um de seus homens, quando você caiu da cadeira. Pode imaginar como fi caram desapontados consigo mesmos quando viram a arma. Mathis deu-me esta bala para mostrar do que você escapou.

A ponta foi cortada com uma cruz de bala dum-dum. Você fi caria num estado deplorável. Mas não se pode acusar Le Chiffre de nada. O homem entrou aqui sozinho. O formulário para obter o cartão de entrada foi preenchido por Ele mesmo. Naturalmente, tudo o que Ele escreveu deve ser mentira. Tinha permissão para entrar com a bengala no cassino, porque apre sentou um certificado de que fora ferido na guerra. Esta gente está muito bem organizada. As impressões digitais da bengala foram tiradas e enviadas para Paris. É possível que amanhã de manhã a gente já saiba alguma coisa sobre o homem.” Leiter acendeu outro cigarro. “De qualquer maneira, felizmente, tudo acabou bem. Você deu trabalho a Le Chiffre no fim, embora nós também tivéssemos passado por uns maus momentos. Aliás, você os passou também, se não me engano”.

Bond sorriu. “Aquele envelope foi uma das coisas mais lindas da minha vida. Pensei que estivesse realmente liquidado. O que era uma sensação nada agradável. Se algum dia você estiver em apuros, tentarei retribuir a atenção.”

Levantou-se. “Vou ao hotel guardar isto aqui”, disse, ba tendo de leve no bolso. “Não gosto de andar por aí com a sentença de morte de Le Chiffre no bolso. Ele pode tentar fazer alguma coisa. Depois, gostaria de comemorar. Que acham?”

Virou-se para Vésper. Ela praticamente não falara, depois do jogo.

“Vamos tomar uma taça de champanha na boate, antes de dormir? A boate chama-se Roí Galant. Parece um lugar di vertido”.

“Acho que gostaria muito”, respondeu Vésper. “Vou mo arrumar um pouco, enquanto você guarda o dinheiro. E nos en contraremos no salão de entrada”.

“E você, Leiter?” Bond esperava poder ficar sozinho com Vésper.

Leiter olhou para Ele, adivinhando-lhe os pensamentos.

“Eu gostaria descansar um pouco, antes do café da ma nhã”, respondeu. “Foi um dia cheio e acho que Paris precisará de mim amanhã cedo para tratar de alguns pequenos pormenores. Coisas com as quais você não precisa incomodar-se, mas eu sim. Vou com você até o hotel. É melhor comboiar até o porto o navio com o tesouro.”

E saíram caminhando, cortando as sombras que a lua cheia estava entre as árvores. Ambos tinham as mãos sobre as armas. Eram três horas da manhã, mas ainda havia muita gente ali e o pátio do cassino estava repleto de carros estacio nados. . .

O pequeno trajeto foi percorrido sem incidentes.

No hotel, Leiter insistiu em acompanhar Bond até o quar to Estava exatamente como Bond o deixara, seis horas antes.

“Ninguém para nos receber”, observou Leiter. “Mas não duvido que eles ainda tentem uma última jogada. Você quer que eu fique acordado e faça companhia a vocês dois?”

“Vá dormir”, respondeu Bond, “e não se preocupe conos co Eles não se interessarão por mim, se eu estiver sem o di nheiro. Muito obrigado por tudo o que você Fez. Espero que algum dia possamos trabalhar juntos de novo”.

“Eu acho ótimo”, disse Leiter, “contanto que você sem pre tire um nove na hora certa — e esteja com Vésper”, acres centou secamente. Saiu e fechou a porta.

Bond voltou-se para o quarto acolhedor.

Depois daquela arena apinhada de gente, na qual ficara praticamente três horas em constante tensão nervosa, sentia-se contente por estar a sós um pouco, observado amigavelmente pelo pijama em cima da cama e pela escova de cabelo na pen teadeira. Dirigiu-se ao banheiro, lavou o rosto com água fria e gargarejou com um líquido refrescante. Sentiu que ainda estava machucado na nuca e no ombro direito. E foi com alegria que pensou no fato de que escapara duas vezes de ser assassinado naquele dia. Será que teria de esperar sentado a noite inteira para defender-se de algum outro ataque, ou Le Chiffre já esta ria agora a caminho de Le Havre ou Bordeaux, a fim de tomar um navio para algum canto do mundo onde pudesse estar a salvo dos olhos e das armas da Smersh?

Bond encolheu os ombros. O mal que eles haviam feito aquele dia fora mais do que suficiente. Olhou-se ao espelho o imaginou qual seria o comportamento de Vésper diante do sexo. Ele desejava aquele corpo frio e arrogante. Queria ver lágrimas e desejo naqueles olhos azuis, pegar os longos cabelos negros de Vésper e dobrá-la para trás, cobrindo com o seu o corpo esguio da moça. Bond cerrou levemente os olhos diante do espelho e achou que seu rosto refletia um pouco de fome.

Dirigiu-se até a porta, tirando do bolso o cheque de 40 mi lhões de francos. Dobrou-o bem pequenino. Depois, abriu a porta e olhou para os dois lados do corredor. Deixou a porta bem aberta e, com os ouvidos atentos a qualquer som de passos ou barulho de elevador, começou a trabalhar com uma pequena chave de fenda.

Cinco minutos depois, examinou pela última vez o trabalho que fizera na fechadura, colocou alguns cigarros na cigarreira, trancou a porta, desceu as escadas depois de atravessar o corre dor, cruzou o salão de entrada e deixou o hotel em direção ao luar.


A entrada do Roi Galant era uma gigantesca moldura dourada, que talvez antigamente tivesse en feitado o retrato de algum nobre europeu. Ficava num canto discreto da “cozinha” — os salões públicos de roleta e de boule, onde muitas mesas ainda estavam funcionando. Quando tomou o braço de Vésper e se dirigiu para o degrau dourado da porta, Bond teve de lutar contra o impulso de pedir dinheiro na caixa e cobrir os máximos da mesa mais próxima. Mas sabia que, se fizesse isto, estaria obedecendo a um impulso bobo, só “pour épater Ia bourgeoisie”. Se ganhasse ou perdesse, estaria brincan do com a sorte, e ela não merecia este tipo de tratamento. Já o salvara muitas vezes num mesmo dia.

A boate era pequena e escura, iluminada somente por velas em candelabros, cujas luzes cálidas se repetiam nos espelhos dourados espalhados pelas paredes. Cetim vermelho-escuro re cobria as paredes, as cadeiras e banquetas estofadas. Num canto discreto, um trio — piano, bateria e guitarra elétrica — tocava “La vie en rose” com velada doçura. Naquele ambiente quase silencioso, palpitava uma atmosfera de sedução. Bond teve a impressão de que todos os casais se tocavam sob as mesas.

Sentaram-se em uma mesa de canto, perto da porta. Bond pediu uma garrafa de Veuve Clicquot e ovos mexidos com “bacon”.

Em silêncio, ouviram a música durante algum tempo. De pois, Bond voltou-se para Vésper: “Acho ótimo estar sentado aqui com você, sabendo que a missão está cumprida. O fim ideal para um dia como hoje — a entrega do prêmio”.

Ele esperava que a moça sorrisse. Mas, em lugar de fazê-lo, disse simplesmente: “É mesmo, não é?”, num tom de voz quase áspero. Ela parecia estar ouvindo a música com a maior atenção. Estava com um dos cotovelos sobre a mesa, segurando o queixo com a mão: mas não com a palma da mão, e sim com as costas da mão; e Bond notou que os nós dos dedos de Vésper estavam brancos, como se seu punho estivesse fortemente cer rado.

Entre o polegar e os dois primeiros dedos da mão direita” ela segurava um cigarro que Bond lhe oferecera, como um artis ta segura um crayon; e, embora fumasse com compostura, batia o cigarro ocasionalmente num cinzeiro, mesmo não havendo cinza a depositar.

Bond notou todas estas pequenas coisas porque sentia for temente a presença da moça a seu lado e queria trazê-la para o estado de espírito em que se achava: calor humano, uma suave sensualidade. Mas aceitou a reserva manifestada pela moça. Pensou que isto se devesse, quem sabe?, ao desejo de defender-se dele, ou talvez fosse uma reação à frieza que Bond manifestara no começo da noite, àquela frieza deliberada, que Ele sabia que a moça encarara como uma recusa.

Mas Bond sabia esperar. Bebeu champanha, falou um pouco sobre os acontecimentos do dia, sobre a personalidade de Leiter, de Mathis, e sobre as possíveis conseqüências que Le Chiffre teria de enfrentar. Estava sendo discreto, e só mencionou aspectos do caso sobre os quais ela já deveria ter sido informa da por Londres.

Ela respondia casualmente. Disse que, naturalmente, eles tinham reparado nos dois pistoleiros, mas que não pensaram nada de mais quando o homem da bengala se colocou atrás de Bond. Não acreditavam que eles tentassem alguma coisa dentro do cassino. Logo que Bond e Leiter deixaram o cassino, para ir ao hotel, ela ligara para Paris a fim de contar ao represen tante de M o resultado do jogo. Tivera que falar veladamente, e o agente desligara sem nenhum comentário. Explicou que re cebera ordens para dar este telefonema, fosse qual fosse o resultado do jogo. M pedira que a informação fosse transmitida para ele diretamente, a qualquer hora do dia ou da noite.

Isto foi tudo o que ela disse. De vez em quando, bebia um pouco de champanha, e raramente olhava para Bond. Não sorria. Bond sentiu-se frustrado. Bebeu muito champanha e pediu outra garrafa. Chegaram os ovos mexidos e eles comeram em silêncio.

Às quatro horas da manhã, quando Bond se preparava para pedir a nota, o maitre d’hôtel aproximou-se da mesa e per guntou por miss Lynd. E entregou a ela um bilhete, que foi lido apressadamente.

“Oh, é de Mathis”, disse ela. “Pedindo que eu vá até o salão de entrada. Tem uma mensagem para você. Talvez não es teja vestido a rigor. Não leva nem um minuto. Depois seria me lhor irmos embora”.

Vésper dirigiu um sorriso forçado em direção a Bond. “Acho que não estou sendo muito boa companheira esta noite. Foi um dia muito agitado e estou um pouco nervosa. Descul pe-me”.

Bond deu uma resposta qualquer e levantou-se, empurrando a mesa. “Enquanto você vai até lá, eu pedirei a conta”, disse Ele, e observou-a até que ela desaparecesse pela porta.

Sentou-se novamente e acendeu um cigarro. Sentia-se vazio. Descobriu subitamente que estava cansado. O abafamento do salão atingiu-o, como nas primeiras horas de cassino no dia an terior. Pediu a conta e tomou um último gole de champanha. E esta última taça lhe pareceu amarga, como sempre parece amarga aquela taça que se toma a mais. Gostaria de ver a cara alegre de Mathis, ouvir as novidades, talvez até uma palavra de elogio.

Então aquele bilhete para Vésper pareceu-lhe estranho. Mathis não costumava agir desta maneira. Normalmente pediria aos dois que o encontrassem no bar do cassino, ou teria entrado na boate, estivesse ou não em traje a rigor. Ririam muito e Mathis estaria bastante animado. Teria muito mais coisas para contar a Bond do que Bond a Ele: a prisão do búlgaro, que pro vavelmente já teria dito mais alguma coisa; a perseguição do homem com a bengala; o que Le Chiffre fizera, depois de deixar o cassino.

Rapidamente, Bond pagou a conta sem esperar pelo troco, empurrou a cadeira para trás e correu para a porta, sem res ponder aos agradecimentos do maítre e do porteiro.

Atravessou correndo o salão de jogo e olhou para todos os lados no salão de entrada. Disse um palavrão e apressou o passo. No vestiário, um ou dois oficiais, e uns dois ou três ho mens e mulheres em trajes de noite retiravam suas coisas.

Nada de Vésper. Nem de Mathis.

Continuava correndo. Chegou à entrada e olhou com cuidado a escadaria e os poucos carros que estavam estacionados em frente.

O porteiro chegou perto de Bond. “Um táxi, Monsieur?”

Bond recusou com um aceno de mão e desceu os degraus da escadaria, enquanto seus olhos perscrutavam as sombras e sentia o ar frio da noite em suas têmporas suadas.

Estava no meio da escada quando ouviu um grito fraco, depois a batida de uma porta de carro, longe, à sua direita. Com o escapamento roncando, um Citroen irrompeu das som bras para a luz da lua, parecendo um besousro gigante, derrapando a roda da frente no pedregulho solto que cobria o pátio. A traseira do carro balançava nas molas macias, como se um esforço violento estivesse acontecendo no banco de trás.

Sempre roncando, o carro correu em direção ao largo por tão de entrada, provocando uma chuva de areia. Um pequeno objeto preto foi atirado pela janela de trás, caindo num canteiro de flores. Ouviu-se um grito de borracha torturada quando os pneus entraram na avenida, numa violenta curva para a esquer da, o ronco ensurdecedor do escapamento do Citroen com a marcha engatada em segunda, depois o barulho de outra mudan ça de marcha, e o ruído que diminuía rapidamente à medida que o carro*passava entre as lojas da cidade em direção à estrada costeira.

Bond tinha certeza de que encontraria a bolsa de Vésper entre as flores.

Apanhou-a e correu de volta pelo caminho de pedregulhos até as escadas bem iluminadas, remexendo nas coisas que es tavam dentro da bolsinha, enquanto o porteiro se aproximava correndo.

Entre as muitas coisas que uma mulher carrega normal mente numa bolsinha, estava lá o bilhete amassado:

“Você pode vir ao salão de entrada por um momento? Te nho novidades para o seu companheiro.

René Mathis”.


A letra de Mathis estava muito mal falsificada.

Bond pulou para o Bentley, abençoando o impulso que o fizera vir de carro depois do jantar. Com o afogador todo puxado, o motor respondeu imediatamente à partida e o ronco da máquina abafou as palavras entrecortadas do porteiro, que pulou para o lado quando as rodas de trás do carro jogaram areia em suas calças apertadas.

Quando o carro tombou um pouco para o lado esquerdo ao atravessar o portão, Bond desejou com uma certa inveja ter nas mãos a direção e a carroçaria baixa do Citroen. Depois, mu dou rapidamente de marcha e concentrou-se na perseguição, saboreando rapidamente o eco que o escapamento provocava ao longo da rua principal da pequena cidade.

Logo deixou a cidade e entrou na estrada costeira, uma estrada bastante larga, que corria entre as dunas e que ele co nhecera naquela mesma manhã. Tratava-se de uma estrada muito bem conservada, com uma ótima sinalização nas curvas. Bond apertava cada vez mais o acelerador, correndo a 80 mi lhas por hora, depois a 90, os enormes faróis iluminando o nevoeiro branco da noite, que formava uma parede de quase meio quilômetro à sua frente.

Bond tinha certeza de que o Citroen viera por ali. Ouvira o escapamento atravessar a cidade, e um pouco de poeira ainda pairava nas curvas. Esperava em breve ver o clarão distante do carro que estava perseguindo. Era uma noite clara e calma. Mas o leve nevoeiro de verão deveria também cobrir o mar, porque em intervalos regulares Bond ouvia as sirenas mugindo como gado, lá embaixo na costa.

Enquanto guiava, aumentando mais e mais a velocidade do carro pela noite a dentro, Bond destacou uma parte de sua mente para xingar Vésper, e M também, já que fora o respon sável pela vinda da moça.

O que estava acontecendo era exatamente o que Ele temia. Esse tipo muito animado de mulher que pensa poder fazer o trabalho de um homem. Por que diabo não podiam elas ficar em casa cuidando das panelas, contentando-se em falar de rou pas e em fazer mexericos, deixando o trabalho dos homens para ser feito pelos próprios homens? E acontecer uma coisa dessas logo agora, quando o trabalho terminara tão bem: Vésper tinha de cair num truque tão velho assim, deixar-se raptar e prova velmente ser mantida como refém, como qualquer infeliz he roína de estória em quadrinhos? A imbecil!

Bond fervia de ódio ao pensar nas complicações que o aguardavam.

Lógico. A idéia era fazer uma troca direta. A moça pelo cheque de quarenta milhões. Bem, nesta jogada Ele não en traria: nem sequer pensaria em entrar. Ela estava em serviço e sabia o que a esperava. Nem mesmo consultaria M. Este tra balho era muito mais importante do que ela. Uma pena. Era uma moça ótima, mas Ele não cairia nesse truque infantil. Nada disso. Tentaria alcançar o Citroen e atirar neles; se a moça fossa atingida, pior para ela. Ele teria cumprido a missão — tentar salvá-la, antes que a levassem para algum esconderijo — mas, se não os alcançasse, voltaria para o hotel, iria direto para a cama, sem dizer mais uma palavra sobre o assunto. No dia se guinte perguntaria a Mathis o que acontecera à moça e mostra ria o bilhete. Se Le Chiffre entrasse em contato com Ele, para pedir o dinheiro em troca da moça. Bond nada faria, nada diria a ninguém. Ela teria de agüentar as conseqüências. Se o porteiro resolvesse contar o que presenciara, Bond o enganaria, dizendo que tivera uma briga com a moça.

Enquanto essa discussão furiosa acontecia na cabeça de Bond, o grande automóvel engolia a estrada, fazendo as cur vas automaticamente e desviando dos ciclistas e das carroças que chegavam a Royale. Nas retas, o carburador Amherts Villiers esporeava os vinte e cinco cavalos, e o motor soltava um alto grito de dor dentro da noite. Então o velocímetro acusava 110 milhas por hora, até 120.

Bond sabia que se aproximava rapidamente. Carregado como estava, o Citroen não poderia passar de 80, nem mesmo nesta estrada. Num impulso, Bond diminuiu a velocidade para 70, acendeu os faróis de neblina e abaixou os Marshall gêmeos. Realmente, sem a cortina cegante dos faróis de seu próprio carro, podia ver o clarão de outro carro a uns dois quilômetros pela costa.

Procurou o coldre embaixo do painel e dele tirou uma pis tola 45 de cano longo, Colt, fabricada especialmente para o Exército, e colocou-a ao lado, no assento. Se a estrada permi tisse, talvez conseguisse acertar num dos pneus ou no tanque de gasolina a uma distância de cem jardas.

Acendeu novamente os faróis altos e continuou a perse guição com os pneus guinchando. Sentia-se calmo, à vontade. A vida de Vésper já não era um problema. Na luz azul do pai nel, o rosto de Bond mostrava uma expressão fechada, mas serena.

Adiante, no Citroen, havia três homens e a moça.

Le Chiffre estava guiando, seu corpo grande e flácido in clinado para a frente, suas mãos leves e delicadas na direção. A seu lado, estava aquele homem atarracado que entrara no cas sino com a bengala. Na mão esquerda, segurava uma alavan ca grossa, que aparecia a seu lado quase encostada no chão. Poderia ser uma alavanca para ajustar o assento do motorista.

No banco de trás, estava o pistoleiro alto e magro. Apa rentemente desinteressado pela alta velocidade do carro, olhava o teto, descansado, com a cabeça encostada no assento. Com a mão direita acariciava a coxa nua de Vésper, que estava es tendida a seu lado.

Se não fossem suas pernas, que estavam nuas até os quadris Vésper pareceria um embrulho. Sua longa saia de veludo preto tinha sido levantada sobre seus braços e amarrada em cima de sua cabeça com uma corda. Na altura do rosto, um pequeno buraco tinha sido rasgado no veludo, para que ela pudesse respirar. Mas não estava amarrada em nenhum outro lugar e decidira ficar quieta, deixando que o balanço do carro mexesse desajeitadamente seu corpo sobre o assento.

A atenção de Le Chiffre estava dividida entre a estrada e o clarão dos faróis de Bond que se aproximavam cada vez mais pelo espelho retrovisor. Quando a distância entre os dois automóveis diminuiu para uma milha, Le Chiffre não pareceu preocupado. Ao contrário, diminuiu a velocidade de 80 milhas por hora para 60. Ao fazer uma curva, diminuiu ainda mais. Alguns metros adiante, apareceu um anúncio Michelin mos trando o cruzamento de uma pequena estrada com a via prin cipal.

“Attention”, disse de repente ao homem que estava a seu lado.

A mão do homem apertou a alavanca.

A uns cem metros do cruzamento, Ele diminuiu a veloci dade para 30. Pelo espelhinho, viu que as luzes do carro de Bond iluminavam a curva.

Le Chiffre pareceu tomar uma decisão.

“Allez”.

A seu lado, o homem puxou a alavanca com força para cima. A tampa do porta-mala, na traseira do carro, escancarou-se como a boca de uma baleia. Ouviu-se um ruído metálico na estrada e um tilintar ritmado, como se o carro estivesse arras tando milhares de correntes atrás dele.

“Coupez”.

O homem abaixou a alavanca com força e o tilintar cessou com um barulho final.

Le Chiffre olhou pelo espelho. O carro de Bond estava vi rando a curva. Mudando a marcha rapidamente, Le Chiffre ati rou o Citroen para a esquerda, entrando na estradinha estreita com as luzes baixas.

Parou o carro de chofre, e os três homens desceram rapi damente, escondendo-se atrás de uma sebe baixa que acompa nhava a estrada, agora inteiramente iluminada pelos faróis do Bentley. Os três estavam armados.

O Bentley voava em direção a eles, como um trem expresso.


Enquanto Bond fazia a curva velozmente, acariciando o grande carro com um balanço fácil do corpo e das mãos, imaginava o que faria quando a distância entre os dois carros diminuísse ainda mais. Pensou que o ini migo tentaria entrar por uma estrada transversal, se tivesse oportunidade. Assim, quando acabou de fazer a curva e não viu luzes pela frente, teve o reflexo normal de diminuir a ve locidade e, quando viu o anuncio da Michelin, preparou-se para frear.

O carro corria a 60 quando se aproximou do que parecia uma mancha preta no lado direito da estrada, que Bond pensou tratar-se da sombra de uma árvore. Mesmo assim, não teve tem po de salvar-se. Subitamente, encontrou um pequeno tapete de pregos de metal brilhante. Em menos de um segundo, estava em cima deles.

Automaticamente, Bond pisou no freio até o fim e con centrou todas as suas forças na direção, a fim de corrigir a ine vitável e violenta torção para a esquerda, mas só conseguiu manter o controle durante um segundo. Quando os pregos cor taram a borracha dos pneus c os aros rasgaram a lona, o pesado automóvel rodopiou, cruzando a estrada numa terrível derrapada em seco, batendo no barranco da esquerda com uma vio lência que atirou Bond do banco para o chão; depois, de costas para a estrada, virou para cima, sua rodas da frente girando e seus enormes faróis vasculhando o céu. Durante uma fração de segundo, equilibrou-se no tanque de gasolina, parecendo orar para o céu, como um gigantesco louva-deus. Depois, capotou vagarosamente para trás, caindo com um barulho de vidros que brados e de carroçaria amassada.

No silêncio ensurdecedor, a roda esquerda da frente ainda sussurrou um pouco e em seguida, gemendo, parou de rodar. Le Chiffre e seus dois pistoleiros saíram da emboscada e tiveram de andar somente alguns metros para chegar ao local em que estava Bond.

“Guardem essas armas e tirem-no para fora”, ordenou brus camente. “Eu protejo vocês, Cuidado com Ele! Não quero um cadáver. E depressa, que está clareando o dia”.

Os dois homens ajoelharam-se no chão. Um deles pegou uma faca de lâmina longa e cortou um pedaço de lona na parte lateral do conversível. Pelo buraco, conseguiu agarrar Bond pelos ombros. Estava inconsciente e imóvel. O outro enfiou-se entre o carro capotado e o barranco, forçando caminho através da moldura amassada da janela. Libertou as pernas de Bond, presas entre a direção e o teto de lona do carro. Então, tiraram Bond para fora, através de um buraco feito no teto.

Estavam suando e sujos de poeira e de óleo quando con seguiram deitá-lo na estrada.

O homem magro auscultou o coração de Bond e lhe deu uns tapas fortemente. Bond gemeu e moveu uma mão. O homem magro esbofeteou-o novamente.

“Chega”, disse Le Chiffre. “Amarre os braços dele e colo que-o no carro. Tome”. Atirou um rolo de corda para o homem “Esvazie os bolsos dele primeiro e dê-me sua arma. Talvez Ele tenha outra escondida, mas nós procuraremos mais tarde”. Pegou os objetos que o homem magro lhe entregara e guardou-os junto com a Beretta de Bond dentro dos bolsos largos sem examiná-los. Voltou então para o carro. Seu rosto não demonstrava prazer nem excitação.

Foi a dor aguda do arame flexível amarrando seus pulsos que Fez com que Bond voltasse a si. Estava todo dolorido, como se tivesse levado pauladas no corpo inteiro. Mas, quando o colocaram de pé e o empurraram na direção da estreita estrada, onde o motor do Citroen já funcionava mansamente, descobriu que não quebrara nenhum osso. Não estava com vontade de fazer gestos desesperados: deixou que o arrastassem para o banco de trás do carro sem resistir.

Estava deprimido. Sentia uma grande fraqueza, tanto física quanto espiritual. Agüentara muita coisa nas últimas 24 horas e este último golpe do inimigo parecia ser quase o fim de tudo. Desta vez não aconteceria um milagre. Ninguém sabia onde ele estava e ninguém sentiria sua falta até que fosse muito tarde, na manhã seguinte. Os destroços do carro seriam descobertos, mas muitas horas se passariam até que descobrissem que o dono era Ele.

E Vésper? Olhou para a direita, sobre o homem magro, que estava recostado no assento do carro com os olhos fechados. Sua primeira reação foi de desprezo. Que menina idiota, enrolada como uma galinha, a saia amarrada em cima da cabeça, como se tudo não passasse de uma “curra” de brincadeira. Mas logo em seguida sentiu pena dela. Aquelas pernas nuas pareciam tão infantis e indefesas!

“Vésper”, chamou baixinho.

Não veio resposta do embrulho encostado a um canto do carro e Bond sentiu repentinamente um calafrio; mas então ela se mexeu levemente.

No mesmo instante, o homem magro acertou uma pancada com as costas da mão sobre o coração de Bond.

“Cala a boca”.

Bond curvou-se com a dor e para proteger-se de outro golpe, mas recebeu um soco na nuca que o Fez arquear-se novamente para trás, enquanto o ar que escapava entre seus dentes asso biava baixinho.

O homem magro atingira Bond com um golpe bastante profissional, dado fortemente com a quina da mão. Havia algo de sinistro na eficiência e no pequeno esforço que fizera para bater em Bond. Depois de fazê-lo, recostou-se novamente no banco, com os olhos fechados. Era um tipo capaz de meter medo, um homem mau. Bond desejou ter uma oportunidade de matá-lo.

A tampa do porta-mala abriu-se e ouviu-se um ruído metálico. Bond imaginou que o terceiro homem deveria estar recolhendo o tapete de correntes com os pregos. Imaginou também que deveria ser uma adaptação daquelas invenções todas cheias de pregos que a Resistência francesa usava contra os transportes alemães.

Mais uma vez voltou a pensar sobre a eficiência dessa gente e sobre a engenhosidade do equipamento que usavam. Será que M subestimara os recursos do inimigo? Teve vontade de pôr a culpa em Londres. Mas sabia que deveria ter tomado mais cuidado depois de todas as experiências por que passara, e ter tomado um número infinitamente maior de precauções. Torceu-se de raiva ao pensar que, enquanto se banhava em champanha no Roi Galant, o inimigo preparava o contra-golpe. Amaldiçoou a pretensão que o fizera tão certo de que a batalha estava ganha e o inimigo em retirada.

Durante todo este tempo, Le Chiffre ficou em silêncio. Assim que o porta-mala foi fechado, o terceiro homem, que Bond reconheceu imediatamente, subiu no carro e Le Chiffre entrou novamente pela estrada principal, a toda velocidade. Depois de mudar violentamente a marcha, estabilizou a velo cidade do carro em 70 pela estrada afora.

Amanhecia — deveriam ser umas cinco horas, pensou Bond — e imaginou que ainda faltavam umas duas milhas até a entrada para a vila de Le Chiffre. Antes, não imaginara que eles levariam Vésper para lá. Mas agora chegara à conclusão de que ela havia sido a isca para pegar o peixe grande e tudo ficou mais claro.

O quadro era extremamente desagradável. Pela primeira vez, desde que fora apanhado, o medo tomou conta de Bond, subindo por sua espinha.

Dez minutos depois, o Citroen virou para a esquerda, subindo por uma estradinha transversal parcialmente coberta de mato, até atravessar dois pilares de alvenaria dilapidados e chegar a um pátio mal cuidado, cercado de muros altos. Parou diante de uma porta branca descascada. Sobre a campainha enferrujada na soleira da porta, pequenas letras de zinco pre gadas na madeira diziam “Les Noctambules”. E, mais abaixo, “Sonnez S.V.P.”

Pelo que Bond conseguia ver da fachada, tratava-se de uma vila construída no estilo típico do litoral da França. Era fácil imaginar as garrafas vazias de vinho atiradas apressadamente pela janela no começo da estação de verão, e os quartos abafados ligeiramente arejados pela empregada do agente da administradora de Royale. De cinco em cinco anos, uma camada de cal a1egrava os quartos e o madeiramento externo, e durante algumas semanas a vila mostraria sua face sorridente para o mundo exterior. Depois, as chuvas de inverno fariam seu trabalho, tanto com as moscas que ficassem presas dentro da vila, e ela rapidamente retomaria seu ar de abandono.

Mas, pensou Bond, serviria admiràvelmente bem para os propósitos que Le chiffre, caso acertasse quais seriam eles. Não haviam passado por nenhuma casa desde o local da captura e, pelo reconhecimento que fizera no dia anterior, sabia que só havia uma fazenda a muitas milhas ao sul.

Enquanto o homem magro o punha para fora do carro com um golpe seco de cotovelo nas costelas, chegou à conclusão de que Le Chiffre teria Ele e a moça à sua inteira disposição durante muitas horas, sem ser perturbado. Sentiu um novo calafrio.

Le Chiffre abriu a porta e desapareceu no interior da casa. Vésper, que parecia incrivelmente indecente às primeiras horas do dia, foi empurrada atrás dele com uma torrente de palavras francesas de baixo calão, proferidas pelo homem a quem Bond chamava para si mesmo de “o Corso”. Bond continuou a andar, sem dar ao homem magro a oportunidade de empurrá-lo.

A chave da porta da frente virou na fechadura.

Le Chiffre estava na soleira da porta de um quarto, no lado direito. Chamou Bond com um dedo, numa ordem silen ciosa como a de uma aranha.

Vésper estava sendo levada por uma passagem que dava para os fundos da casa. Repentinamente, Bond tomou uma decisão.

Com um violento pontapé para trás, que acertou a canela do homem magro, dele tirando um grito de dor, atirou-se pela passagem atrás da moça. Tendo só os pés como armas, seu único plano era causar o maior dano possível aos dois pistoleiros, a fim de trocar rapidamente algumas palavras com a moça. Nenhum outro plano era possível. Só queria dizer a ela para não fraquejar.

Quando o Corso se virou para trás com o barulho, Bond atirou-se contra Ele, tentando acertá-lo na virilha com o sapato direito.

Como um relâmpago o Corso jogou-se contra a parede e, quando o pé de Bond passou de raspão por seu quadril, com um gesto rápido, mas. ao mesmo tempo quase delicado, avançou a mão esquerda, pegou o pé de Bond pelo arco e torceu-o vio lentamente .

Completamente sem equilíbrio, o outro pé de Bond saiu do chão. Seu corpo inteiro girou no ar e, com o impulso desse movimento, bateu de encontro à parede, caindo depois no chão.

Sem fôlego, Bond ficou um instante caído. Depois o homem magro levantou-o pelo colarinho, encostando-o na parede. Tinha uma arma na mão. Olhou Bond fixamente nos olhos. Depois, sem pressa, abaixou-se e bateu com o cano da arma nas canelas de Bond, que gemeu e caiu de joelhos.

“Se isto se repetir, será nos dentes”, disse o homem magro, em mau francês.

Ouviu-se uma porta bater. Vésper e o Corso tinham desa parecido. Bond virou a cabeça para a direita. Le Chiffre avançara um pouco em direção a Bond. Chamou-o novamente com o dedo. E falou, pela primeira vez.

“Venha, meu caro amigo. Estamos perdendo tempo”.

Falava inglês sem o menor sotaque, num tom de voz baixo, suave, sem pressa. Não demonstrava nenhuma emoção. Parecia um médico chamando um paciente numa sala de espera, um paciente histérico que discutira durante longo tempo com a enfermeira, inutilmente.

Bond sentiu-se fraco e impotente de novo. Só um pro fissional de jiu-jitsu poderia ter dado conta dele com a calma e o silêncio demonstrados pelo Corso. A precisão fria com que o homem magro pagara a agressão de Bond com a mesma moeda fora igualmente calma, até um tanto artística.

Quase documente, Bond voltou pela passagem. Não po deria mostrar mais nada a esta gente, além de algumas novas machucaduras provocadas por seu gesto desajeitado.

Enquanto seguia o homem magro, atravessando a soleira da porta, sabia que estava completamente em poder deles todos.

 

Era uma sala grande e quase vazia, com alguns móveis em estilo art nouveau, mas do mais barato possível. Era difícil dizer se a intenção fora fazer uma sala de jantar ou uma sala de estar, pois um console de aspecto precário, com um espelho, uma fruteira de louça cor de laranja e dois castiçais de madeira pintada em cima, tomavam quase toda a parede oposta à porta, em contradição com o sofá rosa desbo tado que estava encostado do outro lado da sala.

Não havia mesa alguma no centro, sob o lustre de alabastro; mas havia um tapete quadrado, todo manchado, com dese nhos futuristas em dois tons de marrom. Perto da janela, uma cadeira incrível, com um ar de trono de carvalho todo esculpido, um assento de veludo vermelho, uma mesa baixa com uma garra fa vazia de água e dois copos, e uma cadeira leve, de braços, com um assento redondo de junco, sem almofada. As venezia nas meio fechadas não mostravam a vista que se tinha da ja nela, mas em compensação atiravam faixas do sol da manhã sobre as poucas peças do mobiliário e sobre uma parte do papel de parede, de cor bem viva, e do assoalho manchado.

‘ Le Chiffre apontou para a cadeira de junco.

“Esta servirá bem”, disse Ele ao homem magro. “Prepa re-o rapidamente. Se Ele resistir, machuque-o um pouquinho só″. Voltou-se para Bond. Seu rosto largo não demonstrava ne nhuma emoção, seus olhos redondos demonstravam desinteresse. “Tire a roupa. A cada esforço que você fizer para resistir, Basil quebrará um de seus dedos. Somos gente séria, e sua saúde não nos interessa. Se você vai morrer, ou continuar vivo, tudo de pende da conversa que teremos daqui a pouco”.

Fez um gesto para o homem magro e deixou a sala. O primeiro gesto do homem magro foi muito curioso. Tirou do bolso a faca que usara na capota do carro de Bond, abriu-a, pegou a cadeirinha de braços e, agindo rapidamente, cortou fora o assento de junco.

Em seguida, voltou até onde estava Bond, enfiando a faca ainda aberta no bolso de cima do palito, como uma caneta num tinteiro. Virou Bond para a luz e desamarrou o arame de seus pulsos. Pulou depressa para o lado de Bond, já com a faca de novo na mão direita. “Depressa”.

Bond levantou-se massageando os pulsos inchados e per guntando a si mesmo se pouparia muito tempo, caso resistisse. Não teve mais que um minuto para pensar. Com um passo rá pido e um gesto igualmente veloz de sua mão direita, o homem magro segurou a gola do “dinner-jacket” de Bond, puxando-o para baixo e prendendo os braços de Bond. Este tentou aplicar o contra-golpe tradicional para este velho golpe de polícia, caindo sobre um joelho. Mas quando caiu o homem magro caiu junto, com a faca na mão. Ouviu-se o som de faca afiada cortando te cido e os braços de Bond ficaram subitamente livres, quando as duas metades de seu paletó caíram para a frente.

Bond praguejou e levantou-se. O homem magro voltara à posição anterior, a faca novamente pronta para qualquer coisa em suas mãos tranqüilas. Bond jogou no chão as duas metades de seu palito.

“Allez”, disse o homem magro, com um ligeiro sinal de impaciência.

Bond olhou-o nos olhos e bem devagar começou a tirar a camisa.

Le Chiffre voltou silenciosamente para a sala. Trazia um bule cheirando a café. Colocou-o na mesinha perto da janela. Na mesma mesinha, colocou também dois outros objetos: um batedor de tapete, feito de junco torcido, com menos de um metro de comprimento, e uma faca de entalhar.

Ajeitou-se confortàvelmente na cadeira em forma de trono e despejou um pouco de café num dos copos. Com um pé puxou para a frente a cadeirinha de braços, cujo assento era agora uma moldura vazia de madeira, até que ela ficasse exatamente na frente dele.

Bond estava de pé no meio da sala, completamente nu, mostrando as marcas arroxeadas dos ferimentos em seu corpo branco, o rosto coberto por uma máscara cinzenta de exaustão, sabendo perfeitamente o que o esperava.

“Sente-se aí”. Le Chiffre apontou a cadeira à sua frente.

Bond deu alguns passos e sentou-se.

O homem magro trouxe arame flexível. Amarrou os pulsos de Bond nos braços da cadeira, e os tornozelos nas pernas da frente. Passou um fio duplo pelo peito de Bond, sob as axilas, amarrando-o nas costas da cadeira. Ao fazer os nós, não come teu o menor engano nem deixou a menor folga. Todos os nós enterravam-se fundo na carne de Bond. As pernas da cadeira ficavam bem distantes uma da outra, de modo que Bond não po deria tentar balançá-la.

Estava completamente aprisionado, nu e indefeso.

Suas nádegas e outras partes debaixo de seu corpo saíam pelo assento da cadeira.

Le Chiffre Fez um sinal ao homem magro, que silenciosa mente deixou a sala, fechando a porta atrás de si.

Sobre a mesa havia também um maço de cigarros Gauloises e um isqueiro. Le Chiffre acendeu um cigarro e tomou um grande gole de café. Em seguida, apanhou o batedor de tapete e, repousando confortàvelmente o cabo em seu joelho, Fez com que a base larga descansasse no chão, bem debaixo da cadeira de Bond.

Olhou atentamente para Bond, quase como se o acariciasse com os olhos. Então, num gesto repentino, seu pulso movimen tou-se como uma mola, para cima do joelho.

O resultado foi assustador.

O corpo inteiro de Bond arqueou-se num espasmo invo luntário de dor. Seu rosto contraiu-se num grito mudo, e seus lábios afastaram-se dos dentes. Ao mesmo tempo, sua cabeça voou para trás com um tranco, mostrando os tendões repuxados do pescoço. Em todo o corpo de Bond, nós apareceram ao longo dos músculos, e seus dedos dos pés e das mãos con traíram-se até ficar brancos. Depois, seu corpo pendeu para a frente, e suor começou a brotar em todas as partes de seu corpo. Bond soltou um gemido profundo.

Le Chiffre esperou que seus olhos se abrissem. “Viu, meu caro rapaz?” Mostrava um sorriso macio e gordo. “Sua situação está bem clara agora?”

Uma gota de suor caiu do queixo de Bond em seu peito nu. “Agora vamos ao que interessa e vejamos em quanto tempo poderemos acabar com esta complicação em que você se meteu”. Alegremente deu uma tragada no cigarro e uma batidinha de advertência no chão, debaixo da cadeira de Bond, com aquele estranho e horrível instrumento.

“Meu caro rapaz” — Le Chiffre falava como um pai — “o brinquedo de mocinho e bandido terminou. Por engano, você entrou num brinquedo de gente grande e já descobriu que se trata de uma experiência muito dolorosa. Você não tem equi pamento, meu caro rapaz, para brincar com gente grande, e foi um grave erro de sua babá de Londres mandá-lo para cá com sua pazinha e com seu baldinho. Realmente uma bobagem, e muito triste para você”.

“Mas vamos acabar com esta brincadeira, meu querido ami go, embora eu esteja certo de que você gostaria muito de acom panhar esta minha pequena, mas divertida narrativa”.

Seu tom de voz agradável mudou de repente. Le Chiffre encarou Bond com raiva. “Onde está o dinheiro?”

Os olhos injetados de sangue de Bond encararam-no sem a menor expressão.

Novamente o mesmo movimento para cima com o pulso e novamente todo o corpo de Bond tremeu e contorceu-se.

Le Chiffre esperou até que aquele coração torturado vol tasse ao ritmo normal e até que os olhos sem brilho se abrissem de novo.

“Talvez eu não tenha explicado as coisas direitinho”, disse Le Chiffre. “Eu pretendo continuar batendo nas partes mais sensíveis de seu corpo até que você responda minha pergunta. Não tenho a menor piedade e não amolecerei de maneira alguma. Não há ninguém para encenar um salvamento de última hora, e você não tem a menor chance de fugir. Não pense que isto uma aventura romântica, na qual o vilão é finalmente derrotado e o herói ganha uma medalha e casa com a moça. Infelizmente estas coisas não acontecem na vida real. Se você continuar ser obstinado, será torturado até a beira da loucura, e daí a moca será trazida para cá e daremos um jeito nela na sua frente. Se isto não bastar, vocês dois terão uma morte dolorosa e eu, relutantemente, deixarei seus cadáveres e partirei para fora do país com destino a uma casa confortável que está esperando por mim. Lá, seguirei uma carreira útil e proveitosa, e viverei até uma velhice realizada e pacífica no seio de uma família que sem dúvida criarei. Como você vê, meu caro rapaz, nada tenho a perder. Se você entregar o dinheiro, ótimo. Senão, encolherei os ombros e irei embora.”

Fez uma pausa e seu pulso Fez um leve movimento. Todo o corpo de Bond retesou-se, embora o junco só tivesse tocado seu corpo de leve.

“Mas você, meu caro amigo, a única coisa em que você pode ter esperança é que eu o poupe de uma dor ainda maior, que eu poupe sua vida. Não há outra esperança para você. Absolutamente nenhuma”.

“Então?”

Bond fechou os olhos e esperou a dor. Ele sabia que a pior parte da tortura é o começo. Há uma parábola para a agonia. Um crescendo que leva até um máximo, até que os nervos fiquem embotados e reajam cada vez menos; até a inconsciência e a morte. A única coisa que poderia fazer era rezar para que seu espírito se agüentasse durante todo esse tempo, e depois aceitasse a descida em ponto-morto em direção à escuridão final.

Colegas de Bond que tinham sobrevivido a torturas alemãs e japonesas haviam-lhe contado que, perto do fim, acontecia um período maravilhoso de calor e langor, que culminava numa espécie de crepúsculo sexual, em que a dor se transformava em prazer e onde o ódio e o medo aos torturadores se transformavam num entusiasmo masoquista. Bond aprendera que este era o supremo teste de força de vontade: evitar manifestar esta forma de semi-inconsciência. No momento em que percebessem esta situação, os torturadores tinham dois caminhos a escolher: ou matar a vítima imediatamente para poupar um esforço inútil, ou deixá-la recobrar-se o suficiente para que os nervos voltassem ao outro extremo da parábola. Então começariam tudo de novo.

Bond abriu um pouco os olhos.

Le Chiffre estava esperando por isso e, como uma cascavel, o instrumento de junco pulou do chão. Bateu de novo e outra vez, até que Bond gritou e seu corpo dançou na cadeira como uma marionete.

Le Chiffre só desistiu quando os espasmos torturados de Bond mostraram sinal de moleza total. Então tomou uns goles de café, franzindo a testa levemente, como um cirurgião que observa uma cardiografia durante uma operação delicada.

Quando os olhos de Bond se abriram outra vez, Le Chiffre voltou a falar, mas desta vez com um sinal de impaciência na voz.

“Nós sabemos que o dinheiro está em algum lugar do seu quarto no hotel”, disse Ele. “Você Fez um cheque de 40 milhões de francos e eu sei que voltou ao hotel para escondê-lo”.

Bond imaginava como Ele poderia ter tanta certeza.

“Logo depois que você foi para a boate”, continuou Le Chiffre, “quatro dos meus homens revistaram seu quarto”.

Os Muntzes devem ter ajudado bastante, pensou Bond.

“Achamos muita coisa em esconderijos quase infantis. A bóia do banheiro escondia um livro de códigos bastante interessante, e achamos outros papéis igualmente interessantes gru dados no fundo de uma gaveta. Toda a mobília foi reduzida a pedaços; cortamos toda a sua roupa, a roupa de cama e as cor tinas. Revistamos cada pedacinho de seu quarto; removemos todos os encaixes. Infelizmente para você, não encontramos o cheque. Se isto acontecesse, você estaria agora confortàvelmente deitado em sua cama, talvez com miss Lynd, e não aqui”. O batedor chicoteou mais uma vez o corpo de Bond.

Através da nuvem vermelha da dor, Bond pensou em Vésper. Podia imaginar como ela estaria sendo agora utilizada pelos dois pistoleiros. Estariam se aproveitando dela ao máximo, antes de mandá-la para Le Chiffre. Pensou nos lábios grossos c molhados do Corso e na lenta crueldade do homem magro. Coitadinha, ter sido arrastada para uma situação destas! Pobre menininha!

Le Chiffre recomeçara a falar.

“A tortura é uma coisa terrível”, dizia Ele, enquanto acendia outro cigarro. “Mas é uma tarefa muito mais fácil para o torturador quando o paciente” — sorriu ao dizer esta palavra — “é um homem. Saiba, meu caro Bond, que com um homem não há a menor necessidade de refinamentos. Com este instrumento simples, ou com quase qualquer outro objeto, pode-se causar a um homem tanta dor quanto for possível ou necessário. Não acredite no que já leu em livros de guerra. Não há nada pior. Não é tanto pela agonia imediata, mas também pelo fato de saber que sua masculinidade está sendo destruída aos poucos e que, no fim, se você não cooperar, não será mais homem”.

“Que coisa mais triste e mais horrível, meu caro Bond — uma longa corrente de agonia para o corpo e para a mente, e depois o momento final, em que você implorará aos gritos para que eu o mate. Tudo isto será inevitável, se você não me contar onde escondeu o dinheiro”.

Pôs mais um pouco de café no copo e o bebeu, deixando marcas marrons nos cantos dos lábios.

Os lábios de Bond mexeram-se, tentando dizer alguma coisa. Afinal, conseguiu soltar a palavra: “Sede”, disse Ele, passando a língua pelos lábios secos.

“Mas claro, meu caro rapaz, que indelicadeza de minha parte!” Le Chiffre pôs um pouco de café no outro copo. No chão, em volta da cadeira de Bond, havia um círculo desenhado pelas gotas de suor que caíam de seu corpo.

“É preciso manter sua língua muito bem lubrificada”.

Colocou o batedor no chão e levantou-se. Andou até a parte de trás da cadeira de Bond e puxou com brutalidade sua cabeça para trás pelos cabelos empapados de suor. Derramou o café na garganta de Bond em pequenos goles, para que Ele não engasgasse. Então soltou novamente a cabeça, que caiu para a frente de encontro ao peito. Le Chiffre voltou para a sua cadeira e apanhou o batedor de tapete.

Bond ergueu a cabeça e falou num sussurro.

“Não adianta o dinheiro para você”. Falava com dificul dade. “A Polícia o descobrirá”.

Exausto com o esforço que fizera para falar, sua cabeça pendeu novamente para a frente. Bond estava exagerando um pouco, apenas um pouco, a gravidade do seu colapso físico.

Qualquer coisa servia para ganhar tempo, qualquer coisa servia para adiar a próxima dor cortante.

“Ah, meu querido amigo, esqueci de contar-lhe”. Le Chiffre sorriu animalescamente. “Nós nos encontramos depois daquele nosso joguinho no cassino, e você foi tão camarada que con cordou em jogar uma partida a sós comigo, só nós dois. Foi um gesto galante, simpático, típico de um cavalheiro inglês, de um gentleman”.

“Infelizmente você perdeu e isso o perturbou tanto que você decidiu deixar Royale imediatamente com destino ignorado. Como um verdadeiro gentleman, deixou-me um bilhete atencioso explicando as circunstâncias para que eu pudesse sem dificuldade alguma sacar seu cheque. Está vendo, meu caro rapaz, como tudo foi resolvido de antemão? Você não precisa preocupar-se comigo”. Le Chiffre deu uma risadinha sarcástica.

“E agora, podemos continuar? Estou à sua disposição para o tempo que você quiser e, aqui entre nós, estou bastante inte ressado em saber quanto tempo um homem consegue suportar esta forma especial de — bem, digamos assim — de encoraja mento”. Bateu com o junco no chão.

Então era isso, pensou Bond, com um desânimo final no coração. O “destino ignorado” seria debaixo da terra ou no mar, ou ainda, mais simplesmente, sob os destroços do Bentley. Bem, se tinha de morrer mesmo, poderia então tentar fazer com que isto acontecesse da maneira mais difícil possível. Não tinha esperanças de que Mathis ou Leiter chegassem a tempo, mas pelo menos havia uma chance de que eles conseguissem alcançar Le Chiffre, antes que este tivesse tempo de fugir. Deveria ser quase sete horas. O carro já poderia ter sido encontrado. Tinha de escolher entre dois males. Mas, quanto mais tempo durasse a tortura, mais provável seria que Ele fosse vingado.

Bond ergueu a cabeça e olhou fixamente para Le Chiffre. Tinha agora o branco dos olhos cheio de veiazinhas verme lhas . Era o mesmo que olhar para duas frutinhas pretas mer gulhadas em sangue. Seu rosto largo parecia pintado de amarelo, exceto nas partes em que sua pele suada estava coberta por uma barba preta e grossa. Os bigodes de café preto nos cantos dos lábios emprestavam à sua expressão um sorriso falso. A luz que filtrava pelas venezianas desenhava uma série de listras no rosto de Bond.

“Não”, disse secamente. “Você…”

Le Chiffre soltou um grunhido de ódio e voltou ao trabalho com fúria selvagem. Ocasionalmente, rosnava como uma fera enraivecida.

Dez minutos depois, por sorte, Bond estava completamente desmaiado.

Le Chiffre parou assim que o percebeu. Limpou o suor do rosto com a mão livre. Então olhou para o relógio e pareceu tomar uma decisão. Levantou-se e parou atrás do corpo inerte e suado. Não havia cor no rosto de Bond, ou em qualquer outra parte de seu corpo acima da cintura. Percebia-se um leve tremor em sua pele, sobre o coração. Se não fosse isto, poderia ser dado como morto.

Le Chiffre segurou as orelhas de Bond e torceu-as violen tamente. Depois, inclinou-se para a frente e esbofeteou o rosto de Bond diversas vezes. A cada bofetada, sua cabeça balançava de um lado para outro. Aos poucos, sua respiração tornou-se mais profunda. Um gemido animal partiu de sua boca frouxa.

Le Chiffre apanhou um copo de café, derramou um pouco na boca de Bond, e atirou o resto em seu rosto. Os olhos de Bond abriram-se devagar.

Le Chiffre voltou a sentar-se e esperou. Acendeu um ci garro e notou a poça de sangue formada no chão embaixo do corpo que tinha à frente.

Bond soltou um outro gemido, fraco. Não era um som humano. Seus olhos se abriram completamente e Ele olhou sem expressão alguma para o carrasco.

Le Chiffre falou de novo.

“Muito bem, Bond. Agora, nós acabaremos com você. Compreende? Não vamos matá-lo, vamos acabar com você. Depois traremos a moça e veremos se ainda se pode arrancar alguma coisa do que restar de vocês dois”. . Estendeu a mão para a mesa.

“Diga adeus, Bond”.


Ouvir aquela terceira voz foi uma coisa extraordinária. Até aquele momento, o ritual exigira so mente um diálogo para servir de fundo aos horríveis ruídos pro vocados pela tortura. Os sentidos adormecidos de Bond mal puderam ouvi-la. Então, de repente, Ele já andara meio cami nho de volta à consciência. Descobriu que podia ver e ouvir novamente. Podia ouvir o silêncio de morte que se fizera na sala depois que uma palavra fora pronunciada em voz baixa na soleira da porta. E podia ver a cabeça de Le Chiffre levan tar-se devagar, e aquela expressão vazia de espanto, de inocente surpresa, transformar-se vagarosamente em medo.

“Parre”, disse a voz baixinho, carregando num sotaque duro.

Bond ouviu passos vagarosos aproximarem-se atrás de sua cadeira.

“Larrgue a faca”, ordenou a voz.

Bond viu a mão de Le Chiffre abrir-se obedientemente e a faca cair no chão com estrépito

Tentou desesperadamente ler no rosto de Le Chiffre o que se passava às suas costas, mas só viu cega incompreensão e terror. Le Chiffre abriu a boca, mas só conseguiu articular um pequeno grito, fininho. Suas bochechas pesadas tremeram quando ele tentou reunir saliva suficiente para dizer alguma coisa perguntar alguma coisa. Estava com as mãos na barriga e elas esboçaram um movimento quase imperceptível. Uma delas moveu-se levemente em direção ao bolso, mas no mesmo instante caiu. Os olhos redondos e arregalados de Le Chiffre baixaram numa fração de segundo, e Bond adivinhou que havia uma arma apontada para Ele.

Houve um momento de silêncio.

“Smersh”.

Esta palavra foi pronunciada quase como um suspiro. Veio numa cadência baixa, como se nada mais houvesse a dizer. Era a explicação final. A última de todas as palavras.

“Não”, disse Le Chiffre. “Não, eu. . .”. Sua voz sumiu.

Talvez Ele quisesse explicar alguma coisa, pedir desculpas, mas o que deve ter visto no rosto do outro mostrou que tudo era inútil.

“Seus dois homens. Os dois estão mortos. Você é um idiota, um ladrão e um traidor. Vim da União Soviética com ordem de matá-lo. Você tem sorte, porque o tempo é escasso, e eu terei de matar você a bala. Porque minhas instruções diziam que, se fosse possível, você deveria morrer de maneira bastante dolorosa. Não sabemos ainda como vai acabar toda esta encrenca que você causou”.

A voz grave parou de falar. A sala estaria em silêncio absoluto, não fosse a respiração entrecortada de Le Chiffre.

Lá fora um passarinho começou a cantar e ouviram-se também outros ruídos do campo que acordava. No rosto de Le Chiffre, o suor brilhava intensamente.

“Você se confessa culpado?”

Bond lutava contra a inconsciência. Firmou bem a vista e tentou balançar a cabeça, para clarear um pouco os sentidos; mas todo seu sistema nervoso estava anestesiado e não conseguia transmitir mensagem alguma aos músculos. Bond só conseguia focalizar o grande rosto pálido à sua frente e aqueles olhos esbugalhados.

Um fio fino de saliva escorreu da boca aberta até o queixo.

“Sim”, disse a boca.

Ouviu-se um fit agudo, um ruído da mesma intensidade que uma bolha de ar escapando de um tubo de pasta dentifrícia.

Não se ouviu mais nenhum barulho, mas subitamente um terceiro olho aparecera em Le Chiffre, na mesma altura que os outros dois, exatamente no local em que o nariz grosso começava, abaixo da testa. Era um olho preto e pequeno, sem cílios nem sobrancelhas.

Durante um segundo, os três olhos fixaram o outro lado da sala, depois o rosto pareceu escorregar. Os dois olhos laterais viraram para o teto. Então a pesada cabeça caiu de lado, o ombro direito também caiu, e finalmente toda a parte superior do corpo balançou para o lado, sobre o braço da cadeira, como se Le Chiffre fosse vomitar. Mas ouviu-se apenas o barulho rápido de seus calcanhares no chão. E não se ouviu mais nada, nenhum outro movimento.

O alto espaldar da cadeira olhava impassível o cadáver que tinha nos braços.

Houve um ligeiro movimento atrás de Bond. Uma mão veio por trás, agarrou seu queixo e puxou-o para o lado.

Bond viu dois olhos brilhando dentro de uma máscara negra e estreita. Teve a impressão de que, sob a aba daquele chapéu, havia um rosto de pedra escondido também pela gola de um sobretudo castanho. Não pôde notar mais nada, porque sua cabeça foi novamente jogada para a frente.

“Você tem sorte”, disse a voz. “Não tenho ordens para matá-lo. Sua vida foi salva duas vezes em um dia. Mas você pode dizer aos seus chefes que Smersh só faz caridade por acaso ou por engano. Você foi salvo primeiro por acaso e agora por engano, porque eu deveria ter recebido ordens para matar qualquer espião estrangeiro que estivesse rodeando este traidor como moscas que rodeiam sujeira de cachorro”.

“Mas deixarei meu cartão de visita. Você é um jogador. Você brinca com cartas. Talvez algum dia você jogue contra um de nós. Seria bom que você fosse logo reconhecido como um espião”.

Passos deram a volta pelo lado direito de Bond. Ouviu-se o clic de uma faca se abrindo. Um braço envolto em tecido cinza atravessou o campo de visão de Bond. Uma mão grande c peluda, saindo de um punho sujo de camisa branca, segurava um estilete fino como uma caneta-tinteiro. Esta mão pousou nas costas da mão direita de Bond, que continuava imóvel, amarrada com arame aos braços da cadeira. A ponta do estilete executou três cortes retos e rápidos. Um quarto corte cruzou-os onde eles terminavam, perto dos nós dos dedos. O sangue co meçou a correr daquele M invertido, a inicial russa da Smersh, até pingar lentamente no chão.

Em comparação ao que já sentira, aquela dor não era nada para Bond, mas foi o suficiente para levá-lo de novo à inconsciência.

Os passos abafados afastaram-se pela sala. A porta fechou-se suavemente.

Em meio àquele silêncio, pequenos sons alegres de um dia de verão atravessaram a janela. Bem alto, na parede esquerda, pendiam duas pequenas manchas cor de rosa. Eram os reflexos de duas poças de sangue não muito distantes entre si, que o sol de junho atirava na parede.

Com o correr do dia, as duas manchas cor de rosa mar chavam vagarosamente pela parede. E vagarosamente aumen taram de tamanho.


Quando você sonha que está sonhan do, é sinal de que está para acordar.

Durante os dois dias seguintes, James Bond esteve perma nentemente nesse estado, sem retomar a consciência. Observava os sonhos que passavam em procissão, sem fazer o menor es forço para atrapalhar a seqüência, embora muitos deles fossem aterradores, e todos dolorosos. Ele sabia que estava deitado de costas numa cama e que não podia mexer-se. Num de seus momentos de semi-inconsciência, pensou que havia gente à sua volta; mas não Fez nenhum esforço para abrir os olhos e reentrar no mundo.

Sentia-se mais seguro na escuridão e se aconchegava a ela.

Na manhã do terceiro dia, um pesadelo sangrento sacudiu-o até acordá-lo, tremendo e transpirando. Associou ao sonho a mão que estava pousada em sua testa. Tentou levantar um braço para esmagar o dono da mão, mas seus braços estavam imobilizados, presos nos lados da cama. Todo seu corpo estava amarrado com tiras de pano e algo semelhante a um enorme caixão branco o cobria desde o peito até os pés, escurecendo sua visão dos pés da cama. Gritou uma série de obscenidades; mas este esforço lhe custou todas as forças, e as palavras se transformaram num soluço. Lágrimas de desespero e de descon solo transbordaram de seus olhos.

Ouviu então uma voz de mulher, e aos poucos as palavras penetraram dentro dele. Parecia ser uma voz boa e Ele percebeu gradativamente que estava sendo reconfortado, e que a voz era amiga, não inimiga. Quase não acreditou. Estava tão certo de que ainda era um prisioneiro e de que a tortura poderia reco meçar de um momento para outro! Sentiu que passavam suave mente em seu rosto um pano fresco cheirando a alfazema, e então voltou a mergulhar nos sonhos.

Acordou novamente algumas horas depois, e então todos os seus receios haviam desaparecido. Bond sentiu que um certo calor langoroso o dominava. O sol entrava no quarto claro e sons vindos do jardim atravessavam a janela. Ao longe, ouvia-se o barulho das ondas na praia. Quando mexeu a cabeça, ouviu um farfalhar e uma enfermeira que estava sentada ao lado de seu travesseiro levantou-se e entrou em seu campo de visão. Era bonita e, quando pegou o pulso de Bond, sorriu.

“Muito bem. Fico muito contente ao ver que você, final mente, resolveu acordar mesmo. Nunca ouvi um linguajar tão feio em toda a minha vida”.

Bond sorriu para ela.

“Onde estou?” perguntou, e sua voz firme e clara sur preendeu-o.

“Você está num hospital de Royale e eu vim da Inglaterra com uma outra enfermeira para cuidar de você. Meu nome é Gibson. Agora fique quietinho que eu vou dizer ao médico que você acordou. Estávamos muito preocupados, porque você es tava inconsciente desde que chegou aqui”.

Bond fechou os olhos e mentalmente explorou o corpo. A pior dor era nos pulsos, nos tornozelos e na mão direita, onde o russo o cortara. No centro do corpo não havia sensação algu ma. Imaginou que haviam dado uma anestesia local. O resto do corpo latejava, como se Ele tivesse sido inteiramente espan cado. Sentiu a pressão do esparadrapo no corpo inteiro. A barba espetava o lençol. Pela sensação que isto provocava, sabia que deveria estar uns três dias no mínimo sem fazer a barba. Ou seja, dois dias desde a manhã da tortura.

Estava pensando na série de perguntas que faria ao médico, quando este entrou no quarto, seguido da enfermeira e da figura querida de Mathis, um Mathis com um ar ansioso escon dido atrás de um sorriso largo, que pôs um dedo na ponta dos lábios e andou na ponta dos pés até a janela, onde se sentou.

O médico, um francês de rosto jovem e inteligente, fora afastado de seus deveres no Deuxième Bureau para tratar do caso de Bond. Enquanto examinava a ficha de temperatura, colocou a mão na testa de Bond.

Foi direto ao assunto, quando começou a falar.

“Sei que o senhor tem uma porção de perguntas a fazer, meu caro Mr. Bond”, disse em excelente inglês, “e eu posso responder à maioria delas. Mas não quero que desperdice suas forças, por isso contarei ao senhor os fatos principais. Depois, deixarei que fique durante alguns minutos com Monsieur Mathis, que deseja um ou dois esclarecimentos. É realmente um pouco cedo para esta conversa, mas quero deixar sua mente sossegada para que possamos prosseguir no trabalho de reparar seu corpo sem nos preocuparmos muito com sua mente”.

A enfermeira Gibson puxou uma cadeira para o médico e saiu do quarto.

“O senhor está aqui há mais ou menos dois dias”, conti nuou o médico. “Seu carro foi encontrado por um agricultor que se dirigia para o mercado de Royale, e Ele o comunicou à Polícia. Demorou um certo tempo até que Monsieur Mathis fosse informado que se tratava de seu carro, e Ele imediatamente partiu para Les Noctambules. Encontraram o senhor, Le Chiffre, e também Miss Lynd, que estava ilesa e que, segundo o que con tou, nada sofreu. Estava prostrada com o choque, mas já está completamente restabelecida e se encontra agora no hotel. Re cebeu ordens de Londres para permanecer em Royale sob suas ordens, até que o senhor esteja suficientemente recuperado para voltar à Inglaterra.

“Os dois pistoleiros de Le Chiffre estão mortos: uma bala de calibre 35 para cada um deles, bem na nuca. Pela falta de expressão em seus rostos, evidentemente não viram nem ouvi ram o assassino. Foram encontrados no mesmo quarto que miss Lynd. Le Chiffre está morto, baleado com uma arma igual entre os olhos. O senhor testemunhou a morte dele?”

“Sim”, respondeu Bond.

“Os ferimentos que o senhor apresenta são graves, mas sua vida não está em perigo, embora tenha perdido grande quantidade de sangue. Se tudo correr bem, a recuperação será completa e nenhuma das funções de seu corpo ficará prejudicada”. O medico deu um sorriso meio triste. “Mas temo que continue a sofrer por mais alguns dias, e minha missão será proporcionar-lhe o maior conforto possível. Agora que recobrou a consciên cia seus braços serão libertados, mas não deverá mexer o corpo; quando dormir, a enfermeira tem ordens para amarrá-lo nova mente. O mais importante é que o senhor descanse e recupere as forças. No momento, ainda está sofrendo as graves conse qüências de um choque físico e mental”. O médico Fez uma pausa. “Foi maltratado durante quanto tempo?”

“Cerca de uma hora”, respondeu Bond.

“Então é um milagre que ainda esteja vivo. Meus para béns. Poucos homens suportariam uma coisa dessas. Talvez isto sirva de consolo. O próprio Monsieur Mathis poderá con firmar que tenho tido oportunidade de tratar de inúmeros pa cientes que sofreram um tratamento semelhante, e nenhum deles saiu-se tão bem quanto o senhor”.

O médico examinou com os olhos a expressão de Bond e voltou-se repentinamente para Mathis.

“Se ficar aqui mais do que dez minutos, será expulso à força. Se a temperatura do paciente aumentar, você será o responsável”.

Dirigiu um largo sorriso aos dois e deixou o quarto.

“Gosto dele”, disse Bond. “É um bom sujeito”.

Mathis aproximou-se e sentou na cadeira do médico.

“Trabalha no Bureau”, disse Mathis. “É realmente um bom sujeito e qualquer dia destes eu conto a estória dele para você. Ele acha que você é um prodígio — aliás, eu também acho”.

“Mas estas coisas podem esperar. Como você pode ima ginar, há muita coisa para ser posta em pratos limpos. Paris está me apertando, Londres também, é claro, e até Washington, através do nosso amigo Leiter. Incidentalmente, tenho um re cado especial de M para você. Sabe que Ele falou pessoalmente comigo pelo telefone? Mas pediu simplesmente para dizer a você que Ele está muito impressionado com tudo o que aconteceu. Perguntei se Ele não queria dizer mais nada, e Ele respondeu:

“Bem, diga a ele que o Tesouro suspirou de alívio”. Depois, desligou”.

Bond sorriu, contente. O que mais lhe causava prazer era saber que M tinha telefonado pessoalmente para Mathis. Nunca fizera isto na vida. Ninguém admitia a existência de m, quanto mais sua identidade. Bond imaginava que este telefonema deveria ter causado um grande reboliço em Londres, dentro de uma organização que leva a segurança tão a sério.

“Um homem alto e magro veio de Londres no mesmo dia em que encontramos você”, continuou Mathis, sabendo por expe riência própria que estes detalhes sem importância interessariam muito mais a Bond do que qualquer outra coisa e dariam muito prazer a Ele. “Foi Ele que arranjou as enfermeiras e encarre gou-se de tudo. Até seu carro está sendo consertado. Parece que é o chefe de Vésper. Passou muito tempo falando com ela e deu instruções estritas para que ela cuide de você”.

O chefe da S, pensou Bond. Eles estão realmente me tra tando com todas as honras.

“Agora”, disse Mathis, “vamos ao que interessa. Quem matou Le Chiffre?”

“Smersh”, respondeu Bond.

Mathis soltou um assobio baixinho.

“Meu Deus”, exclamou, com o maior respeito. “Então eles já estavam atrás dele. Como era o sujeito?”

Bond explicou rapidamente o que acontecera até o mo mente da morte de Le Chiffre, mas contando só os pormenores essenciais. Custou-lhe um grande esforço contar todas estas coisas e Ele ficou contente quando terminou. O fato de relem brar o que acontecera reavivou o pesadelo por que passara, e o suor começou a jorrar de sua fronte, enquanto uma profunda sensação de dor tomava conta de seu corpo.

Mathis percebeu que tinha ido longe demais. A voz de Bond estava ficando fraca, e sua vista anuviada. Mathis fechou rapi damente o bloco em que estava tomando nota do que Bond dizia e colocou a mão no ombro do amigo.

“Perdão, meu caro”, disse Ele. “Agora tudo isso já acabou e você está em boas mãos. Está tudo bem e o seu plano correu esplendidamente bem. Nós anunciamos à imprensa que Le Chiffre matou os dois cúmplices e depois suicidou-se, porque não poderia suportar as conseqüências de uma investigação sobre os fundos do sindicato. Em Estrasburgo e no norte, está a maior confusão, porque Ele era considerado um grande herói, um dos pilares do Partido Comunista francês. Depois, aquela estória de bordéis e cassinos virou a organização de pernas para o ar. Não sei como conseguirão safar-se desta encrenca”.

Mathis percebeu que seu entusiasmo já contaminara o amigo- Os olhos de Bond já estavam mais brilhantes.

“Um último mistério”, disse Mathis, “e depois prometo que me vou”. Consultou o relógio. “Aliás, se não for logo, o doutor me mata… Bem, e o dinheiro? Onde está? Onde você o escon deu? Nós também reviramos seu quarto de cabeça para baixo. Não está lá”.

Bond sorriu.

“Está, sim”, respondeu. “Isto é, mais ou menos. Na porta de cada quarto, do lado de fora, há um quadrado de plástico preto com o número do quarto pintado. Quando Leiter foi embora, naquela noite, eu simplesmente abri a porta, desaparafusei a plaquinha com o número do meu quarto, coloquei o cheque dobrado embaixo e novamente aparafusei a placa no lugar. Deve estar ainda lá”. Sorriu. “Fico muito contente por saber que os estúpidos ingleses ainda têm algo a ensinar aos espertos franceses”.

Mathis deu uma gargalhada.

“Tenho a impressão de que, com isso, você acha que se vinga do fato de que fui eu quem descobriu a estória dos Muntzes. Estamos quites. Incidentalmente, nós os prendemos também. Eram uns coitados, empregados só para este trabalho. Mas faremos força para que peguem alguns anos de cadeia”.

Mathis levantou-se apressadamente quando o médico irrompeu no quarto para examinar Bond.

“Para fora”, disse o médico a Mathis. “Fora. E não me volte mais”.

Mathis só teve tempo de acenar para Bond e dizer rapida mente algumas palavras de despedida, antes de ser empurrado pela porta afora. Bond ouviu aquela torrente de palavras em francês diminuindo pelo corredor. Estava exausto, mas contente com tudo o que ouvira. Surpreendeu-se pensando em Vésper, mas logo em seguida caiu num sono agitado.

Algumas perguntas ainda precisavam de resposta, mas podiam esperar.


Bond recuperava-se bem. Quando, três dias depois, Mathis veio vê-lo, já se sentava no leito e os braços estavam livres. A parte inferior do corpo ainda estava oculta pela tenda oblonga, mas Ele parecia animado e só uma ou outra vez uma careta de dor lhe apertava os olhos.

Mathis estava de crista caída.

“Aqui está o seu cheque”, disse Ele. “Gostei de andar com quarenta milhões de francos no bolso, mas acho melhor que você o assine e eu o deposite na sua conta no Crédit Lyonnais. Não há sinal do nosso amigo da Smersh. Nem traço dele. Deve ter chegado à vila a pé ou de bicicleta, porque nem você nem os pistoleiros o ouviram chegar. É de exasperar. Não conseguimos saber grande coisa dessa organização Smersh, nem Londres tampouco. Washington disse que sabia, mas era só o costumeiro bababá de refugiados, e você sabe que interro gá-los vale tanto quanto interrogar um cidadão inglês qualquer sobre o Serviço Secreto britânico ou um francês sobre o Deuxième”.

“Ele provavelmente chegou a Berlim por Varsóvia”, disse Bond. “De Berlim eles têm vários caminhos para toda a Europa. Já estará de volta agora, levando um pito por não me haver matado também. Suponho que tenham levantado a minha ficha em virtude de uma ou duas das missões que M me deu a partir da guerra. Naturalmente se supôs muito esperto por deixar a sua inicial na minha mão”.

“Como é isso?” perguntou Mathis. “O médico disse que os cortes pareciam um M quadrado com um rabinho em cima. Disse que nada significava”.

“Bem, eu só pude dar uma olhadela antes de desmaiar, mas vi os cortes várias vezes durantes os curativos e estou certo de que são a letra russa correspondente a sh. Parece uma letra M invertida, com um rabo. Faz sentido, Smersh é uma abre viatura de smyert shpionam — morte aos espiões — e Ele supôs me haver rotulado como shpion. É chato, porque provavelmente M quererá que eu baixe hospital novamente, quando voltar a Londres, para um enxerto de pele nas costas da mão. Não importa muito. Decidi demitir-me”.

Mathis ficou boquiaberto.

“Demitir-se?” perguntou, incrédulo. “Por que diabo… ?”

Bond não olhou para Mathis, fixando as suas mãos envol vidas em bandagens.

“Quando eu estava sendo espancado”, disse Ele, “de repente gostei da idéia de viver. Antes de Le Chiffre começar, disse uma coisa que me ficou na mente… “brincando de índio”. Ela disse que era o que eu estava fazendo. Bem, de repente pensei que Ele talvez estivesse com a razão”.

“Veja”, continuou, ainda olhando os curativos, “quando somos jovens parece fácil distinguir entre certo e errado, mas, à medida que crescemos, isso se torna mais difícil. Na escola é fácil escolher heróis e vilões e a gente cresce desejando ser o herói e matar os vilões”.

Olhou obstinadamente para Mathis.

“Nos últimos anos matei dois vilões. O primeiro foi em Nova York — um perito decifrador de códigos, japonês, que trabalhava no 36.° andar do edifício da rca no Rockefeller Center, no Consulado do Japão. Aluguei um quarto no 40.° andar do arranha-céu vizinho e podia vê-lo, do outro lado da rua, trabalhando. Depois consegui um colega da nossa orga nização em Nova York e um par de Remington 30-30 de mira telescópica e silenciadores. Levamo-los às escondidas para o meu quarto e esperamos a nossa chance durante dias. Ele

atirou no sujeito um -segundo antes de mim. A missão dele era apenas abrir um buraco na vidraça para que eu pudesse atirar no japonês através dele. As vidraças são muito espessas, no Rockefeller Center, para proteger contra o ruído. Tudo correu bem. Como eu esperava, a primeira bala se desviou, por causa da vidraça, e só Deus sabe onde se foi alojar. Mas eu atirei imediatamente depois dele, pelo rombo que abrira. Peguei o japonês na boca, quando se voltava para olhar a vidraça par tida”.

Bond soltou uma baforada de fumo.

“Foi um trabalho seguro. Bonito e limpo. A trezentas jardas de distância. Nada de contatos pessoais. Da outra vez, em Esto colmo, não foi tão bom. Tive de matar um norueguês que tra balhava contra nós, a favor dos alemães. Ele fizera com que dois dos nossos homens fossem capturados — provavelmente debaixo de pancada, pelo que sei. Por vários motivos deveria ser um trabalho absolutamente silencioso. Escolhi o quarto de dormir do apartamento dele e uma faca. Mas Ele não morreu muito depressa.

“Por estes dois trabalhos deram-me um número com dois zeros no Serviço. Eu me senti muito esperto e ganhei a reputação de ser bom e durão. Um número com dois zeros no nosso Serviço significa que se teve de matar um cara a sangue frio no curso de algum trabalho.

“Ora”, e tornou a olhar para Mathis, “tudo isso está bem. O herói mata dois vilões, mas, quando o herói Le Chiffre começa a matar o vilão Bond e o vilão Bond sabe que não é um vilão, pode-se ver o reverso da medalha. Vilões e heróis se misturam.

“Naturalmente”, acrescentou, quando Mathis começava a discordar, “o patriotismo surge e faz com que tudo pareça muito bem, mas esse negócio de certo-ou-errado-para-a-pátria está ficando fora de moda. Hoje combatemos o comunismo. Okay. Se eu vivesse há cinqüenta anos, a espécie de conservantismo que temos hoje seria quase com certeza chamada de comunismo e nos teriam mandado combatê-la. A história está andando muito depressa hoje em dia e heróis e vilões mudam constantemente de papéis”.

Mathis o olhava, pasmo. Em seguida deu-lhe umas pancadinhas na cabeça e pôs a mão, como calmante, no braço do Bond.

“Você quer dizer que esse precioso Le Chiffre que Fez o que pôde para transformar você num eunuco não era um vilão?” perguntou Ele. “Do modo como você fala parece que Ele andou batendo na sua cabeça e não nos seus…” Apontou para a cama, “Espere até que M despache você atrás de outro Le Chiffre. Aposto como você irá. E quanto à Smersh? Posso dizer-lhe que não me agrada a idéia desses malandros percorrendo a França para matar quem eles considerem traidor do seu precioso sistema político. Você é um anarquista sanguinário”.

Atirou os braços no ar e os deixou cair sem apoio.

Bond riu.

“Muito bem”, disse Ele. “Tomemos o nosso amigo Le Chiffre. É muito simples dizer que era um malvado, pelo menos é simples para mim, pois Fez malvadezas comigo. Se Ele estivesse aqui agora eu não hesitaria em matá-lo, mas por vingança pessoal e não, receio, por alguma razão moral nem pelo meu país”.

Olhos para Mathis, tentando aquilatar como se aborrecia com esses introspectivos refinamentos do que, para Mathis, era uma simples questão de dever.

Mathis lhe sorriu.

“Continue, meu caro amigo. É interessante para mim ver este novo Bond. Os ingleses são tão engraçados! São como um ninho de caixas chinesas: leva muito tempo para chegar ao centro delas, e, quando se chega, o resultado não paga a pena, mas o processo é instrutivo c divertido. Continue. Desenvolva os seus argumentos. Talvez haja alguma coisa de que eu me possa valer da próxima vez que deseje cair fora de algum trabalho desagradável”. E careteou maliciosamente.

Bond o ignorou.

“Ora, a fim de estabelecer a diferença entre o bem e o mal, produzimos duas imagens que representam os dois extremos — o preto mais profundo e o branco mais puro — e os chamamos Deus e o Diabo. Mas, ao fazê-lo, enganamo-nos um pouco. Deus é uma imagem clara, pode-se ver cada fio da sua barba. Mas o diabo — com que parece?” Bond olhou triunfantemente para Mathis. ;

Rindo ironicamente, Mathis respondeu: ‘”Com uma mulher”.

“Está tudo muito bem”, disse Bond, “mas andei pensando sobre essas coisas e me pergunto de que lado devo ficar. Ando com pena do Diabo e dos seus discípulos, como Le Chiffre. O

Diabo passa maus bocados c eu sempre gostei de estar ao lado dos perseguidos. Não damos ao pobrezinho uma chance. Há um livro Bom sobre a bondade, como ser bom, e assim por diante, mas não há um livro Mau sobre o mal e como ser mau. O Diabo não tem profetas para recolher os seus Dez Mandamentos, nem uma equipe de escritores para fazer a sua biografia. A sua causa se perdeu completamente, por desleixo. Nada sabemos dele, além de algumas estórias da carochinha contadas pelos pais e pelos mestres-escola. Ele não dispõe de um livro onde possamos aprender a natureza do mal em todas as suas formas, com parábolas sobre gente malvada, provérbios sobre gente malvada, folclore sobre gente malvada. Tudo o que temos é o exemplo vivo das pessoas que são menos boas ou a nossa própria intuição.

“Assim”, disse Bond, acalorando-se com a argumentação, “Le Chiffre servia um fim maravilhoso, um fim realmente vital, talvez o melhor e o mais elevado de todos. Com a sua malvada existência criava uma norma de maldade pela qual, e somente por ela, poderia existir uma norma de bondade. Fomos privi legiados, no rápido conhecimento que tivemos dele, vendo e avaliando a sua maldade e saímos da experiência mais virtuosos e melhores”.

“Bravo!” disse Mathis. “Orgulho-me de você. Você devia ser torturado todos os dias. Preciso me lembrar de fazer alguma coisa de mau esta noite. Devo começar logo. Tenho alguns pontos a meu favor — infelizmente, pequenos pontos”, acres centou, pesarosamente — “mas andarei depressa, agora que vi a luz. Que boa vida vou ter! Vejamos, por onde devo começar — assassínio, incêndio, estupro? Não, são pecadilhos. Consul tarei o bom Marquês de Sade. Sou uma criança, um neném nestas coisas”.

A sua cabeça pendeu para baixo.

“Mas a nossa consciência, meu caro Bond… Que faremos com ela enquanto estivermos cometendo algum saboroso pecado? É um problema. A consciência é uma pessoa sabida e muito velha, tão velha quanto a primeira família de símios que lhe deu nascimento. Devemos dar a esse problema uma cuidadosa atenção, para não estragarmos o nosso prazer. Naturalmente, precisamos matá-la primeiro. Vai ser difícil — o pássaro é durão — mas, se o conseguirmos, poderemos ser ainda piores do que Le Chiffre.

“Para você, caro James, é fácil. Você pode começar demitindo-se. É uma idéia brilhante, um esplêndido começo para a sua nova carreira. E tão simples! Todo mundo tem o revólver da demissão no bolso. Tudo o que você tem a fazer é apertar o gatilho e terá feito um grande buraco no seu país e na sua cons ciência ao mesmo tempo. Um assassínio e um suicídio com uma bala! Esplêndido! Que profissão difícil e gloriosa! Quanto a mim, abraçarei a nova causa imediatamente”.

Olhou para o relógio.

“Ótimo. Já comecei. Estou meia hora atrasado no en contro com o chefe de polícia”.

Ele se levantou, rindo.

“Foi muito agradável, meu caro James. Você deveria fazer conferências. Agora, quanto a esse problemazinho seu, esse negócio de não saber distinguir homens bons de homens maus e heróis dei vilões, e assim por diante. É, naturalmente, um problema difícil, em abstrato. O segredo está na experiência pessoal, quer você seja um chinês ou um inglês”.

Parou à porta.

“Você admite que Le Chiffre lhe Fez pessoalmente mal e que, se Ele lhe aparecesse agora, você o mataria?

“Bem, quando voltar a Londres você verá que há outros Le Chiffre tentando destruir você, os seus amigos e o seu país. M lhe falará deles. E agora, que você viu um homem realmente mau, você saberá como eles podem ser maus e você os perse guirá para os destruir, a fim de se proteger e de proteger aqueles de quem você gosta. Você não se deterá para discutir. Você sabe.como eles são e o que podem fazer às pessoas. Talvez você escolha um pouco mais os trabalhos que lhe derem. Talvez você queira certificar-se de que o alvo é realmente preto, mas há muitos alvos realmente pretos por aí. Ainda há muita coisa para você fazer. E você fará. E, quando você se apaixonar e tiver uma amante ou uma esposa e filhos para cuidar, tudo parecerá mais fácil”.

Mathis abriu a porta e se deteve no umbral.

“Cerque-se de seres humanos, meu caro James. É mais fácil lutar por eles do que por princípios”. Riu. “Mas não me decepcione, torne-se humano você mesmo. Perderíamos uma máquina tão maravilhosa!”

Com um aceno Ele fechou a porta.

“Ei”, gritou Bond.

Mas os passos se afastavam rapidamente pelo corredor.


No dia seguinte Bond pediu para ver Vésper.

Não quisera vê-la antes. Já lhe haviam contado que ela vinha diariamente ao hospital para perguntar como Bond estava passando. Já mandara flores, também. Mas Bond não gostava de flores e pediu à enfermeira que as desse a outro paciente. Isto aconteceu duas vezes; depois, não recebeu mais flores. Bond não tivera a intenção de ofender a moça. Só que não gostava de ter coisas femininas à sua volta. Em geral, um ramo de flores parece estar transmitindo incessantemente uma men sagem de simpatia e afeto. Bond achava isso desagradável. Não gostava de ser mimado. Dava-lhe claustrofobia.

Não seria nada divertido explicar isso tudo a Vésper. Por outro lado, seria embaraçoso fazer duas ou três perguntas à moça sobre a maneira como ela havia agido, perguntas cujas respostas eram um mistério para Ele. Certamente as respostas demonstrariam que Vésper era uma idiota. Além disso, Bond tinha também de pensar no relatório que teria de fazer para M. E não queria criticar Vésper nesse relatório, pois se o fizesse a moça certamente perderia o emprego.

Mas acima de tudo, e Bond admitia para si mesmo que este era o problema, Ele estava evitando a resposta a uma pergunta mais dolorosa.

O médico já conversara diversas vezes com Bond sobre seus ferimentos. Já dissera que não haveria nenhuma conse qüência maléfica das terríveis pancadas que seu corpo recebera. Acrescentara que Bond ficaria inteiramente recuperado, e que nenhuma de suas funções ficaria prejudicada. Mas os olhos e os nervos de Bond pareciam contradizer essas palavras reconfortantes. Bond ainda estava dolorosamente inchado e machucado e, quando passava o efeito das injeções, sentia dores terríveis. Sua imaginação, principalmente, sofrerá muito. Durante os sessenta minutos que ficara com Le Chiffre naquela sala, adqui rira a certeza absoluta de que acabaria impotente; e na sua imaginação ficara uma cicatriz que só poderia desaparecer com a experiência.

Bond desejava Vésper desde o dia em que a conhecera no bar do Hermitage; sabia também que, se as coisas tivessem acontecido diferentemente na boate, se Vésper reagisse de outra maneira e se o rapto não tivesse acontecido, Ele teria tentado dormir com ela naquela noite. Mesmo mais tarde, no carro de Le Chiffre e na chegada à vila, quando tinha de pensar em muitas outras coisas, a visão das pernas nuas da moça desper taram seu erotismo.

E agora, que podia novamente encontrar-se com ela, estava com medo. Com medo de que seus sentidos e seu corpo não respondessem à beleza sensual de Vésper. Com medo de não sentir uma chama de desejo, de que seu sangue permanecesse frio. Este primeiro encontro seria um teste, mas Bond estava evitando o resultado. Esta era a verdadeira razão pela qual Ele tinha dado ao próprio corpo uma oportunidade de mani festar-se, a verdadeira razão pela qual Ele tinha protelado esse encontro por tanto tempo. Gostaria de adiar ainda um pouco mais, mas explicou-se a si mesmo que o relatório deveria ser feito logo, que qualquer dia um emissário de Londres chegaria a Royale para ouvir a estória completa, que hoje seria igual a amanhã, e que — de qualquer maneira — Ele deveria esperar pelo pior.

Então no oitavo dia pediu para vê-la, para que ela viesse de manhã bem cedo, quando Ele estaria sentindo-se forte e bem disposto, depois do descanso da noite.

Por motivos que Ele mesmo não conseguiu explicar, espe rava que ela mostrasse algum sinal dos maus momentos que atravessara, que estivesse pálida e até mesmo doente. Não estava preparado para receber aquela moça alta e bronzeada que entrou feliz pela porta e parou diante dele com um vestido de tussor bege e um cinto preto.

“Não é possível, Vésper”, disse Bond, fazendo um gesto meio desajeitado de boas-vindas, “você está absolutamente maravilhosa. O infortúnio parece que lhe cai bem. Como con seguiu essa cor de pele tão linda?”

“Sinto-me culpada”, disse a moça, sentando-se ao lado dele. “Mas tenho ido todos os dias à praia enquanto você fica aqui deitado. O médico mandou que eu fosse, o chefe da S também, e eu pensei que não o ajudaria se ficasse o dia inteiro no meu quarto sem fazer nada. Descobri um lindo trecho de praia des cendo a costa, e todos os dias vou para lá, levando um lanche e um livro. Só volto no fim da tarde. Há um ônibus que me leva e traz, e só tenho que andar um pedacinho pelas dunas. Acho que consegui esquecer o fato de que aquela é a estrada que leva à vila”.

Sua voz falseou.

Os olhos de Bond haviam reagido à menção da vila.

Mas Vésper continuou falando corajosamente, recusando ser derrotada pela ausência de resposta de Bond.

“O médico disse que logo você poderá levantar. Pensei que talvez. . . talvez pudesse levar você até essa praia. O mé dico disse que um banho de mar seria muito bom para você”.

“Deus sabe quando poderei tomar um banho de mar”, res pondeu Ele. “Esse médico fala pelos cotovelos. Além disso, quando eu puder tomar um banho de mar, provavelmente seria melhor fazê-lo sozinho durante algum tempo. Não quero assustar ninguém. Tirando meu rosto”, desceu o olhar pela cama, “meu corpo é uma massa de cicatrizes e queimaduras. Quanto a você, divirta-se. Não há razão para que você não se divirta”.

Vésper foi atingida pela amargura e pela injustiça daquele tom de voz.

“Desculpe-me”, disse ela. “Pensei… eu estava tentan do…

Seus olhos encheram-se de lágrimas.

“Eu queria. . . queria ajudá-lo a ficar bom”.

Não conseguiu dizer mais nada, com a voz estrangulada na garganta. Olhou com pena para Ele, enfrentando a acusação nos olhos e nos modos de Bond.

Então não se conteve, enterrou o rosto nas mãos e começou a soluçar.

“Desculpe-me”, disse, com a voz abafada. “Perdoe-me”. Procurou um lenço na bolsa. “Foi tudo minha culpa”. Enxugou os olhos. “Eu sei que foi tudo minha culpa”.

Foi a vez de Bond ter pena da moça. Pousou a mão envolta em gazes no joelho de Vésper.

“Não fique assim, Vésper. Desculpe-me por ter sido tão rude. É que eu estava com inveja de você tomando sol, enquanto eu estou preso aqui. Assim que puder, nós iremos à sua praia. Eu não desejo outra coisa neste mundo, claro. Sair daqui será uma coisa maravilhosa”.

Ela apertou a mão de Bond, levantou-se e caminhou até a janela. Pouco depois retocou a maquilagem. E voltou para o lado da cama.

Bond olhou-a com ternura. Como todos os homens frios e durões, facilmente deixava transbordar seus sentimentos. Ela era muito bonita e Ele sentiu um grande carinho por ela. Decidiu fazer com que suas perguntas parecessem tão fáceis quanto possível.

Ofereceu um cigarro à moça e durante algum tempo falaram sobre a visita do chefe da s, sobre as diversas reações de Londres ao fim de Le Chiffre.

Do que ela dizia, deduzia-se que o objetivo final do plano tinha sido mais do que cumprido. A estória estava sendo divul gada no mundo inteiro e correspondentes da maioria dos jornais ingleses e norte-americanos tinham estado em Royale tentando localizar o milionário da Jamaica que derrotara Le Chiffre nas mesas de jogo. Tinham conseguido chegar até Vésper, mas ela disfarçara muito bem, dizendo que Bond partira para Cannes c Monte Cario, onde jogaria o dinheiro que ganhara em Royale. A caçada transferiu-se então para o sul da França. Mathis e a polícia fizeram com que as outras pistas desaparecessem, e os jornais tiveram de concentrar sua atenção no que estava aconte cendo em Estrasburgo.

“Incidentalmente, Vésper”, disse Bond, depois de algum tempo, “o que aconteceu realmente depois que você deixou a boate? Eu só vi o rapto”. E contou à moça, em poucas palavras, a cena que presenciara diante do cassino.

“Acho que perdi a cabeça”, disse Vésper, evitando olhar para Bond. “Quando não encontrei Mathis no salão de entrada, saí e o porteiro perguntou se eu era miss Lynd. Depois, disso que o homem que enviara o bilhete me esperava num carro, à direita da escadaria. Isto não me surpreendeu, não sei como. Só conhecera Mathis dois dias antes e não sabia como costumava trabalhar. Simplesmente fui em direção ao carro, que estava bem à direita e mais ou menos no escuro. No momento em que me aproximava, os dois homens de Le Chiffre pularam de trás dos outros carros estacionados e levantaram minha saia”.

Vésper corou.

“Parece um truque infantil”, olhou com um certo sentimento de culpa para Bond, “mas é assustadoramente eficiente. A gente fica completamente presa e apesar de ter gritado acho que não se ouviu nada. Espinoteei o mais que pude, mas não adiantou. Não enxergava nada e meus braços estavam fora de ação. Então eles me atiraram no banco de trás do carro. Continuei lutando e, quando o carro começou a andar, enquanto eles amarravam uma corda na saia, acima de minha cabeça, consegui libertar um braço e jogar minha bolsa pela janela. Espero que tenha sido útil”.

Bond concordou com a cabeça.

“Foi realmente um gesto instintivo. Pensei que você não teria a menor idéia do que me acontecera e então fiz a primeira coisa que me veio à cabeça”.

Bond sabia que, na verdade, aqueles homens estavam atrás dele e que, se Vésper não tivesse atirado a bolsa, eles mesmos se encarregariam de fazê-lo assim que o vissem aparecer na escadaria.

“Claro que ajudou”, disse Bond. “Mas por que você não deu nenhum sinal de vida quando eu falei com você no carro, depois do desastre? Naquela hora fiquei muito preocupado. Pensei que você estivesse sem sentidos, que tivessem batido em você, ou qualquer coisa semelhante”.

“Acho que estava inconsciente”, disse Vésper. “Desmaiei uma vez por falta de ar e, quando voltei a mim, eles tinham aberto um buraco na frente do meu rosto. Devo ter desmaiado novamente. Não me lembro de mais nada, até que chegamos à vila. Só percebi que você havia sido capturado quando você correu atrás de mim, no corredor”.

“E eles não a tocaram?” perguntou Bond. “Não tentaram fazer nada com você enquanto eu estava sendo torturado?”

“Não”, respondeu Vésper. “Deixaram-me em paz, numa cadeira de braços. Beberam e jogaram cartas. Depois, dor miram. Tenho a impressão de que foi assim que o agente da Smersh os surpreendeu. Amarraram minhas pernas na cadeira e me colocaram num canto, contra a parede. Não vi nada do agente da Smersh. Ouvi um barulho estranho. Um deles pareceu cair da cadeira. Depois ouvi passos abafados e uma porta se fechou; e nada mais aconteceu até a chegada de Mathis e da polícia, horas mais tarde Dormi a maior parte do tempo. Não tinha idéia do que acontecera com você, mas” — falseou a voz — “uma hora ouvi um grito horrível. Parecia vir de muito longe. Isto é, acho que foi um grito. Mas naquela hora pensei que pudesse ter sido um pesadelo”.

“Também acho que foi meu grito”, disse Bond.

Vésper pegou a mão de Bond. Seus olhos encheram-se de lágrimas.

*”É horrível”, disse ela. “As coisas que fizeram com você. E foi tudo minha culpa. Se eu…”

Novamente enterrou o rosto entre as mãos.

“Não se preocupe com isso”, disse Bond, reconfortando-a. “O que passou, passou. Está tudo acabado e graças a Deus não fizeram nada com você.” Acariciou o joelho da moça. “Só to cariam em você depois de me amaciar bastante. Precisamos agradecer à Smersh. Mas vamos, tente esquecer tudo isso. Você não tem culpa nenhuma. Qualquer um cairia, com aquele bi lhete. E, de qualquer maneira, são águas passadas”, concluiu Bond, em tom jocoso.

Entre as lágrimas, Vésper encarou-o agradecida. “Você realmente pensa assim?” perguntou. “Pensei que nunca mais me perdoasse. Eu… tentarei recompensá-lo. De alguma maneira”. Olhou para Ele.

De alguma maneira? pensou Bond consigo mesmo. Olhou para ela. Estava sorrindo para Ele. Sorriu de volta.

“Tome cuidado”, disse Ele. “Posso cobrar esta promessa a qualquer momento”.

Ela encarou-o firmemente, mas nada disse. O enigmático desafio, porém, continuava de pé. Vésper levantou-se e apertou a mão de Bond. “Uma promessa é uma promessa”.

Desta vez os dois sabiam que espécie de promessa era aquela.

Vésper pegou a bolsa que estava em cima da cama c enca minhou-se para a porta.

“Posso voltar amanhã?” olhou seriamente para Bond.

“Sim, por favor, Vésper”, respondeu Ele. “Eu gostaria muito. E, por favor, não deixe de lado suas explorações da costa. Será muito divertido pensar no que poderemos fazer quando eu me levantar. Você promete pensar nisso?”

“Sim”, respondeu ela. “Fique bom depressa, por favor”.

Fitaram-se durante algum tempo. Então ela saiu, fechou a porta, e Bond ficou escutando os passos de Vésper no corredor, até que eles desaparecessem por completo.


Desse dia em diante, a recuperação de Bond foi bastante rápida.

Sentado na cama, escreveu o relatório para M, passando meio por cima do que considerava o comportamento amador de Vésper. Dando ênfase ao rapto, Fez com que Ele parecesse muito mais maquiavélico do que o fora na realidade. Elogiou a frieza e a compostura de Vésper durante o episódio, sem dizer que achara algumas de suas atitudes realmente inconcebíveis.

Vésper ia visitá-lo diariamente, e Ele aguardava esses mo mentos com emoção. Ela contava alegremente as aventuras do dia anterior, as explorações pela costa, os restaurantes onde estivera. Ficara amiga do chefes de polícia e do diretor do cassino, e eles a levavam às vezes para um passeio à noite, ou empres tavam ocasionalmente seus automóveis durante o dia. Acompa nhava os consertos do Bentley, que tinha sido rebocado para uma oficina autorizada de Ruão, e providenciou até para que al gumas roupas novas fossem mandadas do apartamento de Bond, em Londres, para Royale. Das roupas que Bond tinha no hotel nada sobrara. Tudo tinha sido cortado em tiras, à procura dos 40 milhões.

Nunca mencionavam o caso Le Chiffre. Às vezes ela con tava estórias engraçadas sobre o escritório do chefe da S em Londres e Ele retribuía com suas aventuras no Serviço Secreto.

Descobriu que tinha facilidade para conversar com ela, e ficou surpreso.

Com quase todas as mulheres, agia de maneira meio taci turna, meio apaixonada. O longo tempo que levava para sedu zir uma mulher aborrecia-o tanto quanto as encrencas que su cediam à separação. A parábola convencional — sentimento, mãos que se tocam, um beijo, um beijo apaixonado, corpos que se tocam, o clímax na cama, mais cama, menos cama, aborre cimentos, lágrimas, amargura final — era para Ele uma coisa vergonhosa e hipócrita. Cada vez mais evitava o mise-en-scène para cada um desses atos da peça — o encontro numa festa, o restaurante, o táxi, o apartamento dele ou o dela, o fim de se mana numa praia, outra vez os apartamentos, os álibis furtivos, e o triste adeus final à porta da rua num dia de chuva.

Mas com Vésper não poderia acontecer nada disso.

Naquele quarto sem graça e durante aquele tratamento mais sem graça ainda, a presença de Vésper era diariamente um oásis de prazer, algo que Ele esperava com ansiedade. Em tudo o que conversavam havia uma profunda camaradagem, com um toque distante de paixão. Como pano de fundo, havia a certeza da promessa que, no momento certo, seria cumprida.

Bond recuperava-se a passos largos. Permitiram que Ele se levantasse Depois, permitiram que Ele se sentasse no jardim. Depois, pôde dar um pequeno passeio a pé e logo após um longo passeio de automóvel. E chegou o dia em que o médico veio de Paris para fazer-lhe uma rápida visita e deu-lhe alta. Vésper trouxe suas roupas, os dois disseram adeus às enfermeiras e par tiram num carro alugado.

Havia três semanas Bond estivera às portas da morte. Agora estavam em julho e o calor do verão pairava na costa e mar afora. Bond guardou esse instante na lembrança.

O destino que tomariam seria uma surpresa para Ele. Não queriam voltar para um dos grandes hotéis de Royale, e Vésper disse que achara um lugar longe da cidade. Mas insistia em fazer mistério e dizia somente que Ele gostaria do lugar que encontrara. O fato de estar nas mãos da moça alegrava Bond, mas Ele escondia esta rendição enumerando as delícias campestres: banhei ros fora de casa, percevejos e baratas.

O passeio foi estragado por um curioso incidente.

Quando seguiam pela costa na direção de Les Noctambules, Bond descreveu a furiosa perseguição ao Citroen, mostrando a curva antes do desastre e o local exato em que o perigoso ta pete de pregos fora estendido. Pediu ao chofer que diminuísse a velocidade e debruçou-se para mostrar os cortes profundos feitos pelos aros das rodas no asfalto; os galhos quebrados das moitas e a mancha de óleo* onde o carro tinha parado.

Mas durante toda esta narrativa Vésper estivera distraída e só Fez alguns comentários monossilábicos. Uma ou duas vezes, Ele a surpreendeu olhando pelo espelhinho retrovisor. Mas quan do Ele olhou para trás, pelo vidro traseiro não conseguiu ver nada porque haviam entrado numa curva.

Finalmente, segurou a mão da moça.

“O que é que você tem, Vésper?” perguntou.

Ela respondeu com um sorriso franco e alegre. “Não o nada. Nada mesmo. Mas tive a sensação idiota de que estáva mos sendo seguidos. Acho que estou nervosa. Esta estrada está repleta de fantasmas”.

Encoberta por um rápido sorriso, olhou novamente para trás.

“Veja”. Havia um leve sinal de pânico em sua voz.

Bond obedeceu e olhou para trás. Realmente, a uns tre zentos metros, um automóvel preto aproximava-se dele em boa velocidade.

Bond riu.

“Nós não somos os únicos a usar esta estrada”, disse ele. “De qualquer maneira, quem nos seguiria? Não fizemos nada de errado”. Deu uma palmadinha na mão da moça. “Trata-se de um caixeiro-viajante de meia idade, que vende pasta para polir automóveis, a caminho do Havre. Provavelmente está pen sando no almoço e na amante que tem em Paris. Francamente, Vésper, eu acho que você não deve pensar mal dos inocentes”,

“Espero que você tenha razão”, disse ela, nervosamente. “De qualquer maneira, estamos chegando”.

E ficou quieta, olhando pela janela.

Bond pressentiu que ela ainda estava tensa. Sorriu para si mesmo, encarando aquilo como uma espécie de ressaca das aventuras que haviam vivido. Mas decidiu brincar com ela e, quando chegaram a uma estrada estreita que levava ao mar, e diminuíram a velocidade para entrar nela, disse ao motorista que parasse logo que estivessem fora da estrada principal.

Encobertos pela sebe alta, ficaram olhando pela janela do trás.

Entre os barulhos típicos de um dia de verão, ouviram o ronco de um carro que se aproximava. Vésper cravou as unhas no braço de Bond. A velocidade do carro não se alterou ao aproximar-se do local onde eles estavam escondidos, de modo que só tiveram a visão rápida de um perfil de homem, quando o automóvel preto passou.

É verdade que aparentemente Ele olhou depressa para o lado, em direção a eles, mas acima do local em que estavam havia um cartaz pintado de cores alegres, indicando a estradinha e anunciando “L’Auberge du Fruit Défendu, crustaces, fritures”. Para Bond, era óbvio que fora aquele cartaz que chamara a atenção do motorista.

Enquanto o ronco do escapamento do carro preto se per dia pela estrada, Vésper afundou-se no canto do banco. Estava pálida.

“Ele olhou para nós”, disse ela. “Eu disse a você. Eu sabia que estávamos sendo seguidos. Agora eles sabem onde estamos”.

Bond não conseguiu conter sua impaciência. “Que boba gem!”, disse Ele. “O homem estava olhando para aquele cartaz ali”. Apontou-o para Vésper.

Ela pareceu levemente aliviada. “Você acha que sim? Mes mo?” perguntou. “Sim. Agora vejo. É claro, você deve estar certo. Puxa. Desculpe a minha burrice. Não sei o que me acon teceu”.

Inclinou-se para a frente, disse umas palavras ao motorista c o carro partiu. Ela se recostou no banco e virou-se para Bond com uma cara alegre. A cor já havia praticamente voltado a seu rosto. “Sinto muito, de verdade. É só que — é que não posso acreditar que esteja tudo acabado e que não tenho de ter medo de mais ninguém”. Apertou a mão de Bond. “Você deve me achar muito burra”.

“Claro que não”‘, respondeu Bond. “Falando sério: acho que agora ninguém mais está interessado em nós dois. Esqueça tudo o que aconteceu. Acabou tudo. Estamos em férias e não há uma nuvem no céu. Ou há?” insistiu.

“Não, claro que não”. Ela balançou a cabeça. “Estou louca. Estamos chegando. Espero sinceramente que você goste do lugar”.

Inclinaram-se ambos para a frente. Suas expressões esta vam animadas novamente e o incidente só deixou um pequeno sinal de interrogação no ar. Mas até isso desapareceu quando deixaram as dunas e divisaram o mar e o hotelzinho modesto entre os pinheiros.

“Não é uma coisa grandiosa”, disse Vésper, desculpando-se, “mas é muito limpo e a comida é excelente”. Voltou-se an siosa para Bond.

Mas não tinha motivo algum para preocupar-se. Bond adorou o lugar à primeira vista — o terraço quase entrando no mar, o sobradinho com toldos alegres cor de tijolo sobre as ja nelas, e a baía em forma de lua crescente, de água azul e areia dourada. Quantas vezes na vida Ele teria dado tudo para sair de uma estrada e achar um canto perdido como este, onde poderia deixar que o mundo seguisse seu curso e onde viveria no mar de manhã até a noite. Durante uma semana, teria tudo isso. E Vésper também. Bond agradeceu em pensamento a semana que começava naquele momento.

Chegaram ao pátio atrás da casa, e o proprietário e sua mulher saíram para recebê-los.

Monsieur Versoix era um homem de meia idade, que tinha um braço só. Perdera o outro durante a guerra, em Madagas car. Era amigo do chefe de polícia de Royale, que indicara o lugar a Vésper e falara com o proprietário pelo telefone, avisan do a chegada dos dois. Como conseqüência, para eles nada seria bom demais.

Madame Versoix deixara a preparação do jantar pelo meio, a fim de recebê-los. Estava de avental e segurava uma colher de pau na mão. Era mais nova que o marido, gordinha, bonita, com um olhar meigo. Instintivamente, Bond adivinhou que era um casal sem filhos e que esse amor frustrado eles dividiam com os amigos e alguns hóspedes antigos, e provavelmente com alguns bichinhos também. Talvez levasse uma vida difícil e o pequeno hotel deveria ser muito triste no inverno, com o mar alto e o vento fazendo barulho nos pinheiros.

O proprietário acompanhou-os até os quartos.

Vésper tinha um quarto duplo e o de Bond era ao lado, no canto da casa, com uma janela dando para o mar e a outra abrangendo um braço distante da baía. Entre os quartos havia um banheiro. Tudo muito limpo, confortável e simples.

Quando os dois manifestaram prazer por estar no hotelzi nho, o proprietário ficou muito contente. Anunciou que o jantar seria às sete e meia e que madame la patronne estava prepa rando lagostas grelhadas com manteiga derretida. Sentia muito que o ambiente fosse tão quieto. Mas era terça-feira. No fim de semana, haveria mais gente. A estação não fora muito boa. Geralmente vinham muitos ingleses, mas os tempos estavam di fíceis na Grã-Bretanha e os ingleses vinham só passar o fim de semana em Royale e iam logo embora, depois de perder no cassino o dinheiro que traziam. Não, não era como nos velhos tempos. Filosòficamente, encolheu os ombros. Mas também, ne nhum dia é igual ao que passou, como nenhum século é igual ao que passou, e. ..

“Isso mesmo”, concordou Bond.


ESTA conversa se desenrolava à soleira da porta do quarto de Vésper. Quando o proprietário do hotel saiu, Bond empurrou a moça para dentro e fechou a porta. Se gurou-a pelos ombros e beijou-a nas duas faces.

“Parece que estou no céu”, disse Ele.

E percebeu que os olhos de Vésper brilhavam. Ela descan sou as mãos nos braços de Bond e Ele puxou-a para si, envolvendo-a pela cintura.

“Meu amor”, disse Ele. E beijou-a, sentindo que ela res pondia timidamente a princípio, e depois apaixonadamente. Bond apertou firmemente o corpo da moça contra o seu. Res pirando forte, Vésper virou a cabeça e os dois ficaram agarra dos, quietos; Bond roçou os lábios na orelha da moça, sentindo o calor e a firmeza de seus seios contra Ele. Então segurou-a pelos cabelos, forçando sua cabeça para trás, até poder beijá-la de novo. Ela o afastou e caiu exausta na cama. Olharam-se com desejo.

Bond aproximou-se, sentando-se ao lado dela na cama. Voltaram a olhar-se, desta vez com preguiçosa ternura, enquan to a maré de paixão transbordava pelo sangue que corria na queles dois corpos.

Vésper inclinou-se e beijou-o no canto da boca. Depois afastou a mecha de cabelo preto que caía na testa suada de Bond.

“Meu amor”, disse ela. “Dê-me um cigarro. Não sei onde está minha bolsa”. E olhou vagamente pelo quarto.

Bond acendeu um cigarro e colocou-o entre os lábios de Vésper. Com um suspiro vagaroso, ela soltou a primeira bafo rada de fumaça. Bond enlaçou-a com os braços, mas ela se desvencilhou, levantou-se e andou até a janela. Ficou parada, de costas para Ele.

Bond sentiu que suas mãos ainda estavam tremendo.

“O jantar ainda demora um pouco”, disse Vésper, sem olhar para Ele. “Por que você não aproveita para tomar um banho? Deixe que eu tiro as suas coisas da mala”.

Bond levantou-se, andou até a janela, e encostou-se em Vésper. Enlaçou-a novamente e ela segurou suas mãos, mas ainda olhando pela janela, desligada.

“Agora não”, comentou, com voz rouca.

Bond beijou-a na nuca. Apertou-a firmemente contra si, depois largou-a.

“Está bem, Vésper”.

Encaminhou-se para a porta, parou e olhou para trás. Ela não se mexera.

Sem saber explicar por quê, Bond achou que ela estava chorando. Chegou a dar um passo para voltar, mas concluiu que não havia nada a dizer.

Disse somente: “Meu amor”.

Saiu e fechou a porta.

Entrou em seu quarto e sentou-se na cama. Sentia-se fraco depois da onda de paixão que atravessara seu corpo. Não sabia se descansava um pouco ou se dava um mergulho no mar, para reviver e refrescar-se. Brincou um pouco com esta dúvida, de pois foi até a mala e dela tirou um calção de linho branco c um pijama azul-marinho.

Bond sempre detestara pijamas e sempre dormira nu até o fim da guerra, quando encontrou em Hong-Kong um perfeito meio-termo. Era um paletó de pijama que vinha até o joelho. Não tinha botões e era amarrado com um cinto frouxo na cin tura. As mangas largas e curtas não passavam do cotovelo. O resultado era uma espécie de meio-quimono fresco e confortável.

Bond vestindo sobre o calção, cobrindo assim todas as cicatrizes que tinha no corpo, exceto as marcas finas e brancas nos pulsos e nos tornozelos, e a marca da Smersh na mão direita.

Enfiou os pés num par de sandálias azul-marinho e foi para a praia. Quando se aproximava do mar, pensou em Vésper, mas evitou olhar para cima para ver se ela ainda estava à janela.

Andou pela beira da praia, sobre a areia dura e dourada, até perder o hotel de vista. Então tirou o paletó e, dando uma corrida curta, mergulhou no mar raso. Ficou embaixo d’água enquanto agüentou. Depois veio à tona e tirou o cabelo dos olhos. Eram quase sete horas e o sol praticamente já perdera o calor. Mas estava bem na frente de Bond que, para aproveitar seus últimos raios, virou-se de costas para a água e boiou em sentido contrário ao poente.

Quando voltou à praia, a sombra da noite já escondera seu paletó. Bond deitou-se na areia e, olhando o céu vazio e azul, pensou em Vésper.

Seus sentimentos estavam confusos com relação à moça e essa confusão deixava-o impaciente. Era tudo tão simples! Bond quisera dormir com ela na primeira oportunidade porque a desejava e também porque — admitia para si mesmo — que ria friamente fazer uma prova com o seu processo de recupera ção . Eles dormiriam juntos algumas vezes e depois Ele a veria de vez em quando, em Londres. Viria então a inevitável ruptu ra, que seria muito mais fácil em virtude das posições que eles ocupavam no Serviço Secreto. Se não fosse tão fácil assim, Ele sempre podia partir para um serviço fora do país — o que estava dentro de sues planos — ou então pedir demissão e viajar pelo mundo inteiro, como sempre desejara. **

Mas ela já estava tão fortemente entranhada no corpo de Bond que, nas duas últimas semanas, Ele já a via de maneira diferente. Achava sua companhia fácil e agradável. Havia certo ar enigmático, que o estimulava constantemente. Vésper mos trava muito pouco de sua verdadeira personalidade e Ele achava que, por mais tempo que estivessem juntos, haveria sempre nela algo de secreto que jamais conseguiria descobrir.

Levantou-se e sacudiu a areia. Pensou em tomar um banho assim que chegasse ao hotel. E pôs-se a caminhar de volta. Nesse momento, já havia tomado uma decisão.


FICOU contente ao entrar no quarto e ver suas coisas todas arrumadas, a escova de dentes e o aparelho de barbear num dos extremos da prateleira do banheiro e, no outro extremo, a escova de dentes dela e um ou dois vidros e um pote de creme para a pele.

Examinou os vidrinhos e surpreendeu-se ao verificar que um deles continha pílulas para dormir. Talvez os nervos de Vésper estivessem mais abalados do que imaginara.

Ela enchera a banheira para Ele, deixando até um vidro de sais de banho numa cadeira ao lado, junto com uma toalha.

“Vésper?” chamou Bond. “Sim?”

“Você é mesmo o máximo. Trata-me como se eu fosse um gigolô de luxo. Quer casar comigo?”

A resposta foi um resmungo. “Você quer uma escrava, não uma esposa”.

“Eu quero você”.

“E eu quero lagosta com champanha, por isso ande depressa

“Está bem, está bem”.

Enxugou-se, vestiu uma camisa branca e calças azul-escuro. Esperava que ela se tivesse vestido com a mesma simplicidade e ficou contente quando, sem bater à porta, Vésper lhe apare ceu com uma blusa de linho azul, quase da cor dos seus olhos, e uma saia grená de algodão.

“Não pude esperar. Estou faminta. Meu quarto fica em cima da cozinha e é uma tortura o cheiro maravilhoso que vem dela”.

Ele a abraçou pela cintura.

De mãos dadas, desceram para o terraço, onde a mesa fora posta sob a luz que vinha do salão de jantar vazio.

O champanha que Bond pedira ao chegar já estava num balde de gelo e Ele encheu duas taças. Vésper se ocupava com um delicioso patê feito-em-casa, com o pão francês e com os quadradinhos de manteiga gelada.

Olharam-se e beberam profundamente e Bond encheu de novo as duas taças.

Enquanto comiam, Bond contou como fora o banho de mar e fizeram planos para o dia seguinte. Não falaram dos seus sen timentos recíprocos durante a refeição, mas nos olhos dos dois havia uma excitada antecipação da noite que passariam juntos. De vez em quando, para diminuir a tensão de seus corpos, dei xavam que seus pés e suas mãos se tocassem.

Depois da lagosta, da segunda garrafa de champanha, e do morango com creme, Vésper deu um profundo suspiro de con tentamento.

E falou, feliz: “Você sempre me dá as coisas que eu mais gosto. Nunca fui tão mimada na vida”. Olhou para a baía enluarada. “Gostaria de merecer tudo isso”.

“O que é que você quer dizer com isso?” perguntou Bond, surpreso.

“Não sei. Mas acho que as pessoas recebem o que merecem; então talvez eu mereça tudo isso”.

Ela olhou para Ele e sorriu. Tinha nos olhos um ar de de safio.

“Realmente, você não sabe muita coisa a meu respeito”.

Bond ficou surpreso com o tom de seriedade que havia na voz de Vésper.

E respondeu sorrindo. “Sei o bastante. O bastante para hoje, amanhã, depois e depois. Aliás, você também não sabe muita coisa a meu respeito. . .” Serviu mais champanha.

‘intrigada, ela olhou para Ele.

E disse: “As pessoas são como ilhas. Na verdade não se tocam. Por mais perto que se sintam, estão muito separadas. Mesmo que estejam casadas 50 anos”.

Desanimado, Bond achou que ela estava ficando deprimida por causa do champanha. Mas ela riu feliz. “Não fique preo cupado”. Inclinou-se e segurou-o pela mão. “Às vezes fico um pouco sentimental. De qualquer modo, minha ilha está muito perto da sua, hoje.” Tomou um golinho de champanha. Bond sorriu, aliviado. “Então vamos nos juntar e fazer uma penín sula. Logo depois destes morangos”, disse Ele.

Com um toque de malícia, ela respondeu: “Não. Preciso tomar café”.

“E conhaque”, acrescentou Bond.

Mais uma nuvem entre eles acabava de desfazer-se, dei xando um pequeno sinal de interrogação no ar, que logo se des fez, quando a intimidade e a ternura voltaram a envolvê-los.

Depois do café, quando Bond bebericava um conhaque, Vésper pegou a bolsa, levantou-se e colocou-se ao seu lado.

“Estou cansada”, disse, pousando a mão no ombro de Bond.

Ele enlaçou-a e juntos ficaram extáticos durante alguns momentos. Ela abaixou-se e beijou-o nos cabelos. Depois foi embora. Segundos depois, acendia-se uma luz em seu quarto.

Fumando, Bond esperou que a luz se apagasse. Então su biu também, depois de dizer boa noite ao casal Versoix e de agradecer o ótimo jantar.

Às nove e meia, Ele fechou a porta do banheiro e entrou no quarto de Vésper.

A lua brilhava entre as venezianas mal fechadas, derramando-se pela cama larga, entre as sombras secretas daquele corpo de neve.

De madrugada, Bond acordou em seu próprio quarto e du rante algum tempo ficou acariciando a lembrança da noite que chegava ao fim.

Levantou-se rapidamente, atravessou o quarto de Vésper e dirigiu-se para a praia.

Na alvorada o mar estava quieto e liso. Pequenas ondas lambiam preguiçosamente a areia. Estava frio, mas Bond.en trou devagar e deliberadamente na água, até que esta alcançasse seu queixo. Mergulhou, fechando os olhos e segurando o nariz com a mão.

Nadou e boiou durante algum tempo. Quando o sol es quentou, voltou à praia, deitou-se de costas e ficou admirando o próprio corpo, que a noite lhe restituíra.

Como na tarde anterior, olhou para o céu e nele encontrou a mesma resposta. Hoje Ele pediria a Vésper para casar-se com Ele. Estava absolutamente seguro do que iria fazer. Agora era só uma questão de escolher o momento certo.


QUANDO entrou pelo terraço no salão de refeições ainda fechado, ficou surpreso ao ver que Vésper deixava a cabine telefônica silenciosamente e subia as escadas em direção ao quarto.

“Vésper”, chamou, pensando que ela tivesse algum recado urgente que pudesse interessar a ambos.

Ela virou-se depressa, com a mão na boca.

Encarou-o com os olhos bem abertos durante algum tem po mais do que o necessário.

“O que há, meu bem?”, perguntou Ele, levemente preo cupado, temendo uma crise.

“Oh!”, respondeu ela, sem fôlego. “Você me assustou. Não é nada. Eu. . . eu estava ligando para Mathis. Para Mathis”, repetiu. “Para pedir a Ele que me arranje outro vestido. Com aquela amiga que eu contei para você. A vendedora. Sabe por quê?” — falava rapidamente, as palavras saíam numa torrente persuasiva. “Não tenho nada para pôr. Liguei agora porque assim falaria com Ele em casa, antes de sair para o escritório. Não sei o número de telefone da minha amiga e queria fazer uma surpresa a você. Não queria que me ouvisse e acordasse. A água está boa? Você deveria ter esperado por mim”.

“A água está ótima”, respondeu Bond, decidindo não in quietá-la, apesar de ter ficado irritado com a evidente culpa dela neste mistério infantil. “Dê um mergulho e depois tomaremos café no terraço. Estou morrendo de fome. Sinto ter assustado você. Mas também fiquei espantado ao ver uma pessoa por aqui a esta hora da manhã”.

Colocou os braços em volta dela, mas ela se libertou, su bindo rapidamente as escadas.

“Fiquei tão surpresa ao vê-lo!”, disse ela, procurando en cobrir o incidente.

“Você parecia um afogado, um fantasma, com os cabelos caindo nos olhos”. E deu um riso forçado. Sentindo que era forçado demais, transformou o riso em tosse.

“Espero não ter apanhado um resfriado”, acrescentou.

Vésper continuou tentando consertar aquela série de men tiras tão evidentes a ponto de Bond sentir vontade de dar nela e de exigir que ela ficasse à vontade e contasse a verdade. Em vez disso, deu-lhe uma palmadinha nas costas, como se a aju dasse a acalmar a tosse, e pediu-lhe que se apressasse e tomasse banho logo.

Depois, entrou em seu próprio quarto.

Ficou assim dissolvida a integridade daquele amor. Os dias que se sucederam foram um rosário de falsidade e hipo crisia, tudo misturado com lágrimas e momentos de paixão ani mal aos quais ela se abandonava com uma luxúria que se tor nava indecente em conseqüência do vazio daqueles dias.

Diversas vezes Bond tentou transpor aquele muro de des confiança. Muitas e muitas vezes trouxe à baila aquele telefo nema; ela obstinadamente insistia em acrescentar pormenores que Bond sabia terem sido imaginados depois. Ela até acusou Bond de pensar que tinha outro amante.

Inevitavelmente estas cenas terminavam com lágrimas amar gas e momentos de quase histerismo.

Dia a dia a atmosfera tornava-se mais detestável.

Bond achava fantástico que relações humanas pudessem desmoronar tão rapidamente e procurava em vão achar uma ex plicação para isso.

Sentia que Vésper estava tão horrorizada quanto Ele mes mo e que parecia sofrer ainda mais. Mas o mistério do telefo nema — ela se recusava a esclarecer, quase amedrontada, com raiva — era uma sombra que se tornava mais escura com outros pequenos mistérios e reticências.

As coisas pioraram naquele dia, durante o almoço.

Depois do café da manhã, que fora um esforço para ambos, Vésper alegara dor de cabeça e subira para o quarto, a fim de ficar longe do sol. Bond pegou um livro e andou quilômetros pela praia. Quando voltou, estava decidido a resolver o problema durante o almoço.

Logo que se sentaram, desculpou-se mais uma vez de tê-la assustado na cabine telefônica e passou a descrever o que vira durante o passeio.

Mas Vésper estava distraída, e só fazia comentários com monossílabos. Brincava com a comida, evitava o olhar de Bond, e parecia estar preocupada com outra coisa qualquer.

Depois que ela deixou de responder a umas duas coisas, Bond também resolveu ficar #m silêncio, imerso em seus som brios pensamentos.

De repente, Vésper levou um susto. Seu garfo caiu com um estrépito na beirada do prato e depois no chão.

Bond olhou para cima. Ela estava branca como um lençol e olhava por cima do ombro dele com uma expressão de ver dadeiro terror.

Bond virou a cabeça para trás e viu que um homem se sentara em uma mesa do terraço, bem longe deles. Parecia um homem qualquer, talvez vestido com uma sobriedade um tanto exagerada. Nesse exame rápido, Bond achou que se tratava de um comerciante qualquer atraído pelo cartaz do hotelzinho ou que escolhera o lugar no guia Michelin.

“O que é, meu bem? perguntou com ansiedade.

Os olhos de Vésper não abandonavam a figura distante.

“É o homem daquele carro”, disse ela, com a voz quase sufocada. “O homem que nos. estava seguindo. Eu sei que é Ele”.

Bond voltou a olhar para trás. O proprietário do hotel es tava apresentando o cardápio ao novo freguês. Era uma cena perfeitamente normal.

Depois que o proprietário se afastou, o homem pareceu perceber que estava sendo observado. Então pegou uma pasta na cadeira ao lado, dela tirou um jornal e pôs-se a ler, com os cotovelos apoiados na mesa. Quando virou a cabeça para o lado deles, Bond percebeu que Ele usava uma venda preta no olho. Não estava, porém, amarrada com uma fita sobre o olho, mas encaixada como um monóculo. Se não fosse por isso, pareceria um homem de meia idade, agradável, cabelos castanhos escova dos para trás e dentes particularmente grandes e brancos, segun do Bond observara enquanto Ele falava com o proprietário do hotel.

Virou-se para Vésper. “Meu bem, Ele realmente me parece inocente. Tem certeza de que é o nosso homem? De qualquer maneira, não podemos pretender que este lugar seja só nosso”.

O rosto de Vésper ainda era uma máscara branca. Suas mãos estavam fortemente agarradas à beirada da mesa. Bond pensou que ela fosse desmaiar e Fez menção de levantar-se para ajudá-la. Mas ela Fez um gesto para detê-lo. Tentou beber um gole de vinho, mas bateu com o copo nos dentes e teve de se gurá-lo também com a outra mão para poder beber. Botou o copo de novo na mesa.

Olhou para Bond com uma expressão séria. “Eu sei que é o mesmo homem”.

Bond tentou argumentar, mas ela não prestou atenção. De pois de olhar uma ou duas vezes na direção do homem com uma curiosa submissão, Vésper disse que ainda estava com mui ta dor de cabeça e que passaria a tarde inteira no quarto. Le vantou-se e saiu da sala sem olhar para trás.

Bond pediu café, depois levantou-se e caminhou até o pátio. O Peugeot preto que lá estava poderia realmente ser o mesmo automóvel preto que os seguira na estrada, mas poderia tam bém ser um dos milhares de Peugeots pretos que circulavam pelas estradas francesas. Bond examinou rapidamente o interior do carro, que estava vazio, tentou abrir a porta, mas estava tran cada. Anotou o número da chapa, entrou no banheiro que ficava ao lado do salão de refeições, puxou a descarga e voltou ao ter raço.

O homem estava comendo e nem se incomodou com o apa recimento de Bond, que se sentou na cadeira de Vésper, para vigiar a outra mesa melhor.

Minutos depois, o homem pediu a conta, pagou-a e saiu. Bond ouviu a partida do Peugeot e o ronco de seu escapamento desaparecer na direção de Royale.

Quando o proprietário do hotel veio até sua mesa, Bond explicou que Madame infelizmente tinha tomado um pouco da sol demais. O proprietário estimou as melhoras de Madame o enquanto enumerava os perigos de se expor a qualquer tipo da tempo, Bond perguntou casualmente pelo outro freguês. “Ele se parece muito com um amigo meu que também perdeu uma vista. Os dois usam aquele mesmo tipo de venda preta no olho”.

O proprietário respondeu que se tratava de um estranho. Gostara muito da comida e até dissera que voltaria dentro de um ou dois dias. Aparentemente era suíço, pelo sotaque com que falava. Era caixeiro-viajante e vendia relógios.

Quando Bond se levantou, teve uma idéia: “A propósito. Madame falou pelo telefone com Paris e eu não quero esquecer de pagar. Acho que foi para um número nos Elysées”, acres centou, lembrando que Mathis morava naquele bairro.

“Muito obrigado, Monsieur, mas já está tudo resolvido. Eu estava falando hoje com a telefonista de Royale e ela contou que um de meus hóspedes tentara falar com Paris, mas que o telefone de lá não respondera. E ela queria saber se Madame queria tentar de novo. Acho que esqueci de perguntar a ela. Mas — espere um pouco — o número que a telefonista me disse era nos Invalides”.


Os dois dias que se seguiram foram iguais.

Quatro dias depois de terem chegado ao hotelzinho, Vésper foi a Royale bem cedinho. Um táxi veio buscá-la e a trouxe de volta. Ela alegou que precisava de uns remédios.

À noite, ela Fez um esforço especial para mostrar-se ale gre. Bebeu muito e quando subiram ela o conduziu ao quarto e entregou-se apaixonadamente. O corpo de Bond respondeu com a mesma intensidade; mas depois ela chorou amargamente no travesseiro e Bond voltou para a sua cama desesperado.

Mal conseguiu dormir e bem cedinho ouviu que a porta do quarto dela se abria silenciosamente. Veio da escada o ruído de passos leves. Depois um barulho na cabine telefônica. E logo em seguida Ele ouviu que a porta do quarto dela se fechava si lenciosamente de novo. Imaginou que outra vez ela não obtivera resposta de Paris.

Isso foi no sábado.

No domingo, o homem da venda preta estava de volta. Bond soube-o quando, ao levantar a vista do prato, viu o rosto dela. Contara a Vésper tudo o que soubera através de Monsieur Versoix, menos a declaração de que o homem voltaria. Tinha certeza de que ela ficaria preocupada.

Bond também telefonara para Paris, pedindo a Mathis para informar-se sobre a chapa do Peugeot. O carro fora alugado duas semanas antes a uma firma bastante respeitada. O cliente era um suíço. Chamava-se Adolph Gettler. O endereço de Zu rique que fornecera à empresa alugadora do automóvel correspondia a um conhecido banco.

Mathis recorrera à polícia suíça. Sim, havia uma conta no banco com aquele nome. Mas era uma conta pouco usada. Herr Gettler, ao que se sabia, tinha ligações com a indústria relojoeira. Poder-se-ia fazer uma investigação mais apurada, se hou vesse alguma queixa contra Ele.

Diante de todas essas notícias, Vésper simplesmente enco lhera os ombros.

Desta segunda vez, quando o homem apareceu ela deixou o almoço pelo meio e foi diretamente para o quarto.

Quando terminou de almoçar, Bond seguiu-a. As duas por tas estavam trancadas. Bond forçou Vésper a abrir uma porta e quando entrou percebeu que ela tinha estado no escuro junto à janela — espiando para baixo, presumiu Ele.

A moça estava com o rosto petrificado. Bond Fez com que ela se sentasse junto dele na cama. Estavam lado a lado, tensos, como duas pessoas viajando de trem.

“Vésper”, disse Bond, segurando as mãos da moça. “Não podemos continuar assim. Temos de acabar com isso. Estamos nos torturando e só há um jeito de acabar com isso. Ou você me conta o que é que está acontecendo ou então vamos embora já”.

Ela não respondeu.

“Meu amor”, continuou Ele. “Por que você não me conta? Naquela manhã eu ia pedir a você que se casasse comigo. Será que não podemos começar tudo de novo? Que pesadelo terrível é esse que nos está matando?”

A princípio ela nada disse, depois uma lágrima rolou de seus olhos.

“Você quer dizer que se casaria comigo?”

Com a cabeça, Bond Fez que sim.

“Oh, meu Deus!”, gritou Vésper. “Meu Deus!” Agarrou-se a Ele, enterrando o rosto no peito de Bond.

Ele a manteve fortemente apertada. “Conte-me, meu amor”, disse Ele. “Conte-me qual é o problema”.

Aos poucos, os soluços da môça diminuíram.

“Deixe-me um pouco” pediu ela. Sua voz ganhara um novo tom, um tom de resignação. “Deixe-me pensar um pouco”. Segurou o rosto de Bond entre as mãos e beijou-o. “Meu que rido, estou tentando resolver isto tudo da melhor maneira para nós dois. Acredite-me, por favor. Mas é terrível. Estou numa situação apavorante. . .”

Os soluços recomeçaram e ela agarrou-se a Ele como uma criança durante um pesadelo.

Beijando-a docemente e acariciando seus cabelos longos e pretos, Bond tentou acalmá-la.

“Agora saia”, pediu ela. “Preciso pensar durante algum tempo. Precisamos fazer alguma coisa”.

Pegou um lenço no bolso de Bond e enxugou os olhos.

Depois acompanhou-o até a porta, onde se abraçaram for temente. Ele beijou-a, saiu e ela trancou a porta outra vez.

À noite, voltaram quase toda a alegria e a intimidade do primeiro dia. Vésper estava bastante animada, mas alguma coisa de forçado havia na maneira como ria; Bond, porém, estava disposto a acompanhar esse novo estado de espírito e só no fim do jantar é que disse algo que Fez com que ela parasse de falar.

Vésper segurou a mão de Bond.

“Não fale nisso agora”, pediu. “Esqueça isso. Já passou tudo. Amanhã de manha eu lhe conto tudo”.

Olhou bem para Ele e seus olhos encheram-se de lágrimas. Tirou um lenço da bolsa e enxugou-as.

“Quero mais um pouco de champanha”, disse ela, com um sorriso esquisito. Então, ela se levantou, esbarrou na cadeira c riu.

“Acho que estou um pouco alta demais”, disse. “Que ver gonha! Por favor, James, não se envergonhe de mim. Quero tanto ficar alegre! E estou alegre!”

Ela parou ao lado de Bond e enfiou os dedos entre os cabelos pretos dele.

“Suba logo”, disse ela. “Quero muito você esta noite”.

Atirou um beijo para Ele e saiu.

Durante duas horas amaram-se devagar, docemente, num assomo de paixão feliz que Bond, no dia anterior, achava que nunca mais se repetiria. A barreira de desconfiança parecia ter desaparecido; trocaram palavras inocentes e não parecia haver uma sombra entre eles.

Durante algum tempo, Bond dormiu nos braços de Vésper. Depois, ela disse: “Agora, você precisa ir embora”.

Mas, como se quisesse retirar o que acabara de dizer, aper tou-o fortemente, dizendo coisas de amor, colando seu corpo ao dele.

Quando Bond finalmente se levantou e se inclinou de volta para acariciar-lhe os cabelos e beijá-la nos olhos e nos lábios para despedir-se, ela se levantou também e acendeu a luz.

“Olhe para mim”, pediu, “e deixe-me olhar para você”.

Bond ajoelhou-se ao lado dela.

E ela examinou cada linha do seu rosto, como se o visse pela primeira vez. Depois, abraçou-o pelo pescoço. Quando o beijou suavemente, seus olhos azuis estavam banhados em lá grimas. Deixou-o então partir e apagou a luz.

“Boa noite, meu grande amor”, disse ela.

Bond inclinou-se e beijou-a. Sentiu o gosto das lágrimas que lhe rolavam pelas faces.

Foi até a porta e olhou para trás.

“Durma bem, minha querida”, disse Ele. “Não se preo cupe. Agora está tudo bem”.

Fechou a porta suavemente e deitou-se com o coração feliz.


O PROPRIETÁRIO DO HOTEL trouxe-lhe a carta.

Invadiu o quarto de Bond, segurando o envelope na ponta dos dedos, como se Ele estivesse pegando fogo.

“Aconteceu uma coisa horrível. Madame. . .”

Bond pulou da cama em direção ao banheiro, mas a porta de comunicação estava trancada. Deu a volta pelo corredor, passando por uma empregada apavorada.

A porta do quarto de Vésper estava aberta. A luz do sol atravessava as venezianas e iluminava o quarto. Só o cabelo de Vésper aparecia fora do lençol, que cobria seu corpo moldado como uma efígie de pedra numa tumba.

Bond caiu de joelhos ao lado da cama e puxou o lençol.

Ela estava dormindo. Tinha que estar. Seus olhos estavam fechados. Não havia mudança alguma naquele rosto adorado. Parecia dormir. Mas estava tão quieta — não se mexia, não respirava, seu pulso não batia.

Mais tarde, Monsieur Versoix tocou no ombro de Bond. Apontou para o copo vazio na mesinha ao lado da cama. Tinha um resíduo branco no fundo. Estava ao lado de um livro, dos cigarros e dos fósforos, e de um pequeno amontoado patético: um espelho, o batom e um lenço. No chão, estava o vidro vazio de pílulas para dormir que Bond vira no banheiro na primeira noite.

Bond levantou-se. Versoix ainda estava segurando o enve lope. Bond apanhou-o.

“Por favor, avise a Polícia”, pediu. “Se eles precisarem de mim, estarei no meu quarto”.

Saiu do quarto sem enxergar nada e sem olhar para trás.

Sentou-se na beirada da cama e viu o mar calmo através da janela. Depois examinou o envelope. Uma letra grande e redonda escrevera simplesmente “Pour lui”.

Ocorreu a Bond que ela deveria ter deixado ordens para ser chamada bem cedo, para não ser encontrada por Ele.

Virou o envelope na mão. Havia pouco tempo que ela o levara aos lábios para umedecer a cola.

Um arrepio correu pelo corpo de Bond. Então Ele abriu o envelope.

A carta não era longa. Depois das primeiras palavras, Ele leu tudo muito depressa, respirando com dificuldade.

Então jogou a carta na cama, como se tivesse deparado com um escorpião.

A carta começava assim:

“Meu querido James:

Amo você com todo o meu coração, e enquanto você lê estas palavras espero que ainda me ame, porque este é o último instante em que me amará, depois de ler estas palavras. Por isso, adeus, meu doce amor, enquanto nós ainda nos amamos. Adeus, meu querido.

Sou uma agente da MWD. Sim, sou uma agente dupla a serviço dos russos. Trabalho com eles desde um ano depois do fim da guerra. Apaixonei-me por um polonês da RAF. Ainda estava apaixonada por ele, quando você entrou em minha vida. Você pode descobrir quem é Ele. Ganhou duas medalhas e depois da guerra Fez um treinamento com M, antes de ser enviado de novo para a Polônia. Lá foi preso e torturado. Desta maneira, eles souberam uma porção de coisas, inclusive a meu respeito. Então, procuraram-me e disseram que ele ficaria a salvo se eu trabalhasse para eles. Ele não sabia nada disso, mas tinha permissão para me escrever. As cartas chegavam no dia 15 de cada mês. Eu descobri que não deveria viver sem Ele. Não agüentaria o fato do que poderia acontecer um dia 15 sem uma carta dele. Porque isto significaria que eu seria responsável pela sua morte. Tentei fornecer a eles o menor número de informações possível. É preciso que me acredite. Foi quando surgiu você. Informei a eles que você fora encarregado do serviço em Royale, que identidade você estaria usando, e tudo o mais. Isto explica como eles sabiam que você iria chegar e o fato de que tiveram tempo de colocar os microfones antes que você chegasse. Já suspeitavam de Le Chiffre, mas não sabiam exatamente o que você iria fazer. Só sabiam que tinha alguma coisa a ver com Le Chiffre. Isto foi tudo o que lhes informei.

Recebi ordens para não ficar atrás de você no cassino, e para fazer o possível para afastar Leiter e Mathis. Foi por isso que aquele pistoleiro quase lhe matou. Depois, tive de fingir o rapto. Você deve ter ficado intrigado com meu silêncio na boate. Eles não me machucaram, porque eu estava trabalhando para a MWD.

Mas quando descobri o que haviam feito com você, apesar de tudo ter sido feito por Le Chiffre e Ele fosse um traidor, decidi que não poderia continuar. Nessa ocasião, já começava a apaixonar-me por você. Eles queriam que eu descobrisse coisas a seu respeito, enquanto estivesse convalescendo, mas recusei-me. Eu era controlada por Paris. Tinha de ligar para um número dos Invalides duas vezes por dia. Eles me ameaçaram; finalmente, deixaram de me controlar. Então soube que meu admirador, na Polônia, seria morto. Mas eles talvez estivessem com medo que eu falasse e me avisaram pela última vez que, se eu não obedecesse, a Smersh viria no meu encalço. Não tomei conhecimento. Estava apaixonada por você. Então vi o homem com a venda preta no Splendide e soube que Ele estivera fazendo perguntas a meu respeito. Isso aconteceu um dia antes de virmos para cá. Tive esperanças de despistá-lo. Resolvi viver uma aventura com você e depois fugir para a América do Sul. Esperava ter um filho seu e recomeçar a vida em outro lugar. Mas eles nos seguiram. Ninguém escapa deles.

Eu sabia que, se contasse a você, seria o fim do nosso amor. Cheguei à conclusão de que duas coisas poderiam acontecer: ou eu esperava que a Smersh me matasse, e talvez matassem você também, ou me suicidava.

Eis tudo, meu querido amor. Você não pode impedir que o chame de querido amor, nem impedir que eu diga que o amo. Levo isto comigo, e a sua lembrança também.

Não posso dizer muita coisa para ajudá-lo. O número do telefone de Paris era 55200, Invalides. Nunca me encontrei com nenhum deles em Londres. Tudo era feito através de um endereço intermediário, uma agência de notícias em Charing Cross Place, n.° 450.

Na primeira vez que jantamos juntos, você falou sobre aquele homem que foi considerado culpado de traição na Iugoslávia. Ele disse: “Fui levado pelo turbilhão do mundo”. Essa é também a minha única desculpa. Isso e o amor por um homem cuja vida tentei salvar.

Já é muito tarde, estou cansada, e somente duas portas nos separam. Mas preciso ter coragem. Você poderia salvar minha vida, mas depois eu não agüentaria o seu olhar, que tanto adoro.

Meu amor, meu amor. V.”

Bond jogou a carta no chão. Automaticamente esfregou os dedos uns contra os outros. De repente bateu nas têmporas com os pulsos e levantou-se. Olhou o mar calmo pela janela, depois praguejou em voz alta, um enorme palavrão.

Estava com os olhos molhados e enxugou-os.

Enfiou uma camisa e uma calça, com o rosto frio e composto desceu as escadas e trancou-se na cabine telefônica.

Enquanto esperava a ligação para Londres, passou calma mente em revista os fatos relatados na carta de Vésper. Tudo se encaixava perfeitamente. As pequenas sombras, os sinais de interrogação que haviam aparecido nas últimas quatro semanas, que seu instinto notara, mas que sua cabeça rejeitara, tudo estava claro agora como um letreiro luminoso.

No momento, só conseguia ver Vésper como uma espiã. Relegara o amor e a dor para um canto escuro de sua memória. Mais tarde, talvez esses sentimentos voltassem à tona, se exami nados friamente, e então tornaria a escondê-los com amargura, junto com outros assuntos sentimentais que desejava esquecer. Mas naquele momento, só conseguia pensar que ela traíra o Serviço e a pátria, e em todo o mal que causara. Profissional mente, analisava as conseqüências do caso — os disfarces desco bertos naqueles anos todos, os códigos que o inimigo decifrara, os segredos que devem ter escapado daquela seção que se dedi cava especialmente a obter informações sobre a União Soviética.

Era horrível. Só Deus sabia como aquela encrenca toda poderia ser consertada.

Bond sorriu amargamente para si mesmo. Enquanto ficava brincando de mocinho e bandido (sim, a imagem de Le Chiffre era perfeita), o verdadeiro inimigo estivera trabalhando bem a seu lado, calma e friamente, sem heroísmo algum.

Teve então uma visão: Vésper andando por um corredor, carregando uns documentos na mão. Numa bandeja. Eles rece biam as informações numa bandeja enquanto Ele, o frio agente secreto, um duplo-zero, andava namorando pelo mundo afora, brincando de mocinho e bandido.

Bond cravou as unhas nas palmas das mãos; sentiu tanta vergonha que seu corpo se cobriu de suor.

Bem, mas não era tarde demais. Ele tinha um alvo bem à mão. Passaria a ocupar-se com a Smersh. Sem a Smersh, essa fria arma de morte e vingança, a mwd seria somente outro grupo de espiões do serviço público, nem melhor nem pior que os serviços ocidentais.

Smersh era a recompensa. Ele agora sabia como se agia dentro dela: seja leal, faça um bom trabalho de espionagem ou você morrerá. Sem a menor dúvida, inevitavelmente, você será perseguido e morto.

Toda a máquina russa funcionava daquela maneira. É o medo que impulsiona as pessoas. Para eles, era sempre mais seguro avançar do que recuar. Avance contra o inimigo, porque há uma chance de que a bala não o acerte. Mas se você recuar, fugir, trair, a bala não errará o alvo.

Mas Ele agora atacaria a arma que tem o chicote e o revól ver na mão. Esta estória de espionagem poderia ser deixada para os rapazes de colarinho e gravata. Eles podiam espionar e pegar espiões. Ele, Bond, perseguida a ameaça que fica atrás dos espiões, a ameaça que os fazia espiões.

O telefone tocou, Bond pegou o fone.

Estava falando com “O Elo”, um oficial de ligação que era o único homem em Londres para quem Ele poderia telefonar de fora do país. E só em último caso.

Bond falava baixinho, dentro do fone.

“Quem está falando é o 007. Estou num telefone público. É uma emergência. Você está me ouvindo?. . . Transmita isto imediatamente: 3030 era um agente duplo a serviço dos vermelhos…”

“Sim, que diabo!, eu disse era. Aquela vaca morreu”.

Cassino Royale (Ian Fleming) © 1965 – Todos os direitos reservados à Civilização Brasileira S.A. e Grupo Editorial Record.